LOGIN“Era loucura".
Não teria outra explicação, pensou Ian.
Desde que conheceu a jovem empregada na biblioteca, pegava-se espiando-a pela casa. Regozijava de prazer ao vê-la pelos cantos com os livros que lhe dera na mão. Adorava observá-la colhendo as flores do jardim para montar os vasos... E, principalmente, amava a maneira como ela cheirava suas camisas quando ia lavar.
Cada movimento de Mairi entrava em sua mente e não saía mais de lá. O problema é que este sentimento estranho e desconhecido para ele também poderia lhe trazer problemas. A moça era somente uma empregada, e Ian, um Lord inglês. Logo teria que se casar com alguma moça de família importante e continuar a manter o bom nome dos McGreggor.
— No que está pensando, Ian?
Olhou para o homem sentado na poltrona. Allan Hatton era seu melhor amigo. Os dois haviam estudado juntos em Londres, e sempre se deram bem. Eram cúmplices das facetas da mocidade. Ajudavam-se mutuamente, e ele estava lá quando daquela desgraça no dia do seu casamento, dando-lhe todo o apoio. Além disso, Allan era um grande advogado, e cuidava dos negócios de Ian.
— Não estou pensando em nada, Allan. – Ian sentou-se na poltrona à frente da de Allan.
O amigo sorriu.
— Ah, conheço esse olhar de peixe morto...
— Por favor, Allan. Não me venha com piadinhas! O momento é serio!
— Sim, eu sei.
Allan mexeu nos papéis que tinha na mesinha.
— Estou preocupado com você, Ian. Infelizmente, existem provas contra você. Algumas testemunhas viram você subindo pro quarto momentos antes da morte de Lady Eleanor.
— Era nossa noite de núpcias! É claro que eu deveria ir até o quarto! Além disso, não fui eu que a matei. E porque roubaria aquele colar horroroso que minha mãe me fez dar àquela mulher?
— Eu sei que não faria isso, meu amigo. E, por favor, tente ser mais saudoso em falar de Eleanor. Num tribunal, chamar sua falecida noiva de "aquela mulher" pode lhe comprometer.
— Nós dois sabemos que ela tinha um amante. E também sabemos que eu nem me importava. Detestava-a. Era insuportável. Só se preocupava com roupas e futilidades. Achava estranho eu gostar de literatura... Aliás, sempre me olhou como se eu fosse um mostro.
— Não podemos culpá-la, seu feioso.
Ian o olhou feio. O amigo loiro adorava vir com brincadeiras nos momentos mais impróprios.
— Veja o que pode fazer por mim, Allan.
— Farei o que puder Ian. Não se preocupe.
— Não estou preocupado. – Disse, levantando-se e indo até a janela. De lá via Mairi sentada embaixo da sombra de uma árvore, lendo um livro. – A justiça sempre prevalece. E tenho certeza que a verdade aparecerá.
Allan juntou-se ao amigo.
— Ora... Que bonitinha sua empregada – observou, malicioso.
Conhecendo Allan tão bem quanto conhecia, sabia que o amigo lhe estava provocando.
—
Chama-se Mairi – contou.— Que lindo nome.
— Sim... é uma moça especial. Muito doce e...
— ...E bem diferente de Eleanor – completou o loiro.
Ian ergueu as sobrancelhas.
— Nem a compare a Eleanor. Mairi é apenas uma menina humilde. Eleanor era uma Lady.
Apesar das palavras serem pronunciadas num tom calmo, Allan captou algo na voz de Ian que o preocupou.
— Por favor, Ian. Não vá me seduzir a moça.
Conhecendo o talento de Allan para defender os fracos e oprimidos, Ian apenas sorriu.
— Não se preocupe. Quero-a apenas como amiga.
— Que assim seja.
Quando Allan foi embora, Ian não resistiu e acabou juntando-se a Mairi no lago. Ela estava linda, apesar das vestes velhas e da toca horrorosa que não permitia que Ian visse seus cabelos. Como seriam? Loiros, negros... Ian não fazia ideia!
Talvez pudesse dar-lhe roupas novas... Vestidos lindos de seda... Não! Deste jeito, acabaria com a reputação da moça. Alguns empregados já haviam comentado sobre o evento da cozinha.
— O que achou do livro, Mairi?
— Lord Ian!
Ela havia se assustado. Não percebera a chegada dele. Que homem enigmático! Assustava e tranquilizava ao mesmo tempo.
— Gostei muito, milord.
