Mag-log inCAPÍTULO 6: O Sabor do Açaí e o Perigo Oculto
As mesinhas de plástico colorido ao redor da barraca da tia Creusa estavam quase todas ocupadas, mas o grupo conseguiu encontrar um lugar logo perto do balcão onde o vento fresco do final de tarde amenizava o calor abafado do Morro do Sabiá. A praça continuava movimentada, embalada pelo falatório animado dos moradores e pelo som rítmico de um pagode antigo que saía das caixas de som de uma birosca próxima. Ayla sentou-se em um dos bancos de ferro, mantendo a postura rígida e os braços cruzados sobre o peito. A proximidade de Lucas — que se acomodara na cadeira ao lado, ocupando o espaço com uma facilidade irritante — fazia com que cada fibra do seu corpo ficasse em alerta máximo. Ele parecia perfeitamente calmo, esticando as pernas compridas por baixo da mesa estreita e apoiando os braços relaxados na superfície de plástico. — E aí, Ayla, o que vai querer no teu açaí? Caprichado nos complementos ou só o básico para aguentar a maratona da faculdade? — perguntou Marcos, abrindo um sorriso largo enquanto puxava o cardápio amassado para perto de Camila. — Só o básico, Marcos. Granola, leite condensado e banana, por favor — respondeu Ayla, desviando o olhar rapidamente para o cardápio, embora sua atenção estivesse inteiramente focada no homem sentado ao seu lado. Ela conseguia sentir o calor irradiando do corpo dele, além daquele perfume amadeirado sutil que parecia desafiar a brisa da praça. — O mesmo para mim — disse Lucas com aquela voz grave que parecia arranhar de leve os ouvidos de Ayla. Ele virou o rosto na direção dela, sustentando um meio-sorriso desafiador nos lábios. — Parece que a guria gasta muita energia correndo de atalhos perigosos à noite. É bom repor as vitaminas. Camila soltou uma risada sonora, beliscando o braço do namorado. — Olha só, amor, o Lucas tá soltando gracinha! É milagre, porque esse aí é mais fechado que cofre de banco. Demorou meses para trocar duas palavras direitas comigo e com o Marcos, e agora tá tirando com a cara da Ayla — comentou Camila, balançando a cabeça em tom de brincadeira, totalmente alheia ao verdadeiro abismo que separava os dois homens das realidades delas. Marcos riu de leve, lançando uma piscadela rápida e discreta para Lucas, um sinal mudo que não passou despercebido pelos olhos atentos de Ayla. Havia uma cumplicidade antiga e silenciosa entre os dois amigos que reforçava ainda mais a intuição dela: Lucas não era um simples trabalhador braçal da comunidade. A maneira como ele se portava, como os moradores ao redor desviavam o olhar discretamente quando ele passava pela rua, e a aura de poder inegável ao seu redor gritavam outra coisa. Assim que a tia Creusa colocou os potes generosos de açaí sobre a mesa, o silêncio momentâneo deu lugar ao barulho das colheres. Ayla mexeu o creme roxo na tigela, tentando se concentrar na comida, mas a sensação de estar sob um escrutínio severo a incomodava e fascinava na mesma proporção. — Você estuda fisioterapia, né? — Lucas quebrou o silêncio, inclinando o tronco levemente para a frente. O tom de voz dele havia baixado, tornando-se um sussurro particular que parecia isolar os dois do restante da mesa. — Cuidando de criança com problema motor. Tem que ter muita paciência para isso. Ayla ergueu o queixo, encarando-o diretamente nos olhos castanhos escuros. — Não é questão de paciência, Lucas. É vocação. É devolver autonomia para quem o mundo insiste em deixar de lado — retrucou ela com firmeza, a voz carregada de paixão pela profissão. — Coisa que gente que vive de criar problema e impor regras nas sombras talvez nunca consiga entender. Lucas não se abalou com a alfinetada. Pelo contrário, o canto de sua boca curvou-se em um sorriso fascinado. Ele deu uma