FAZER LOGIN— Vamos então — retomando o fio principal da narrativa depois de tanto tempo mergulhado no passado dos meus pais — para o dia em que Juan Fran e Carmensita finalmente chegaram a Alella, para aquele jantar oficial que ia mudar tudo.
Todos os ouvintes se concentraram naquela retomada importante.
— Como foi a chegada deles? — perguntou Marta, ansiosa como sempre.
— De acordo com as conversas que tive com Juan Fran, os dois chegaram
— Uma crise de nervos? — repetiu Marta, os olhos arregalados. — O Danilo? Aquele que você descreveu como o rei absoluto da compostura?— O mesmo — confirmei, deixando um sorriso pequeno escapar. — E, olhando em retrospecto, acho que foi ali, naquela noite, que vi minha primeira rachadura de verdade naquela fachada que ele levou a vida inteira construindo.Peguei o copo que tinha ficado esquecido na mesinha, girei o conteúdo distraidamente, e voltei àquela casa, algumas horas depois de o carro de Carmensita e Juan Fran ter desaparecido na estrada.Danilo tinha ficado sozinho na sala de visitas por um bom tempo antes de minha mãe aparecer. Mandara os empregados recolherem as taças e fecharem a cozinha mais cedo do que o habitual, dizendo que ele mesmo cuidaria do resto — um pedido que, na época, até acharam estranho porque quem cuidava dessas coisas sempre foi minha mãe, mas que era só mais uma peça do quebra-cabeça: ele queria estar sozinho, sem ninguém por perto para notar o que quer
— Espera aí — interrompeu Manolo, franzindo a testa. — Você disse que sabia que não era só cansaço. Como assim? O que você tinha percebido, exatamente?— Essa é a pergunta que eu mesmo passei dias tentando responder — respondi, ajeitando-me no sofá, a memória daquela noite ainda nítida como se tivesse acontecido na semana anterior. — Porque, naquele momento, eu não tinha provas de nada. Só tinha uma sensação inquieta, do tipo que a gente sente quando alguma coisa está errada, mas ainda não sabe apontar o dedo para onde.Deixei o copo na mesinha e voltei àquela noite, tentando organizar, para a plateia ali reunida, as peças soltas que só fizeram sentido muito tempo depois.A primeira coisa que me incomodou foi o jeito como meu pai interrogou Juan Fran. Na hora, parecia zelo paterno — todo pai quer saber quem é o rapaz que está namorando a filha, de onde vem, o que pretende fazer da vida. Mas havia algo na insistência dele, na forma como repetiu a pergunta sobre a origem da família, com
— Miguel, e a sobremesa? — quis saber Dulce, que parecia ter uma queda especial por detalhes de comida sempre que eu contava alguma cena de refeição. — Vocês, Menendez, nunca fazem nada simples.— Nunca mesmo — respondi, rindo. — E aquela noite não foi exceção.O jantar se encerrou com uma Crema Catalana que minha mãe fazia questão de servir a qualquer visitante importante, seguida da tradicional mudança de cômodo: café e licor na varanda dos fundos, onde as luzes baixas e a vista para as videiras costumavam suavizar qualquer tensão que a mesa de jantar tivesse acumulado.Não suavizaram tudo, dessa vez.Minha mãe, com uma taça pequena de licor de amêndoas na mão, puxou Carmensita para o canto mais afastado da varanda, os olhos brilhando com um interesse que ia muito além da cortesia de anfitriã.— Preciso confessar uma coisa — disse ela, baixando a voz como quem revela um segredo antigo. — Quando eu era mais nova, sonhava em estudar dança. Nunca cheguei nem perto, minha família não ti
— Espera, espera — interrompeu Marta, levantando a mão como se aquilo fosse impedir a própria história de continuar sem sua permissão. — Antes de você contar o que aconteceu, eu preciso saber: o Danilo desceu sabendo quem eram os visitantes, ou foi pego completamente de surpresa?— Essa é exatamente a pergunta certa — respondi, apontando para ela com um gesto de aprovação. — Porque a resposta muda tudo.Ajeitei-me melhor na ponta do sofá, deixando a xícara já vazia sobre a mesinha, e voltei àquela noite como se ainda pudesse sentir o calor entrando pelas janelas altas da sala de visitas.Danilo desceu as escadas ajustando os punhos da camisa, o mesmo gesto automático que ele fazia sempre antes de entrar em qualquer cômodo cheio de visitas — um hábito que, segundo minha mãe, vinha de décadas recebendo compr
— E aí, Miguel, o táxi já tinha parado no portão — Manolo se antecipou, sempre com uma pergunta pronta antes mesmo de eu terminar de me acomodar de novo no sofá. — O que aconteceu depois?— Calma, calma — respondi, rindo daquela ansiedade contagiante que tinha tomado conta da sala inteira. — Deixa eu retomar o fio direito, porque essa parte merece ser contada com todos os detalhes.Peguei a xícara de café que a cozinheira tinha acabado de servir, tomei um gole demorado só para prolongar um pouco mais aquele suspense que eu mesmo estava construindo, e continuei.— Então lá estava Carmensita, com aquele passo mais firme do que o necessário, entrando pelo portão principal da propriedade, seguida de Juan Fran, que carregava um buquê de girassóis, escolhido com cuidado exagerado, destinado a Maria Teresa, para não chegar de
— Antes mesmo de chegarem à porta da casa — continuei, retomando aquele momento da chegada —, houve uma conversa entre Carmensita e Juan Fran que ele só me contou tempo depois, já processando tudo com outros olhos. Aconteceu ainda dentro do táxi, nos últimos minutos do trajeto, quando a vinícola já começava a aparecer ao longe.— Que tipo de conversa? — perguntou Marta, curiosa.— Carmensita, olhando pela janela para aquela extensão enorme de terra e prédios antigos que se aproximava, ficou quieta por um bom tempo, e depois, sem tirar os olhos da paisagem, perguntou ao filho: "Você tem certeza sobre isso, meu filho?"— Sobre o quê especificamente? — perguntou Núria.— Foi exatamente o que Juan Fran também perguntou, um pouco confuso com a formulação vaga da mãe — respondi.







