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Casei com o Herdeiro Mais Temido
Casei com o Herdeiro Mais Temido
Author: Mora Quintela

Capítulo 1

Author: Mora Quintela
— Edu, é sério que você trouxe aquela sua irmã adotiva de volta para o Brasil? Não tem medo de a Bianca surtar quando descobrir?

Depois de um ano sem ouvir, Bianca Azevedo finalmente havia recuperado a audição.

Naquele instante, parada do lado de fora da sala reservada do clube, o sorriso em seus lábios congelou. O corpo inteiro enrijeceu.

Carolina tinha voltado?

— Se vocês ficarem de boca fechada, ela nunca vai saber.

A voz de Eduardo Medeiros soou fria, sem a menor emoção.

— Além do mais, já faz mais de um ano. A Carol também sentiu falta de casa.

— Falta de casa? Ou falta de você?

Dentro da sala, uma risada coletiva explodiu, carregada de malícia e cumplicidade.

— Para de falar besteira. Eu só vejo a Carol como irmã.

— Edu, eu vi quando a Carolina te beijou agora há pouco. Que irmã coisa nenhuma. Pra mim, ela está mais para sua amantezinha.

Eduardo franziu a testa.

— Ela se aproveitou de um momento em que eu estava distraído e se aproximou de repente. Eu não consegui me esquivar. Ela ainda é imatura. Não vou ficar discutindo com uma garota por causa disso.

Logo depois, como se tivesse se lembrado de algo, sua voz ganhou um tom de aviso.

— Guardem isso para vocês. Quando a Bia chegar, ninguém comenta nada. Nem uma palavra.

Nesse momento, alguém pigarreou e falou com mais seriedade:

— Edu, falando sério... Você vai mesmo fingir que nada aconteceu depois do que a Carolina fez com a Bianca? Ela mandou alguém atropelar a garota. A Bianca quase morreu e, até hoje, não consegue ouvir.

A voz de Eduardo continuou baixa, indiferente.

— A Carol só tinha dezenove anos na época. Foi uma irresponsabilidade, só isso. Agora ela passou um ano fora, sofreu o bastante e amadureceu. Pra que continuar remoendo isso?

Irresponsabilidade. Só isso?

Bianca sentiu como se algo tivesse explodido dentro de sua cabeça.

Nem um raio caindo sobre ela teria provocado tamanho choque.

Uma sensação absurda, sufocante, veio de todos os lados e quase a engoliu.

Um ano antes, Carolina Medeiros, irmã adotiva de Eduardo, apaixonada por ele de forma doentia e rejeitada, perdera completamente o controle e mandara alguém atropelar Bianca, deixando-a sem audição.

Na época, Eduardo ficou furioso. Usou os métodos mais duros da família Medeiros e quase acabou com Carolina. No fim, apenas depois da intervenção de seu pai, Lucas Medeiros, e de sua mãe, Sabrina Oliveira, ela foi enviada às pressas para fora do país.

Durante aquele ano, Eduardo gastou fortunas procurando especialistas no Brasil e no exterior para tratar os ouvidos de Bianca. Chegou até a deixar todos os compromissos de lado para acompanhá-la na reabilitação.

Mas o tratamento era longo demais. Doloroso demais.

Toda vez que Bianca desabava, Eduardo era o primeiro a ficar de olhos vermelhos. Ele a abraçava e dizia que queria matar Carolina com as próprias mãos.

Bianca não podia dizer que nunca sentira ódio.

Mas, ao ver Eduardo correr de um lado para o outro por ela, ao vê-lo passar dias e noites ao seu lado, cuidando dela sem descanso, também não conseguia evitar aquele pensamento:

"Pelo menos, encontrei um homem que me ama até os ossos."

Sem perceber, Bianca passou os dedos pelo pequeno estojo de veludo dentro do bolso.

Ali estava a aliança masculina que ela havia mandado fazer em segredo.

Por causa daquela tragédia inesperada, o casamento dos dois havia sido adiado várias vezes.

Agora que finalmente recuperara a audição, Bianca acreditou que poderia realizar seu desejo e se casar com Eduardo.