colherada lenta no açaí antes de responder: — Tem gente que cuida do corpo para curar as feridas, Ayla. E tem gente que precisa limpar o caminho para que essas crianças possam caminhar seguras até a clínica sem cruzar com o fogo cruzado da rua. Cada um faz o que pode com o poder que tem. As palavras dele carregavam um peso oculto tão denso que Ayla sentiu o coração falhar uma batida. O poder que tem. O que ele quis dizer com aquilo? Estaria Lucas admitindo indiretamente que fazia parte da segurança pesada do morro — ou algo muito pior? Antes que Ayla pudesse formular uma resposta cortante, o som estridente de uma moto com o escapamento adulterado cortou a rua principal da praça, seguido por murmuração tensa entre os moradores mais próximos. Marcos endireitou a postura instantaneamente, trocando um olhar rápido e cortante com Lucas. O clima descontraído da mesa evaporou em frações de segundo. Lucas sequer mudou de expressão, mas os olhos escuros tornaram-se frios como o gelo. Ele pousou a colher na mesa com cuidado milimétrico e levantou-se devagar, ajustando o moletom cinza. — Agradeçam o açaí à tia Creusa. Preciso resolver um assunto rápido com o Marcos — disse Lucas, fitando Ayla por um longo segundo antes de virar as costas e caminhar com passos firmes na direção da rua de cima, seguido de perto pelo braço direito. Ayla ficou o paralisada na mesa, observando a silhueta imponente de Lucas sumir entre as esquinas da praça, enquanto um pressentimento gélido avisava que a calmaria do Morro do Sabiá estava prestes a ruir.CAPÍTULO 9: A Sombra da DesconfiançaA manhã seguinte despontou no Morro do Sabiá com um sol pálido que tentava romper a neblina densa acumulada sobre as telhas de zinco. Na modesta casa de dona Raimunda, o cheiro de café passado na hora misturava-se ao aroma de bolo de milho, mas Ayla mal conseguia tocar na própria xícara. Seus pensamentos estavam presos à noite anterior — na fuga repentina de Lucas e Marcos da praça, no clima pesado que se instalara e na sensação incômoda de que havia muito mais por trás daquele "simples trabalhador do morro" do que ele deixava transparecer.— Filha, tu tá com essa xícara na mão há dez minutos e nem deu um gole — a voz de dona Raimunda cortou seus devaneios, carregada de uma preocupação sutil enquanto a tia limpava as mãos no avental. — Aconteceu alguma coisa com o rapaz ontem? O tal do Lucas?Ayla piscou rapidamente, voltando a si, e forçou um sorriso amarelo para tranquilizar a tia.— Não aconteceu nada, tia. É só a cabeça cheia por causa da prova
CAPÍTULO 8: O Porão da VerdadeO ar no subsolo do galpão abandonado, localizado na parte mais alta e isolada da pedreira do Morro do Sabiá, era pesado, denso e fétido. Gotas de água caíam ritmicamente de um cano enferrujado no teto de concreto bruto, ecoando como batidas de relógio em uma contagem regressiva claustrofóbica.Amarrados a duas cadeiras de ferro desgastadas pelo tempo, os dois homens de fora tremiam, embora a temperatura no recinto estivesse abafada. As roupas rasgadas e os cortes superficiais no rosto atestavam que a recepção dada pelos homens de confiança de Lucas não havia sido amigável. Eles sabiam perfeitamente onde estavam e, pior do que isso, sabiam quem os aguardava.A porta de ferro pesada abriu-se com um rangido agudo.O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lucas entrou no recinto a passos lentos, imponentes, vestindo a jaqueta preta que parecia absorver a pouca luz da lâmpada incandescente pendurada por um fio descuidado. O rosto estava completamente impassível
