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Capítulo 7

Author: Mora Quintela
Bianca saiu do cartório acompanhando Otávio.

O sol da tarde em Porto Nobre era branco a ponto de ferir os olhos. Ondas de calor úmido flutuavam no ar, criando um contraste brutal com o ambiente gelado e climatizado lá dentro.

O Maybach preto estava parado em silêncio sob a sombra das árvores à beira da rua.

Otávio abriu a porta traseira e se colocou de lado, esperando que ela entrasse.

A luz do sol passava pelas frestas da copa das árvores, projetando sombras fragmentadas sobre suas sobrancelhas e seus olhos. Parado ali, ele parecia uma lâmina ainda presa à bainha: contido, silencioso, mas perigoso o bastante para ser sacado a qualquer momento.

Quando Bianca se inclinou para entrar no carro, sentiu o olhar dele pousar sobre ela.

Não era um olhar pesado.

Ainda assim, a presença dele era impossível de ignorar.

— Primeiro, vamos à mansão da família. Minha avó está esperando para conhecer você.

Otávio entrou logo depois. O som abafado da porta se fechando isolou boa parte do calor sufocante do lado de fora.

Bianca assentiu e estava prestes a dizer alguma coisa quando o celular dentro da bolsa vibrou de repente.

Era um número desconhecido de Santa Vitória.

O gesto dela parou no ar. Seu coração deu um salto inexplicável, como se um mau pressentimento tivesse escolhido justamente aquele momento para cair sobre ela.

Otávio lançou-lhe um olhar frio e breve.

Sem pensar duas vezes, Bianca recusou a chamada.

Mas, poucos segundos depois, o mesmo número voltou a ligar.

Bianca apertou os lábios e deslizou o dedo pela tela para atender.

— Bianca!

Assim que a ligação foi completada, a voz ansiosa de Eduardo explodiu do outro lado, carregada de uma raiva contida havia dias.

— Você saiu do hospital e nem voltou para casa? Para onde você foi? Tem ideia de quantas vezes eu liguei para você?

O coração de Bianca afundou de repente. Por instinto, ela olhou para o lado.

Em algum momento, Otávio já havia desviado os olhos e agora brincava com o isqueiro que segurava entre os dedos.

Ele não fazia nada. Apenas estava sentado ali em silêncio, sem sequer olhar para ela. Ainda assim, aquela presença discreta e imóvel fazia Bianca sentir uma pressão difícil de explicar.

Ela afastou um pouco o celular do ouvido e baixou a voz.

— O que você quer?

— Como assim, o que eu quero? Bianca, até birra tem limite! — A voz de Eduardo subiu de tom. — Eu admito que errei naquele dia. Mas você bateu na Carol. Meus pais estão fazendo um escândalo há dias, querem que você peça desculpas a ela... Quer saber? Depois a gente resolve isso. Onde você está? Eu vou buscar você. Precisamos conversar direito.

Pedir desculpas à Carolina...

Aquelas palavras foram como agulhas finas, espetando Bianca até deixar seus dedos dormentes.

De repente, tudo aquilo lhe pareceu ridículo.

Antes que pudesse responder, ouviu ao seu lado um clique discreto.

Ela virou o rosto por instinto.

Otávio havia tirado de algum lugar um pequeno frasco de remédios, sem rótulo algum.

Ele abriu a tampa, despejou duas ou três pílulas brancas na palma da mão e, sem nem olhar, levou-as direto à boca.

Bianca viu a linha da mandíbula dele se contrair. O pomo de adão se moveu. Então Otávio simplesmente mastigou os comprimidos, como se aquilo não tivesse gosto nenhum.

No silêncio do carro, o som seco da mastigação ficou estranhamente nítido, frio a ponto de fazê-la prender a respiração.

Bianca ficou paralisada. Por um instante, até se esqueceu de que Eduardo ainda falava sem parar do outro lado da linha.

Que remédio era aquele?

Ele estava passando mal?

Otávio lançou-lhe um olhar de lado. Com uma sobrancelha levemente erguida, estendeu o frasco em sua direção.

— Quer?

Bianca ficou sem palavras.

Ela nem sabia que remédio era. Como poderia aceitar?

Do outro lado da ligação, Eduardo obviamente ouviu a voz masculina. Seu tom escureceu de repente.

— Quem está aí com você? Bianca, com quem você está?

Bianca não lhe deu mais nenhuma chance de continuar fazendo barulho. Desligou a chamada sem hesitar e, com um movimento do dedo, desligou o celular de vez.

O interior do carro voltou ao silêncio num instante. Restaram apenas o sopro baixo do ar-condicionado e a presença intensa demais do homem ao seu lado.

— Namorado?

Otávio quebrou o silêncio de repente.

— Não. — Bianca balançou a cabeça de imediato. — Ex-namorado.

Otávio não respondeu. Limitou-se a soltar um "hum" baixo e ambíguo, sem deixar claro se acreditava nela ou não.

Ainda assim, seu olhar permaneceu por alguns instantes no rosto dela, carregado de uma avaliação silenciosa.

Só depois ele desviou os olhos para a paisagem urbana que passava depressa pela janela. Sua voz voltou ao tom habitual, calmo e sem ondulação.

— Já que nos casamos, algumas regras precisam ficar claras desde o começo.

Ele falava sem pressa, cada palavra medida.

— Primeiro: durante o período do acordo, você é a senhora Ferraz. Então, nas palavras e nas atitudes, mantenha a discrição.

Bianca assentiu.

— Entendido.

— Segundo: a família Ferraz é complicada. Não pergunte o que não deve perguntar, não se meta no que não deve se meter. Se alguém dificultar as coisas para você, me avise.

— Certo.

— Terceiro...

