LOGINCAPÍTULO 16: O Peso do Silêncio e a Sombra do AmanhãO eco dos motores dos sedãs pretos sumiu na escuridão da serra, engolido pela neblina espessa que cobria o topo do Morro do Sabiá. No pátio do galpão abandonado, o cheiro de pneu queimado e poeira suspensa no ar aos poucos se esvaía. Marcos aproximou-se de Lucas, ajustando o casaco escuro enquanto observava a curva da estrada onde as luzes vermelhas dos carros haviam desaparecido.— Eles não vão engolir essa resposta por muito tempo, chefe — disse Marcos, com a voz baixa e grave. — Homens desse tipo, acostumados a mandar e desmandar no asfalto com cheque em branco, não gostam de levar desaforo para casa. Vão voltar com mais gente ou usar a polícia da capital para pressionar os acessos.Lucas continuou imóvel por alguns segundos, com o olhar cravado no horizonte escuro. A fúria que acelerara seu sangue durante o confronto dava lugar a uma lucidez fria e calculista.— Que venham — respondeu Lucas, a voz soando como um sussurro cortant
CAPÍTULO 15: O Dedo no Gatilho e a Sombra na Ladeira A neblina da madrugada começou a descer com mais força pelas encostas do Morro do Sabiá, encobrindo as telhas de zinco e transformando a iluminação amarela dos postes em borrões esbranquiçados. Na sala da casa de dona Raimunda, o silêncio era denso. Ayla estava sentada à beira da cama, com o celular na mão, encarando a tela apagada sem conseguir desligar os pensamentos. O barulho abafado de motores pesados subindo pela rodovia secundária havia ecoado minutos antes, e a sensação de que algo errado acontecia nas sombras da comunidade não a deixava fechar os olhos. A poucos quarteirões dali, a atmosfera era de guerra iminente. O posto de controle intermediário, um galpão de alvenaria rústica estrategicamente posicionado na curva que antecedia a subida para a pedreira, estava mergulhado na penumbra. Dois homens da segurança local aguardavam encostados nas paredes de concreto, enquanto Marcos postava-se perto da entrada, com os braços
CAPÍTULO 14: Sinais na Noite e a Sombra do Asfalto A noite sobre o Morro do Sabiá caiu acompanhada de uma brisa fresca que trazia o cheiro da terra úmida e o zumbido distante de insetos na vegetação rasteira das encostas. Na modesta cozinha de dona Raimunda, a luz amarela da lâmpada pendurada por um fio descuidado iluminava a mesa onde Ayla corrigia algumas anotações do estágio, enquanto a tia preparava um chá de ervas aromáticas para espalhar o cansaço do dia. — Tu tá muito calada hoje, menina — comentou dona Raimunda, desligando o fogo e virando-se com a caneca fumegante nas mãos. Os olhos experientes da mais velha analisavam cada traço do rosto da sobrinha. — Desde que tu chegaste da faculdade, parece que a cabeça tá voando lá na rua de cima. Aconteceu alguma coisa no caminho? Ayla ergueu os olhos do caderno, forçando um sorriso leve para afastar a atenção da tia. — Não aconteceu nada de mais, tia. Cansaço normal da rotina — respondeu ela, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da
CAPÍTULO 13: O Eco da Ausência e o Sabor do Café O trajeto de van até a universidade pareceu passar em um ritmo estranhamente arrastado. Sentada junto à janela, Ayla observava o cenário urbano mudar gradativamente: as casas simples e as ladeiras íngremes do Morro do Sabiá iam dando lugar às grandes avenidas movimentadas do asfalto, aos prédios espelhados e ao fluxo caótico do trânsito matutino. No entanto, por mais que tentasse focar na paisagem ou nos trechos de artigos acadêmicos que abrira na tela do celular, a lembrança do toque dos dedos de Lucas em sua testa continuava acesa em sua pele. O calor daquele gesto simples, contrastando com a firmeza implacável e a aura perigosa que o cercavam, deixara uma marca profunda que ela relutava em admitir. — Ayla! Pensei que você não viria hoje! — exclamou Camila assim que a viu dobrar o corredor do bloco de Fisioterapia. A amiga veio ao seu encontro a passos rápidos, com duas pastas de plástico debaixo do braço e uma expressão aliviada. —
CAPÍTULO 12: O Sabor do Perigo e a Promessa no Beco A manhã seguinte nasceu coberta por uma neblina fria que descia lentamente do topo do morro, envolvendo as ladeiras do Sabiá em um manto cinzento e silencioso. O cheiro de terra molhada ainda persistia no ar, misturado ao vapor do café fresco que saía da cozinha de dona Raimunda. No entanto, a atmosfera na casa permaneceu densa, impregnada pelo susto da noite anterior e pelos avisos urgentes trazidos por Camila. Ayla ajeitou a alça da mochila pesada nos ombros, verificando se o caderno de anotações e a apostila de neurologia estavam bem guardados. Dona Raimunda observava cada movimento da sobrinha com os olhos atentos e vincados por rugas de profunda preocupação. — Ayla, tu ouviu bem o que a Camila disse ontem — a matriarca falou, a voz baixa e pausada enquanto entregava uma garrafa térmica pequena para a jovem. — Se o clima lá em cima tá pesado, tu desce direto para a pista sem cortar caminho por lugar nenhum. Nada de inventar ata
CAPÍTULO 11: Passos na Névoa e a Sombra da Desconfiança O silêncio dentro da pequena casa de dona Raimunda parecia mais pesado do que de costume após os últimos acontecimentos na comunidade. Ayla estava sentada à mesa da cozinha, com um caderno de anotações aberto diante de si e um marca-texto amarelo na mão, mas os seus olhos viajavam sem rumo pelas linhas borradas de anatomia humana. O eco das palavras de Lucas e daquela abordagem tensa na mercearia ainda zumbia em sua mente como um alarme persistente, recusando-se a ceder espaço para qualquer outra linha de raciocínio. Por que ele agia daquela maneira? Que tipo de perigo invisível era esse que rondava o Morro do Sabiá a ponto de fazê-lo monitorar cada passo seu com tanta obsessão? Ele falava com a segurança de quem conhecia cada centímetro daquele chão, mas mantinha uma aura de mistério impenetrável que irritava Ayla tanto quanto a fascinava. — Menina, tu vai acabar furando o papel com esse marca-texto de tanto apertar — a voz de