CAPÍTULO 7: O Chamado das SombrasA fumaça fina que subia da brasa do espetinho improvisado na esquina da praça parecia se dissipar no ar carregado de tensão. Ayla continuava sentada no banco de plástico, com os olhos fixos na direção em que Lucas e Marcos haviam sumido momentos antes. O coração batia descompassado contra as costelas, impulsionado por uma mistura irritante de frustração e de uma curiosidade que ela detestava admitir que sentia.— Amiga, tu viu isso? Do nada os dois saíram correndo como se o mundo estivesse acabando! Será que aconteceu alguma coisa grave lá com o depósito de gás? — Camila perguntou, franzindo o cenho enquanto ajeitava a bolsa no ombro, dividida entre a preocupação com o namorado e a confusão com a atitude repentina dos rapazes.— Eu não sei, Cami... Mas parece que a paz nesse morro dura exatamente o tempo de um suspiro — Ayla murmurou, cruzando os braços com força e desviando o olhar para o horizonte onde o sol começava a se esconder atrás das telhas d
CAPÍTULO 6: O Sabor do Açaí e o Perigo OcultoAs mesinhas de plástico colorido ao redor da barraca da tia Creusa estavam quase todas ocupadas, mas o grupo conseguiu encontrar um lugar logo perto do balcão onde o vento fresco do final de tarde amenizava o calor abafado do Morro do Sabiá. A praça continuava movimentada, embalada pelo falatório animado dos moradores e pelo som rítmico de um pagode antigo que saía das caixas de som de uma birosca próxima.Ayla sentou-se em um dos bancos de ferro, mantendo a postura rígida e os braços cruzados sobre o peito. A proximidade de Lucas — que se acomodara na cadeira ao lado, ocupando o espaço com uma facilidade irritante — fazia com que cada fibra do seu corpo ficasse em alerta máximo. Ele parecia perfeitamente calmo, esticando as pernas compridas por baixo da mesa estreita e apoiando os braços relaxados na superfície de plástico.— E aí, Ayla, o que vai querer no teu açaí? Caprichado nos complementos ou só o básico para aguentar a maratona da f
CAPÍTULO 5: O Encontro na Praça e a Grande Surpresa A praça central do Morro do Sabiá era o verdadeiro coração pulsante da comunidade. Aos finais de tarde, o espaço ganhava cores e movimento com o som alegre das risadas de crianças correndo ao redor do parquinho de pneus coloridos, o rádio velho da vendinha da dona Lourdes tocando um pagode clássico ao fundo e o cheiro irresistível de pastel frito misturado com o aroma doce do açaí da tia Creusa. Ayla ajustou a alça da blusa verde-esmeralda que valorizava o tom de sua pele parda escura, sentindo o coração bater num ritmo ligeiramente mais acelerado do que o normal. Ao seu lado, Camila andava saltitante, cantarolando baixinho e conferindo a maquiagem pela câmera frontal do celular.— Amiga, relaxa essa testa! Tu tá parecendo que vai para uma banca de TCC rigorosa e não para tomar um açaí com a gente — Camila riu, dando um leve empurrãozinho brincalhão no ombro de Ayla. — O Marcos já mandou mensagem dizendo que eles estão subindo
CAPÍTULO 4: O Café, as Confidências e o "Amigo de Marcos" A manhã seguinte amanheceu com um sol tímido que mal conseguia secar a lama espessa deixada pela tempestade da noite anterior nas ladeiras íngremes do Morro do Sabiá. O cheiro de terra molhada ainda pairava no ar, misturando-se à neblina fina que teimava em cobrir a parte mais alta da comunidade. Na pequena cozinha de dona Raimunda, o ambiente era acolhedor: o cheiro de pão tostado na chapa e café fresco preenchia cada canto, cortado apenas pelo riso escandaloso e contagiante de Camila.— Amiga, tu tem sérios problemas na cabeça! O mundo desabando em temporal, a ladeira parecendo uma pista de patinação de tanta lama, e tu me diz que quase foi engolida por um maluco misterioso no Beco das Acácias? — Camila gesticulava efusivamente com uma xícara de cerâmica lascada na mão, os olhos arregalados de pura empolgação enquanto ajeitava as tranças compridas sobre o ombro. — Homem alto, jaqueta preta pesada, olhar de quem arranca a







