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Capítulo 6

Author: Mora Quintela
Enquanto Bianca ainda tentava conter a inquietação que lhe apertava o peito, Otávio desviou o olhar e recostou-se no banco de couro. O pomo de adão se moveu de leve.

— Entre no carro.

Só então o coração de Bianca pareceu se acalmar um pouco. Ela se inclinou e entrou.

A porta se fechou, isolando do lado de fora o ar úmido e abafado daquela tarde em Porto Nobre.

O Maybach preto arrancou com uma suavidade impecável e logo se misturou ao fluxo de carros da via expressa do aeroporto. Pela janela, as placas passavam em borrões rápidos.

Aquele não era o caminho de volta para a casa dos Azevedo.

Também não seguia na direção da mansão dos Ferraz.

Embora estivesse havia dois anos longe de Porto Nobre, Bianca ainda se lembrava muito bem do traçado das principais avenidas. Virou o rosto e olhou para o homem ao seu lado.

Otávio mantinha os olhos fechados, como se cochilasse. O perfil dele, recortado pela alternância de luz e sombra, parecia ainda mais frio e marcado. A gola da camisa de seda subia e descia suavemente ao ritmo da respiração. No vão profundo junto à clavícula, havia uma cicatriz muito clara, quase imperceptível.

— Senhor Ferraz... — Bianca escolheu as palavras com cuidado. — Para onde estamos indo?

Otávio abriu os olhos devagar.

— Para o cartório.

Bianca ficou atordoada por um instante, achando que havia ouvido errado.

— O quê?

— Registrar o casamento.

O braço de Otávio repousava com naturalidade sobre o apoio central. A manga da camisa, dobrada até o cotovelo, revelava um pulso firme, de pele clara e fria, onde veias azuladas se insinuavam sob a superfície.

— Seus pais não lhe contaram? — A voz dele não trazia a menor oscilação. — O casamento entre os Ferraz e os Azevedo ficou marcado para o fim deste mês. A documentação já foi encaminhada ao cartório. Hoje, só precisamos ir até lá e assinar.

Bianca abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.

Ela só havia decidido ocupar o lugar da meia-irmã dois dias antes, praticamente sem escolha. Como poderia saber de todos aqueles detalhes?

Mas jamais imaginara que, assim que colocasse os pés em Porto Nobre, seria levada direto ao cartório.

Nem tempo para respirar ela teria.

— Mas... — Tentou encontrar alguma justificativa. — Eu acabei de descer do avião.

— Eu sei que você não quer isso. — Otávio fixou nela seus olhos escuros e insondáveis. Os lábios finos se entreabriram. — Por isso, o nosso será um casamento por contrato.

Bianca ficou imóvel.

Otávio desviou o olhar. O contorno de seu rosto, atravessado pela luz instável que entrava pela janela, parecia frio e inflexível.

— Minha avó não está bem de saúde e quer me ver casado. O prazo será de um ano. Cada um terá o que precisa.

Bianca apertou levemente os lábios, tentando assimilar aquelas informações.

— Então... O que o senhor precisa que eu faça?

Otávio virou o rosto para ela.

Na penumbra, seus olhos pareciam ainda mais profundos. Nas pupilas escuras, refletia-se a silhueta tensa de Bianca.

Por um instante, Bianca sentiu como se aquele olhar a envolvesse por inteiro, pesado o bastante para lhe prender a respiração.

— Seja a senhora Ferraz.

Houve uma breve pausa.

Os dedos longos dele bateram duas vezes no couro do banco, produzindo um som baixo e abafado.

— Quinhentos mil por mês para suas despesas pessoais. Ao fim do contrato, uma mansão em Enseada Clara.

O olhar de Otávio passou pelos lábios dela, levemente comprimidos.

— Além disso, os problemas da família Azevedo serão resolvidos pelos Ferraz.

As condições eram boas demais para que alguém pudesse recusar.

Bianca baixou os cílios e permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Durante o período do contrato... — Ela ergueu os olhos, cravando as unhas na palma da mão. — Eu vou precisar cumprir... Deveres conjugais?

Ao fazer a pergunta, Bianca ficou visivelmente tensa. Os cílios lançavam uma sombra delicada sob seus olhos, tremendo quase sem que ela percebesse.

Otávio a observou sem disfarçar. O olhar passou pela ponta da orelha levemente avermelhada, pelos lábios que ela mordia de nervoso, e então desceu.

O decote em V da blusa fina deixava à mostra a linha clara de sua clavícula.

Os olhos dele se detiveram ali por um segundo. Em seguida, ele desviou o olhar, e o pomo de adão se moveu de leve.

— Eu não sou nenhum santo.

Bianca ficou paralisada.

Quando enfim entendeu o sentido da frase, o rubor que já tingia suas orelhas se espalhou até o pescoço.

— Você aceita?

Bianca mordeu o lábio inferior.

Desde o momento em que concordara em substituir a irmã naquele casamento, já não havia caminho de volta.

— Aceito...

Ao vê-la assentir, Otávio fechou os olhos outra vez. O canto de sua boca se curvou num traço quase imperceptível, mas o sorriso desapareceu rápido demais para ser notado.

O Maybach preto atravessou a Ponte Atlântica, enquanto a floresta de concreto e aço de Porto Nobre recuava rapidamente pela janela.

Por fim, o carro parou diante de um edifício revestido de mármore cinza.

Bianca ergueu os olhos.

Era o Cartório Central.

Um dos cartórios de registro civil mais tradicionais de Porto Nobre, situado na encosta de uma colina, de onde se avistava todo o movimento luxuoso e frenético do centro financeiro.