Estava sentada sobre o gramado. Ian pensou que nunca em toda a sua vida havia visto visão mais linda e pura. Como era diferente das mulheres que ele conhecia. Nenhuma outra se sentaria em um jardim para ler um livro. Mas Mairi não parecia se importar.
— Está pensando nela?
Ele olhou-a assustado. Percebeu seu olhar triste, mas não entendeu a pergunta.
— Como?
— Percebi que estava voando em seus pensamentos –murmurou. — Oh... Desculpe-me. Não queria ser inconveniente.
Ele sorriu.
— Somos amigos, Mairi. Isso não existe entre nós... Mas quem seria "ela"?
Ela abaixou os olhos e ficou enrubescida.
— Ora... Lady Eleanor.
Sentiu vontade de rir. Reconheceu o ciúme no tom de voz, e se sentiu recompensado. Mas logo se arrependeu. Provavelmente a serva estava gostando dele. Isso não poderia acontecer, porque não poderia dar esperanças a uma reles serviçal.
Mas, entretanto, Mairi não era uma simples empregada. Era aquela que animava seus dias. Que lhe arrumava o café da manhã da maneira que gostava. Que ajeitava suas roupas, limpava seus livros com carinho e colocava talco em sua cama para que quando ele fosse dormir, sentisse o perfume.
Mas não era o perfume do talco que ele queria sentir. Ela o dela. Sem conseguir evitar o pensamento, acabou levando-se ao próprio quarto e vendo Mairi deitada em sua cama, com longos cabelos espalhados em seu travesseiro, e o corpo nu escondendo-se em seus lençóis.
— Mairi...
Ela levantou os olhos. Seu nome foi dito quase como um gemido.
— Senhor?
— Não estava pensando em Eleanor – respondeu sua pergunta. — Na verdade, nunca pensei nela. Em nenhum momento da vida... Pelo menos, não da maneira que penso em você.
Ela o olhava, confusa. Ian acabou irritando-se com a própria fraqueza e com a confissão.
— Está chocada?
Mairi não sabia o que dizer. Não entendera as palavras dele antes, e agora ele parecia seriamente raivoso.
— Com o que, senhor?
— Com o fato de eu não ligar a mínima pra minha ex-noiva? Por eu ter passado o noivado todo querendo que ela morresse? Detestava aquela mulher. Imaginava que horrível seria minha vida ao lado de uma vagabunda como ela.
Mairi ficou nervosa. Parecia que iria pular nela. A mudança do rapaz calmo que se achegou a ela naquela tarde para conversar, para o homem frio que a encarava e dizia aquelas coisas terríveis era muito radical. Seria possível que Ian tivesse realmente matado Lady Eleanor, como todos na cidade falavam?
— Não sou um santo, Mairi. Não sou perfeito.
— Não! – Não respondeu a ele... e sim aos próprios pensamentos.
— Não? Não o quê? – Segurou-a pelos braços, não conseguindo se conter mais.
A empregada estava quase às lágrimas. Como uma linda tarde poderia acabar daquela maneira?
— Desde o dia em que nos conhecemos, Milord me trata com respeito, como se eu fosse uma igual, e não apenas uma mulher e serviçal. Todos sempre gritaram comigo, e me trataram mal pelo fato de eu não ter família e ser pobre... Mas o senhor sempre me tratou bem, como poderia achar que não é perfeito?
Ele soltou seus braços. Passou as mãos pelos cabelos negros e os olhos intensos encontraram os dela.
— Você é muito pura Mairi. Pura... Ingênua...
— O senhor é um bom homem!
Ian quase riu com aquela afirmativa. Ela acreditava nele de uma maneira que nem mesmo ele próprio nunca acreditara.
Sem conseguir resistir, ele segurou seus cabelos e uniu sua boca a dela. Desejara este beijo desde o primeiro dia que a viu, naquela biblioteca. Havia pensado nisso todas as noites antes de dormir e durante as conversas na mesa, no café da manhã, e em todos os momentos que se perdia naqueles olhos azuis.
O gosto dela era inebriante e a sensação daquele corpo perfeito contra o seu era ainda mais excitante do que qualquer outro momento amoroso que ele já havia passado. Inclinou a cabeça para beijá-la melhor e percebeu que os braços dela deslizaram pelo seu peito. Quando aquelas pequeninas mãos se enterraram nos cabelos dele, Ian perdeu a razão, só sabia que uma fome louca tomou conta de si.
Suas línguas dançavam e os corpos se apertavam. Deus! Ele a amava! Havia sido amor à primeira vista! Nunca gestos tão inocentes de uma mulher haviam mexido tanto com sua libido.