Ele fez uma pausa e voltou o rosto para ela.

O olhar profundo percorreu lentamente o rosto de Bianca, como se quisesse gravar cada nuance de sua expressão.

— Cuide bem da sua vida pessoal. Não me interessa como foi antes. Daqui em diante, não me faça ver quem eu não deveria ver, nem ouvir o que eu não deveria ouvir...

As palavras foram diretas. Havia nelas uma frieza dura, típica de alguém acostumado a não ser contestado.

Bianca sustentou o olhar dele, e sua voz também ganhou certa firmeza.

— Pode ficar tranquilo, senhor Ferraz. Já que aceitei o acordo, vou cumprir as regras. E espero que o senhor... Faça o mesmo.

Otávio ergueu levemente a sobrancelha, como se aquela reação o tivesse surpreendido.

Ele a observou por dois segundos. O canto de sua boca pareceu se curvar num sorriso quase imperceptível, rápido demais para que ela tivesse certeza.

— Claro.

Com as regras estabelecidas, o interior do carro voltou ao silêncio.

Bianca olhou pela janela. As ruas de Enseada Clara se tornavam cada vez mais familiares, e seu coração não pôde deixar de acelerar.

Ela estava prestes a conhecer a matriarca da família Ferraz.

Aquela senhora que, nas histórias de Porto Nobre, era capaz de decidir boa parte dos assuntos mais importantes dos Ferraz.

Enquanto isso, em Santa Vitória.

Eduardo encarava o celular, que havia sido desligado outra vez, com o rosto tomado por uma expressão sombria.

Ele tentou ligar de três números diferentes. A única resposta que recebeu foi a mensagem fria e mecânica informando que o aparelho estava desligado.

— Merda!

O celular foi arremessado contra a parede. A tela se partiu em rachaduras finas, como uma teia de aranha, e o camarote inteiro mergulhou num silêncio imediato.

Alguns amigos trocaram olhares. Um deles, com cautela, ofereceu-lhe um copo de bebida.

— Edu, se acalma. Você conhece a Bianca. Daqui a alguns dias, quando a raiva passar, ela mesma volta.

— Exato. Ela gosta tanto de você... Acha mesmo que vai conseguir ficar longe de você por muito tempo?

Eduardo virou de uma vez o copo de uísque. O líquido frio desceu por sua garganta, mas não conseguiu apagar o fogo que queimava em seu peito.

Irritado, ele puxou a gola da camisa para afrouxá-la.

Foi então que alguém, mexendo no celular, estalou a língua, surpreso.

— O herdeiro mais temido dos Ferraz, lá de Porto Nobre, vai se casar no fim deste mês.

— O senhor Otávio? Não diziam que ele estava doente, quase morrendo? E ainda consegue se casar?

— Deve ser casamento para espantar azar, né? A noiva é a filha mais velha da família Azevedo. O nome dela é... Larissa? Ei, Edu, essa família Azevedo não tem alguma coisa a ver com a Bianca?

A mão de Eduardo, que segurava o copo, parou no ar.

Larissa?

Aquela meia-irmã da Bianca?

— Desde quando a família Azevedo conseguiu se aproximar dos Ferraz? — Alguém comentou, impressionado. — Os Ferraz são... Bom, são uma família tradicional de verdade, com mais de cem anos de história. Perto deles, essas famílias ricas de Santa Vitória parecem todas de novos-ricos.

Outro completou:

— Nem me fale. Dizem que Otávio assumiu boa parte dos negócios da família Ferraz aos dezoito anos. Tem influência tanto no meio empresarial quanto nos círculos mais fechados de poder. Um homem desses...

A voz dele foi baixando aos poucos, carregada de respeito e temor.

Em Santa Vitória, dinheiro e poder não eram exatamente raros.

Mas a família Ferraz era diferente.

A família Ferraz era um verdadeiro gigante, enraizado em Porto Nobre havia mais de um século. Ao longo das gerações, seus antepassados haviam construído influência na política, no setor portuário, no mercado financeiro e no desenvolvimento imobiliário da cidade. Cada ramo da família ocupava uma posição estratégica, formando uma rede de interesses difícil de atravessar. E, na geração de Otávio, os Ferraz já não eram apenas uma família rica. Eram uma força capaz de pesar sobre qualquer decisão importante em Porto Nobre.

— Edu. — Alguém brincou, meio sério, meio rindo. — Então você vai virar cunhado do senhor Ferraz? Quando a gente for a Porto Nobre, vai ter que dar uma força para nós, hein?

Eduardo apenas puxou o canto da boca, sem responder.

— Ei... — De repente, alguém pareceu se lembrar de algo. — Pensando bem, a Bianca sumiu justamente nesses dias. Será que ela não foi para Porto Nobre participar do casamento da irmã?

Ao ouvir aquilo, Eduardo franziu ligeiramente a testa.

— Gabriel, veja para mim os voos da Bianca.

— Vou pedir para verificarem agora.

Pouco mais de dez minutos depois, Gabriel desligou o celular e se virou para Eduardo.

— Edu, encontrei. A Bianca pegou um voo para Porto Nobre hoje.

Eduardo girou devagar a taça de vinho tinto entre os dedos. Foi então que se lembrou da voz masculina que ouvira ao telefone pouco antes.

A expressão dele escureceu.

Em seguida, ergueu a taça e bebeu tudo de uma vez.

— Reserve uma passagem para Porto Nobre para mim.

Desta vez, parecia que Bianca estava realmente zangada.

Mas, se ele fosse buscá-la pessoalmente, ela acabaria se acalmando, não acabaria?

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Comments (1)
goodnovel comment avatar
Socorro Rodrigues Gaspar
muito boa eu amei
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