LOGINMilena O silêncio que ficou na casa depois do surto do Ulisses por causa da mãe dele continuava pesado, parecendo uma nuvem escura cobrindo todos os cômodos. Eu estava jogada no sofá da sala há quase uma hora, encarando o teto e sentindo o meu peito apertar de dor. Eu não podia continuar ali parada, chorando pelos cantos e aceitando que o homem da minha vida me tratasse como uma estranha qualquer que tinha invadido a mansão dele.Eu precisava reagir! Precisava fazer o cérebro dele funcionar de um jeito ou de outro!Levantei do sofá num pulo só, limpando as lágrimas do rosto com as costas da mão e ajeitando o meu vestido no corpo. O meu coração batia acelerado, mas a minha mente estava tomada por uma determinação cega. Peguei o meu celular em cima da mesa de centro e abri a galeria de imagens, procurando por cada momento nosso que estava registrado ali.Subi a grande escadaria de mármore a passos largos e fui direto para o nosso quarto principal no segundo andar.Empurrei a porta de m
Milena— Não se preocupe, a memória dele tem boas chances de voltar, cerca de 60% de chance de memória, pelo tipo de acidente que ele sofreu ele tem boas chances…—A médica disse tentando me tranquilizar, mas isso não me ajudou em nada. Aquilo me congelou por dentro. O barulho suave do aparelho de monitoramento cardíaco parecia preencher todo o silêncio doloroso daquele quarto de hospital. Eu continuava parada, estática, tentando engolir o nó gigante que tinha se formado na minha garganta depois das palavras devastadoras da médica. Olhar para o Ulisses e ver apenas o vazio nos olhos azuis dele era uma dor que rasgava a minha alma ao meio.A Dra. Helena deu um passo à frente, ajustando a prancheta de metal na mão e quebrando o clima sufocante que tinha se instalado entre nós.— O impacto na cabeça foi forte, mas a recuperação física dele foi um verdadeiro milagre ao longo deste mês — a médica começou a explicar com um tom de voz calmo e profissional. — O Doutor Ulisses vai precisar f
MilenaAquele tom de voz gelado e a expressão de indiferença de Ulisses cairam sobre mim de forma tão pesada que foi como se o teto desabasse. Dei dois passos para trás encarando Ulisses com os olhos arregalados, esperando a qualquer segundo ver aquele sorrisinho torto que ele sempre dava quando queria me provocar.A minha cabeça simplesmente não conseguia processar a ideia de que o homem que tinha me dado um anel de diamantes e sussurrado palavras de amor no meu ouvido não sabia quem eu era.— Como assim, quem sou eu, Ulisses?! — perguntei com a voz trêmula e falhada, soltando uma risadinha sem graça para tentar disfarçar o desespero horroroso que começava a subir pela minha garganta. — Que tipo de brincadeira sem graça é essa agora?!Ulisses continuou me encarando com a testa franzida e a cara fechada, ajeitando o gesso pesado do braço contra o peito como se eu fosse uma completa estranha perigosa que tinha invadido o quarto dele.— Para de fazer graça, por favor! Não é hora para
Milena Aquelas duas palavras da enfermeira — "Ele acordou!" — ecoaram na minha mente como uma explosão de vida no meio do meu desespero. O meu coração deu um salto tão violento dentro do peito que parecia que ia quebrar as minhas costelas. Eu não consegui nem responder nada para a mulher do outro lado da linha. Apenas desliguei o telefone, tomada por uma onda de adrenalina pura e incontrolável.Enfiei o celular descartável com a mensagem do tal de “Igor” dentro da minha bolsa de qualquer jeito, junto com as minhas chaves, sem nem parar para pensar no mistério daquela mensagem estranha. Naquele milissegundo, nada disso importava mais para mim. A única coisa que existia no universo era o homem da minha vida abrindo os olhos depois de um mês inteiro preso naquele coma horrendo.Corri para o quarto principal da mansão como uma louca, com o peito arfando e as pernas trêmulas. Não perdi nem dois segundos escolhendo roupas. Peguei o primeiro vestido florido que vi pendurado na frente do arm
Milena Apertei o tecido da camisa social de algodão contra o meu nariz, puxando o ar com força para ver se ainda encontrava o cheiro do perfume amadeirado dele. Aquela camisa gigantesca do Ulisses caía como um vestido no meu corpo pequeno, cobrindo as minhas pernas até perto dos joelhos. Eu estava sentada na cadeira de couro preta do escritório dele, dentro da nossa mansão silenciosa, encolhida como uma criança assustada enquanto as lágrimas frias queimavam o meu rosto sem parar.Olhei para a janela do escritório e vi a noite escura caindo sobre o jardim.Parecia que tinha sido ontem. O barulho aterrorizante do metal se contorcendo na avenida, o clarão dos faróis altos, os vidros voando na minha direção e o corpo do homem que eu amava ensanguentado, jogado sobre o volante do carro destruído. Aquela cena macabra repetia na minha cabeça mil vezes por dia, como um pesadelo infinito do qual eu nunca conseguia acordar.O relógio de parede do escritório batia os segundos de forma lenta e c
Milena O silêncio do elevador depois que as portas se abriram no subsolo do prédio era quase ensurdecedor. Minha cabeça ainda estava girando com tudo o que tinha acontecido lá dentro, mas eu sabia que precisava me recompor rápido. Ajustei o meu terno no corpo, limpei a garganta e dei um passo firme para fora da cabine metálica, pisando no chão de concreto frio do estacionamento privativo.As luzes amareladas do teto piscavam fraco, criando sombras compridas entre as colunas gigantes de sustentação. Aquele andar estava completamente deserto naquela hora da noite, já que eu tinha mandado reservar o prédio e o restaurante inteiro só para nós dois. Mas, assim que dei dez passos em direção ao meu carro esportivo preto, um arrepio gelado subiu pela minha espinha.Parei por um segundo no meio do corredor de concreto, enfiando as mãos nos bolsos da calça.Tinha alguma coisa errada ali.O eco de um estalo de sola de sapato bateu contra as paredes do fundo. Olhei rapidamente para trás, varrend