Mas nunca imaginou que...

Eduardo não apenas havia trazido Carolina de volta ao Brasil, como também a perdoara em nome dela, com uma leveza quase cruel.

Que ridículo.

Justo quando o coração de Bianca esfriava, o celular em seu bolso vibrou de repente.

Ela levou alguns segundos para se recompor antes de abaixar os olhos e olhar a tela.

Era uma mensagem de sua mãe.

O texto era longo, mas dizia basicamente a mesma coisa de antes: sua mãe implorava para que ela voltasse a Porto Nobre e ocupasse o lugar da meia-irmã no casamento com o senhor Ferraz.

Uma hora antes, sua mãe já havia ligado.

As famílias Azevedo e Ferraz tinham acertado uma aliança por casamento. Só que Larissa Azevedo, sua meia-irmã, fugira sem deixar explicações.

Os Ferraz tinham enorme influência em Porto Nobre. E o homem escolhido para aquele casamento, Otávio Ferraz, o segundo filho da família, era cercado por boatos sombrios. Diziam que era cruel, implacável e que jamais perdoava uma afronta.

Se Otávio descobrisse que os Azevedo tinham ousado romper o acordo e fazê-lo de idiota, a família inteira poderia ruir da noite para o dia.

Sem outra saída, sua mãe ligara para pedir ajuda a Bianca.

— Bia, eu e seu tio João realmente não sabemos mais o que fazer. Por favor, volta e ajuda a gente, está bem?

Era a primeira vez que sua mãe lhe pedia algo desde que se casara com João e levara Bianca consigo para a família Azevedo.

Ao longo daqueles anos, João sempre tratara mãe e filha com decência. Ainda assim, Bianca sabia o quanto a mãe havia se esforçado para conquistar seu lugar naquela casa. Também sabia que, por isso, ela dedicara quase toda a própria energia ao marido e à enteada.

Por esse motivo, Bianca sempre fora obediente, sensata, cuidadosa.

Nunca quis causar nenhum problema para a mãe.

As poucas rebeldias que cometera na vida tinham sido por causa de Eduardo.

A primeira, quando deixou Porto Nobre sozinha por ele.

A segunda, minutos antes, quando recusara se casar no lugar da meia-irmã por causa dele.

Um sorriso amargo surgiu no canto de seus lábios.

O que mesmo ela havia dito naquela hora?

Dissera que agora havia recuperado a audição.

Que Edu a amava muito.

Que os dois logo se casariam.

Dissera também que acreditava nele, que Edu certamente a ajudaria a resolver o problema da família Azevedo.

Acreditava nele...

Bianca fechou os olhos.

Uma dor aguda atravessou seu peito. Ela apertou com força o estojo do anel dentro do bolso, tentando conter o tremor que quase lhe subia pela garganta.

Então era isso.

O amor profundo e inabalável em que ela acreditava, o sentimento que sustentava seu mundo inteiro, não passava de uma miragem construída sobre areia.

Frágil demais para resistir ao primeiro golpe.

De toda aquela ternura, de todo aquele cuidado, quanto era amor de verdade? Quanto era culpa? E quanto não passava de uma encenação feita para ela acreditar?

Bianca respirou fundo, tirou o celular do bolso e digitou palavra por palavra:

[Mãe, eu aceito me casar com o senhor Ferraz no lugar da Larissa.]

Ao ver que a mensagem havia sido enviada, Bianca finalmente ergueu a mão e empurrou a porta da sala reservada.

No mesmo instante, todas as risadas cessaram.

O ambiente estava mergulhado em uma luz baixa e difusa. No ar, pairava uma mistura forte de cigarro, bebida e perfume.

Sete ou oito homens e mulheres elegantemente vestidos estavam sentados ou de pé. Todos viraram o rosto ao mesmo tempo, com os olhos fixos na entrada.

Bianca ficou parada no limite entre a luz do corredor e a penumbra da sala.

O vestido longo delineava sua silhueta delicada, realçando ainda mais a pele clara e os traços finos, bonitos como se tivessem sido esculpidos com cuidado.

