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O Abrigo do Lar

Author: Lyaah
last update publish date: 2026-10-29 04:42:59

CAPÍTULO 3: O Abrigo do Lar e o Olhar na Penumbra

A chuva desabava impiedosa sobre o Morro do Sabiá. As ladeiras íngremes transformaram-se em pequenos rios de água turva e lama, mas Ayla mal sentia os pés encharcados enquanto corria em direção à pequena casa de tijolos expostos onde morava. O coração ainda martelava forte no peito, embalado pela lembrança daqueles olhos escuros e pela voz grave que pronunciara seu nome com tanta certeza.

Assim que empurrou a porta de madeira rangente e entrou, o som do trinco sendo passado trouxe um alívio imediato. O cheiro morno de chá de capim-santo e bolo de fubá tomava conta da sala humilde.

— Nossa Senhora, Ayla! Você tá ensopada, minha filha! — dona Raimunda apareceu apressada do corredor, trazendo um pano de prato seco e uma toalha felpuda nas mãos. — Eu ouvi uns estrondos lá do alto, pensei até que fosse tiroteio além do trovão. Ficou presa na rua?

— Foi só a chuva, tia. Apertou o passo, mas consegui chegar — mentiu Ayla suavemente, aceitando a toalha e começando a enxugar os cachos encharcados. Ela não queria preocupar a tia com o encontro estranho no Beco das Acácias. Raimunda já carregava fardos demais nos ombros para ter que se afligir com os rapazes misteriosos da comunidade.

— Graças a Deus. Tira essa roupa molhada e vem tomar um chá quente. A televisão do vizinho tá ligada e disseram que a chuva vai atravessar a noite — disse Raimunda, ajeitando as almofadas no sofá velhinho. — Seus livros não molharam, né?

— A mochila é impermeável, graças a Deus — Ayla sorriu, esforçando-se para parecer relaxada enquanto caminhava até o pequeno quarto que dividia com as memórias de uma infância humilde.

Depois de se trocar e vestir um moletom folgado e confortável, Ayla sentou-se à mesa da cozinha. A luz amarelada da lâmpada central piscava de tempos em tempos, ameaçando cair a qualquer momento por causa da ventania lá fora. Ela segurou a xícara fumegante entre as mãos, deixando que o calor reconfortasse seus dedos frios.

— Tia... — Ayla começou, fingindo desinteresse enquanto mexia o chá com uma colherzinha. — Quem é que cuida do movimento ali pro lado do Beco das Acácias?

Raimunda parou o que estava fazendo e olhou para a sobrinha com os olhos severos, carregados de uma sabedoria moldada por décadas de sobrevivência no morro.

— Por que essa pergunta agora, Ayla? Você sabe muito bem que a gente não especula sobre esse povo. A gente vive a nossa vida, trabalha, estuda e não olha pro lado.

— Eu sei, é só curiosidade. O pessoal da faculdade às vezes pergunta como é morar aqui, se o tal do "Tenebroso" manda em tudo mesmo...

— Pois diga a eles que ninguém sabe quem é esse homem, nem quer saber — Raimunda baixou o tom de voz, inclinando-se sobre a mesa. — Dizem que é um rapaz novo, mas com pulso de ferro. Ninguém vê o rosto dele porque ele não anda se exibindo por aí como os antigos faziam. Mas ele tem olhos em cada esquina do Sabiá. É melhor você manter sua cabeça focada na Fisioterapia e nas tuas crianças, que é o que vai te tirar daqui.

— Eu foco, tia. É tudo o que eu mais quero — Ayla murmurou, embora a mente teimasse em voltar para o homem de jaqueta preta. Como ele sabia o nome dela? Seria ele um dos homens de confiança do chefe do morro?

Enquanto isso, a pouca distância dali, no ponto mais alto do Morro do Sabiá, a chuva batia contra as janelas de vidro fumê de uma casa discreta e bem estruturada.

Lucas estava parado junto à janela, com a jaqueta preta ainda úmida pendurada no encosto de uma cadeira. Seu peito largo subia e descia num ritmo calmo enquanto ele observava a vista panorâmica do morro coberto pela neblina da tempestade. Em sua mão direita, segurava um copo com uísque e gelo, mas não bebera um único gole.

A porta da sala se abriu e um homem alto, de postura alerta, entrou silenciosamente. Era Marcos, seu braço direito e a única pessoa no morro que conhecia a real extensão da dupla vida de Lucas.

— O beco tá limpo, Tenebroso — relatou Marcos em tom baixo e respeitoso. — O pessoal de fora que tentou criar confusão perto do Beco das Acácias foi interceptado antes de fazer qualquer besteira. Ninguém do morro se machucou.

— Ótimo — respondeu Lucas, sem tirar os olhos da escuridão lá fora. Sua voz era fria, a mesma que fazia homens temíveis tremerem de medo. — Quero reforço na segurança da ladeira principal a partir de amanhã. Não quero gente estranha circulando perto das rotas dos moradores de bem.

— Pode deixar. Já tá esquema — disse Marcos, hesitando por um momento antes de continuar. — Chefe... o senhor mesmo foi até lá conferir a movimentação? Não precisava se expor.

Lucas deu um gole lento no uísque, lembrando-se do olhar altivo de Ayla, da firmeza com que ela o enfrentara e da doçura que ela tentava esconder sob a armadura de garota durona. Ela não tinha ideia de que ele a observava há meses. Não tinha ideia de que, toda vez que ela subia a ladeira cansada carregando a mochila pesada da faculdade, havia uma ordem expressa para que ninguém a importunasse.

— Eu precisava garantir que certo caminho estivesse livre — respondeu Lucas, com o olhar castanho escuro brilhando na penumbra. — Pode ir, Marcos.

Ficando sozinho novamente, Lucas encostou a testa no vidro frio da janela. O peso do poder que carregava nos ombros era imenso, mas pela primeira vez em anos, a única coisa que realmente ocupava seus pensamentos era a garota dos cabelos cacheados e da boca farta que desafiara a tempestade — e a ele próprio — sem saber que tinha o coração do homem mais perigoso do morro na palma da mão.

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