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Noites Longas

Author: Sah Flor
last update publish date: 2026-09-07 10:52:35

A manhã seguinte amanheceu cinzenta. Eu mal havia dormido e ainda me levantei atrasada.

A conversa com Heitor ainda ecoava em cada canto da minha cabeça, e a tranca na porta do quarto parecia um símbolo ridículo da luta que eu travava contra mim mesma. Fiz minha higiene matinal as pressas , vesti o uniforme de enfermeira e saí. Passei pelo quarto de dona Marieta, ela já não estava mais no ambiente. Desci correndo a escada com a intensão de me dirigir até a cozinha para tomar café com os empreg
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  • Cecília   Labirinto e Caminhos perigosos

    Ficamos no sótão por mais de uma hora depois da descoberta da foto. O ar empoeirado parecia mais pesado agora. Heitor sentou-se no chão, de costas para uma caixa antiga, a fotografia de Bernardo e minha mãe ainda estava entre os dedos. Eu permaneci ajoelhada diante do baú, vasculhando outras pastas com mãos tremulas.— Cecília — ele quebrou o silêncio. — Você disse que essa mulher é sua mãe, certo?Assenti, sem conseguir olhar para ele de imediato.— Sim. Alice Ribeiro. A perdi faz alguns meses.Heitor ficou quieto por um tempo, girando a foto entre os dedos.— Meu pai nunca falou dela. Nunca. E olha que eu já ouvi histórias antigas de sua juventude, histórias de outras namoradas também — Ele ergueu o olhar. — Você sabia que eles se conheciam antes de vir aqui?— Não — respondi com honestidade. — Eu sabia só o que te contei, sabia que minha mãe guardava cartas e fotos de um homem. Algumas devolvidas. Algumas nunca enviadas. Quando encontrei a caixa, depois que ela morreu, o sobrenome

  • Cecília   Passado Empoeirado

    O dia seguinte começou tenso desde o café da manhã.Isadora estava na mesa quando desci, já impecável, cabelos presos, brincos de pérola e o olhar afiado como lâmina. Bernardo lia o jornal em silêncio. Heitor tomava seu café com o rosto fechado. Dona Marieta estava na sala de estar lendo algum livro.— Bom dia — cumprimentei, tentando soar natural.Isadora não respondeu de imediato. Apenas ergueu os olhos do celular e me examinou de cima a baixo, como fez no dia anterior.— Você atrasou alguns minutos — comentou, com a voz fria. — Nesta casa valorizamos pontualidade na hora das refeições.Bernardo abaixou o jornal.— Isadora…— Estou apenas orientando, Bernardo. Alguém precisa manter a ordem por aqui. — Ela se virou novamente para mim. — E outra coisa, Cecília, notei que ontem à noite as luzes da cozinha estavam acesas depois da uma da manhã. Espero que não esteja fazendo uso indevido dos espaços comuns.Meu rosto esquentou, mas mantive a postura. Ela havia descido e visto eu e Heitor

  • Cecília   Labirinto

    Deitei-me, mas o sono não veio. A conversa com Bernardo e a forma como ele reagiu ao nome da minha cidade ainda giravam na minha cabeça. Ponte Branca. Ele tinha dito que passava férias lá. Os olhos dele tinham mudado. Não era coincidência. Eu sentia. Mas ainda era cedo demais para entregar todas as cartas.Virei de um lado para o outro. A mansão estava silenciosa demais. Por volta da uma da manhã, desisti. Levantei-me, coloquei o roupão e desci as escadas descalça. Precisava de água… e de ar.Na cozinha, a luz da geladeira foi a única a iluminar o ambiente quando a abri. Peguei um copo e me encostei na bancada, tentando organizar os pensamentos. Cartas não enviadas. Fotos antigas. O sobrenome Villela. Tudo se conectava, mas as pontas ainda não se encontravam, não encaixavam, eu precisava descobrir mais.— Não consegue dormir?A voz de Heitor me fez virar de súbito. Ele estava na soleira da porta, de camisa preta simples e calça de moletom, o cabelo bagunçado. Parecia tão inquieto quan

  • Cecília   Noites Longas

    A manhã seguinte amanheceu cinzenta. Eu mal havia dormido e ainda me levantei atrasada. A conversa com Heitor ainda ecoava em cada canto da minha cabeça, e a tranca na porta do quarto parecia um símbolo ridículo da luta que eu travava contra mim mesma. Fiz minha higiene matinal as pressas , vesti o uniforme de enfermeira e saí. Passei pelo quarto de dona Marieta, ela já não estava mais no ambiente. Desci correndo a escada com a intensão de me dirigir até a cozinha para tomar café com os empregdos da casa, foi quando me deparei com a mesa da sala de jantar já posta com o café da manhã. Dona Marieta estava sentada, mexendo calmamente a colher na xícara.— Bom dia, minha filha — cumprimentou ela. — Dormiu bem?— Um pouco — admiti.Antes que ela pudesse responder, ouvi passos firmes. A voz de uma mulher soou primeiro, aguda e autoritária:— Heitor, eu já disse que não quero mais atrasos nessas reuniões. E quem é essa moça que está morando aqui como se fosse da família? Dormindo ainda no

  • Cecília   O Peso da Verdade

    Assinei o último papel com as mãos ainda trêmulas. A caneta deslizou sobre o papel como se carregasse o peso de toda a minha vida até aquele momento. Heitor observava em silêncio, com os braços cruzados e o olhar atento. Quando fechei a pasta, ele se aproximou e a guardou com cuidado na gaveta da mesa.— Pronto — disse ele — Agora você faz parte oficialmente da rotina desta casa. Se precisar de qualquer coisa, é só falar.Sorri de forma forçada, tentando disfarçar o turbilhão que explodia dentro de mim.— Obrigada… Heitor.Ele inclinou a cabeça levemente, como se quisesse perguntar algo, mas não o fez. Apenas assentiu e se afastou alguns passos.— Vou deixar você se acomodar. A vó deve estar acordando da soneca. Qualquer coisa, estou no escritório.Assim que a porta se fechou atrás dele, meu corpo cedeu. Me na cadeira mais próxima, minhas mãos ainda apertando o joelho, meu coração batendo tão forte que doía no peito. Villela. O sobrenome que eu perseguia há meses estava ali, oficial,

  • Cecília   Sem Reação

    O choque e a confusão me dominaram de tal forma que, antes que pudesse raciocinar direito, senti uma necessidade urgente de me afastar. Levantei-me rapidamente da cadeira, pegando minha bolsa quase às pressas.— Cecília? — chamou Heitor, surpreso com meu movimento brusco. — Onde você vai?— Eu… eu preciso de ar — gaguejei, tentando encontrar uma desculpa que soasse plausível, enquanto meu coração batia descompassado. — Preciso pensar um pouco... preciso sair daqui — sussurrei...Antes que ele pudesse se aproximar, saí da sala de estudos, correndo pelos corredores da mansão. O medo irracional de que Heitor pudesse ser meu irmão me sufocava. A cada passo, minha mente girava em círculos.A atração que eu sentia por ele, os sentimentos que começavam a surgir, e agora essa possibilidade terrível que me fez querer fugir, me fez querer desistir e sumir dali.Corri até o jardim e encontrei um canto mais isolado, onde o telefone na bolsa me salvou. Liguei imediatamente para meu pai, precisand

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