Apenas aqueles olhos amendoados, antes claros e vivos, agora pareciam cobertos por uma névoa fina, como se toda a luz dentro deles tivesse se apagado.

Eduardo estava sentado no sofá principal, bem de frente para a porta. Entre os dedos, segurava metade de um cigarro. A fumaça subia devagar, em espirais, borrando os contornos marcantes de seu rosto.

Ele foi o primeiro a reagir.

Um lampejo de pânico atravessou seus olhos. Ao perceber que ela não usava aparelho auditivo, pareceu enfim respirar aliviado. Então se levantou, caminhou até ela em passos largos e gesticulou em Libras:

[Bia, por que chegou tão tarde? Todo mundo estava esperando você.]

Bianca sentiu o estômago se revirar.

Antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma voz soou atrás dela.

— Nossa... Que animação.

Era uma voz doce demais, arrastada de propósito. Cada sílaba parecia coberta de mel, pegajosa a ponto de causar desconforto.

Quase todos se viraram por instinto.

Carolina estava parada sob a luz amarelada do corredor. Usava um vestido vermelho justo, de alças finas, com uma fenda que subia quase até o alto da coxa. Os cabelos longos, levemente ondulados, caíam sobre os ombros, a maquiagem estava impecável, e o batom vermelho deixava seu sorriso ainda mais provocante.

Ela se apoiou no batente da porta, passou os olhos preguiçosos pelas pessoas na sala e, por fim, fixou o olhar em Eduardo. Um sorriso cheio de segundas intenções surgiu em seus lábios.

Um traço de tensão passou pelo rosto de Eduardo.

Ao ver que Bianca não se virava, Eduardo ficou ainda mais convencido de que ela não podia ouvir. Só então pareceu relaxar um pouco. Mesmo assim, olhou para Carolina e falou em voz baixa:

— O que você está fazendo aqui? Eu não mandei você ficar quieta na sala ao lado?

A tensão na voz dele chegou com clareza aos ouvidos de Bianca.

Carolina, porém, sorriu.

— Eu estava com saudade de você. Só vou ficar um pouquinho na porta. É só não deixar ela me ver. Afinal, ela não escuta mesmo. Qual é o medo?

A frase caiu como uma pedra em água parada, espalhando ondas silenciosas.

Alguém murmurou:

— Merda, eu quase esqueci que ela não ouve. Levei um susto.

— Nem fala. Por um segundo achei que tudo fosse desandar...

Ninguém parecia fazer questão de se conter. Pelo contrário, havia até deboche nas vozes.

Os dedos de Bianca se curvaram ao lado do corpo. As unhas afundaram novamente na palma da mão, e a dor aguda subiu pela pele.

Cada palavra era como uma agulha cravada em seus ouvidos.

Ela ouvia.

Ouvia tudo.

Cada palavra com uma nitidez cruel.

Carolina sorriu ainda mais doce e aumentou a voz de propósito.

— Não é, Bianca? Você não está ouvindo nada, está? Coitada. Aquele acidente não conseguiu te matar, mas pelo menos te deixou defeituosa.

— Chega!

Eduardo a interrompeu em voz baixa e dura.

Ele baixou os olhos para Bianca com certa tensão, como se tivesse medo de que ela percebesse alguma coisa.

Mas Carolina não deu a menor importância à raiva dele. Pelo contrário, pareceu se divertir ainda mais.

Então empurrou a porta da sala reservada e entrou. Parou bem atrás de Bianca, encarando Eduardo com olhos ardentes, mas falando alto o bastante para que todos ali ouvissem:

— Edu, você estava com medo de ela descobrir que eu voltei, né? Relaxa. Ela não ouve nada. Mesmo que eu chame essa vadiazinha de...

"Pá!"

O som nítido do tapa cortou a frase inacabada.

Bianca se virou de repente e acertou Carolina no rosto com toda a força.

A sala inteira mergulhou em um silêncio mortal.

Todos ficaram paralisados, boquiabertos.

O que... O que estava acontecendo?

Bianca não era surda?

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