Percebeu que aquele beijo não bastaria, mas já era insensatez demais para um dia. Lutando contra o próprio corpo, separou as bocas e afastou-se um passo. Percebeu quando os olhos azuis se abriram, com a dúvida lá, presente.
— Sei que deveria me desculpar – disse –, mas não vou... Porque não consigo ver erro na minha atitude. Acho que estou ficando louco Mairi... E você é a culpada.
— Perdoe-me.
— Não – falou, gentilmente. – Se continuarmos a conversar agora, trarei vergonha sobre você. Sou um homem...
— E eu, uma mulher... – ela retrucou.
A resposta felina o satisfez.
— Meu amor... Você anda lendo muito os livros do Sr. Scott.
Ela sorriu.
— Não sou herói e bom como Wilfred, Mairi.
— Não... Você é melhor que ele.
Durante o beijo, Mairi finalmente entendeu o que sentia Rowenna de Ivanhoé. Agora ela sabia o que era o amor... E o que sentia por Ian. Percebeu o motivo de seu coração bater tão forte quando o via. Soube porque se preocupava com ele, e também porque queria tanto vê-lo feliz. Mas também sabia que jamais ficariam juntos. Ela não passava de uma empregada...
— É impossível – murmurou.
O tempo pareceu parar para eles. Encararam-se por algum tempo, até ela tomar a coragem.
— Continuar esta amizade será o mesmo que alimentar todos os dias o que sentimos um pelo outro. Nunca poderemos ficar juntos. E sei que morreria ao ver Milord com outra mulher. Então... o melhor é darmos um fim agora...
— Acha possível?
— Não sei... Nunca amei antes.
Aquela confissão tão docemente feita arrasou o coração do duque. Quando Mairi deu-lhe as costas e caminhou em direção à ala dos empregados, o rapaz sabia que o sensato era colocar um ponto final ali. A mandaria para a fazenda em Rievaulx. No castelo, dera ordens para que Mairi não trabalhasse mais tanto quanto antes. Ela poderia ser governanta na fazenda e não mais ficaria se desgastando nas atividades domésticas. Ganharia seu salário e até poderia se casar com algum peão. E ele nunca mais a veria. Isso! Era isso que ele faria.
O problema de tudo foi que as pernas não obedeceram à mente, e antes que ela entrasse no castelo ele lhe segurou o braço e puxou-a contra si.
— Você confia em mim?— Perguntou desesperado.
— Mais que na minha própria vida.
Ele sorriu.
— Prometo— lhe, Mairi... Darei um jeito de ficarmos juntos.
Nenhuma palavra mais precisava ser dita para inundá-la de felicidade.
Um mês depois...A duquesa de York desceu as escadas com rapidez. A porta frontal do grande castelo se abriu, e dois homens entraram por ela. Mairi se aproximou deles, preocupada.— E então? Como foi?Ian retirou o casaco e o deu ao mordomo, James, que se aproximou, junto com a lady de York.— Eu consegui comprar a liberdade de Benjamin. Mas ele terá que ir embora para o Novíssimo Mundo.— Muitos condenados aqui na Inglaterra precisam pagar por seus crimes trabalhando na Austrália – explicou Allan, que vinha junto com o irmão.Tocando no braço do marido, ela perguntou:— Mas como ele está se sentindo?— Ainda triste pela morte de Perpétua, mas melhor. Sempre foi trabalhador, e dei-lhe o colar para que o venda e compre terras. Torço para que meu irmão tenha a chance de ser feliz.— Vou rezar todas as noites para que ele encontre uma esposa e paz, mesmo longe de vocês dois – ela sorriu.Ian segurou o braço da esposa e a encaminhou até a biblioteca. Allan os acompanhou, e os três sentara
A tempestade se intensificou. O uivo do vento mais lembrava um lamento sobrenatural que uma simples ação da natureza. A chuva caía forte, como se o céu estivesse com raiva, e punia a terra, ainda úmida da neve que outrora cobria os vastos pátios de York.Ali estava ela. Uma jovem mulher grávida, vivendo a plenitude do descobrimento da paixão, morando em um castelo que datava de muitos séculos, duquesa... todas as características românticas dos sonhos de qualquer jovem.Fechando os olhos, ela lembrou como chegara até lá. Pobre, serva e sem nenhum grande atrativo físico, de alguma forma foi notada pelo Lord de York. De menina que limpava ladrilhos, agora era Mairi McGreggor, a mulher mais rica de todo o condado.Mas ela iria morrer...Por quê? Qual fora o grande pecado de sua vida, para merecer tamanho castigo? Aquela noite estava programada para ser feliz. Allan deveria ter entrado no castelo, corrido até ela e a abraçado. Juntos, ele lhe contaria os dias terríveis que passou na prisão