Naquele momento, a entrada estava vazia. Apenas dois ou três funcionários uniformizados permaneciam ali, imóveis, à espera.

Era evidente que o local havia sido reservado para eles.

Otávio desceu primeiro.

Bianca estava prestes a abrir a própria porta quando ela foi puxada por fora.

Otávio estava parado diante do carro, com uma das mãos apoiada na porta, olhando-a de cima.

A luz da tarde vinha por trás dele, envolvendo sua silhueta num contorno dourado e discreto. Com o rosto parcialmente mergulhado na sombra, seus olhos pareciam ainda mais profundos.

Bianca ficou olhando por um segundo a mais. Depois, baixou os olhos e saiu do carro.

Assim que seus pés tocaram o chão, a mão de Otávio se aproximou de leve, como se a protegesse sem realmente tocá-la. Os dedos permaneceram a uma distância mínima, formando ao redor dela uma proteção discreta, quase imperceptível.

A distância entre os dois era pequena demais.

Bianca conseguia sentir o cheiro dele, uma mistura de cedro com um leve traço de tabaco. Frio, marcante, perigosamente invasivo.

— Obrigada...

Otávio não respondeu. Apenas recolheu a mão e virou-se de lado, abrindo passagem para que ela seguisse à frente.

— Senhor Ferraz...

Um homem de meia-idade veio depressa ao encontro deles na entrada do cartório. Usava um terno escuro, e no crachá preso ao peito lia-se: Oficial de Registro.

— Está tudo pronto.

Otávio assentiu de leve, mantendo a expressão serena.

O saguão era amplo e vazio. O ar-condicionado estava forte demais.

Sobre a mesa, os documentos já haviam sido organizados. Duas canetas estavam lado a lado sobre uma bandeja de veludo.

O olhar de Bianca caiu sobre o formulário de habilitação para casamento.

No campo indicado, o nome "Larissa Azevedo" parecia especialmente incômodo.

O funcionário empurrou os dois formulários na direção deles e apontou com a ponta dos dedos para o local da assinatura.

— Por favor, confiram as informações e assinem aqui.

Otávio pegou a caneta. A ponta ficou suspensa sobre o papel por meio segundo. Então desceu.

A assinatura dele saiu firme, limpa, sem a menor hesitação. O último traço quase rasgou a folha, e a tinta refletiu sob a luz com um brilho frio, azulado.

Então chegou a vez de Bianca.

Ela recebeu a caneta. Seus dedos estavam gelados.

No corpo da caneta ainda restava o calor da mão de Otávio, morno contra sua pele.

Bianca baixou a cabeça e escreveu o nome "Larissa Azevedo".

Escreveu devagar demais. Quando terminou o último traço, a ponta da caneta chegou a tremer.

O funcionário recolheu o formulário, virou-se e começou a digitar no teclado para acessar os dados.

Poucos instantes depois, a foto do documento de Larissa surgiu na tela.

O coração de Bianca disparou.

Ela viu a testa do funcionário se franzir quase imperceptivelmente. O olhar dele passou da tela para o rosto dela, depois voltou para a tela outra vez.

O ar dentro da sala pareceu congelar.

Bianca apertou os dedos com força, cravando as unhas na palma da mão.

"Acabou."

Como tinha sido ingênua a ponto de achar que conseguiria enganar todo mundo?

Que tipo de família eram os Ferraz? E que tipo de homem era Otávio?

Uma farsa grosseira como aquela, uma noiva substituta ocupando o lugar da própria irmã, talvez não resistisse nem meio dia antes de ser desmascarada.

E agora?

Se ela destruísse com as próprias mãos a última saída da família Azevedo, quando a fúria daquele herdeiro dos Ferraz caísse sobre eles...

"Toc, toc."

Duas batidas soaram, nem leves nem fortes demais.

Bianca virou a cabeça por instinto e viu Otávio ainda recostado na cadeira, como se nada daquilo merecesse sua atenção. Então ele ergueu os olhos e lançou ao oficial de registro um olhar impaciente.

Seus olhos eram muito fundos, as pupilas de um preto absoluto. Naquele momento, não havia emoção alguma neles. Eram calmos como um lago congelado, mas carregavam uma pressão pesada, silenciosa.

A expressão do oficial mudou discretamente. Todas as palavras que ele ainda pretendia dizer ficaram presas na garganta.

Em Porto Nobre, ninguém desconhecia a família Ferraz.

E ninguém, muito menos, queria ofender o senhor Otávio.

Além disso, se ela havia sido trazida pessoalmente por aquele homem, não poderia haver erro. Para completar, hoje em dia tanta gente fazia procedimentos estéticos... Muito provavelmente, a senhorita Larissa também havia mexido no rosto.

Ao perceber que Otávio já estava perdendo a paciência, o oficial não ousou se demorar. Clicou algumas vezes no mouse, com movimentos rápidos, e então pegou o carimbo oficial no canto da mesa.

"Pá!"

O selo em relevo foi pressionado sobre o papel.

— Parabéns, senhor Ferraz, senhora Ferraz. — Ele entregou o certificado com as duas mãos, sorrindo com extremo respeito. — Está tudo concluído. Desejo felicidades aos recém-casados.

Ainda atordoada, Bianca recebeu o documento, que parecia conservar o calor recente da impressão.

Uma crise que ela imaginara capaz de fazer o mundo desabar havia sido resolvida assim, em silêncio, sem deixar rastro?

A sorte dela...

Estava boa demais para ser verdade.
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