A hora do jantar já havia passado e, até agora, nenhum dos empregados a havia chamado para comer.Era estranho!Apesar de ela saber, de alguma forma, que não conseguiria engolir nada enquanto não visse o rosto de Hatton entrando pela porta, não havia comunicado a nenhum dos servos. Como eles podiam saber que ela não iria jantar? Na época em que era empregada, jamais deixaria algo assim acontecer. Nem Perpétua. Onde estava a governanta, que não tomara providências?— Deixe de bobagens, Mairi – recriminou a si mesma pelos pensamentos tolos.Na verdade, estava tão preocupada com a demora de Ian que tentava pensar em outras coisas, e até em pequenos problemas domésticos, como um jantar atrasado.Por fim, resolveu levantar e ver o que acontecia. A barriga atrapalhava até mesmo o levantar da cadeira, e as dores que havia sentido antes a deixaram receosa.— Foi apenas uma contração... – murmurou, baixo.Também havia tido uma contração durante a tarde, e outra conversando com Jane. Será que o
— Precisarei olhar os túneis... – balbuciou nervoso.— Estão à disposição – confirmou Ian, rapidamente.Steph começou a tamborilar os dedos na mesa de madeira escura.— Mas isso não explica o estado nervoso de Allan Hatton durante seu casamento com Eleanor.— Allan havia acabado de me avisar que Eleanor tinha um amante.Morris enrubesceu.— Mas...— Por favor, ouça-me. Tenho provas! O diário que lhe trouxe foi encontrado por minha esposa, dentro do roupeiro de Eleanor. Existe o registro de casamento, e demais documentos que a família de Eleanor pode providenciar, que comprovará que a letra pertence à finada. Este diário é realmente o de minha falecida noiva, tenho certeza! E nele você constatará que Eleanor não só tinha um amante, como estava grávida dele.— Grávida?A pergunta veio das grades. Ian virou-se de costas a Steph e foi até Allan.— Lamento muito, Allan. Mairi e eu já sabíamos há muito tempo, mas tantas coisas aconteceram, entre elas sua doença e a morte de minha mãe, que a
Ao longe, podia-se ouvir o som dos trovões. O dia foi anormalmente abafado, mas agora um vento frio soprava do norte, trazendo o prenúncio de uma grande tempestade. Allan tapou o rosto com a coberta e tentou dormir.Que se danasse o tempo!Antes de ir parar naquela maldita cela, ele amava adormecer com chuva. O sono parecia velado por anjos, ao ouvir o som divinal de pequenas gotas caindo contra o telhado. Naquele momento, porém, nada mais importava. Estava cansado de ter sua liberdade privada por uma injustiça. Já fazia um mês que era obrigado a acordar e viver dentro daquela cela, e, pior, aguentar Steph Morris o dia todo.Neste exato momento, o investigador comia amendoim, sentado numa cadeira de frente para as grades de Allan. Suspirando, o loiro pensou em quando ficaria livre deste martírio.— Se era para ser preso, porque não me mandaram para uma cadeia grande, onde eu não precisasse olhar o rosto deste cara? – resmungou.— O que disse? – indagou Morris, observando o loiro.Resp
~~~~~000~~~~~Ian jamais entenderia o motivo de ter saído a cavalo, já escuro, em direção ao condado. A viagem era curta, cerca de meia hora em dia claro, mas, durante a noite, levaria mais tempo. O vento era forte e abafado. Ao longe, raios iluminavam o horizonte, e Ian se arrepiou.Um mau pressentimento...Parou o cavalo no meio da estrada e olhou para trás. Devia voltar! Mas não podia. Mairi o queimaria vivo e daria o resto aos cachorros se ousasse aparecer em casa sem Allan.Respirando pausadamente, enxotou os maus pensamentos. Na verdade, morria de medo de ficar longe dela e algo de ruim acontecer. Isso podia se tornar até doentio, então era importante que eles se afastassem um pouco, mesmo que apenas algumas horas.Antes de sair do castelo, solicitou a James que ficasse de guarda e vigiasse Mairi. A esposa ficou na biblioteca lendo após o jantar, e ele foi até a baia. Pegou o melhor cavalo e amarrou nele a égua árabe de Mairi para servir a Allan, que provavelmente usaria o anima







