LOGINO rosto do homem permaneceu impassível enquanto ele simplesmente inclinou a cabeça em resposta à saudação de Chantelle. O seu olhar deslizou sobre ela brevemente, sem emoção aparente, como se procurasse avaliá-la… ou talvez esquecê-la.
O que Chantelle ignorava era que aquele homem, sentado hoje na sala de família como o noivo oficial de Mégane, havia sido destinado a ela.
Ela.
Algumas semanas antes, Gérard, o seu pai, apresentara-se no vasto escritório acolchoado de Collen Wilkerson, na torre central do grupo.
O homem de negócios, rígido atrás da sua secretária, erguera uma sobrancelha ao ouvir Gérard começar com uma voz falsamente constrangida:
— Lamento, senhor Wilkerson. A minha filha mais nova… aquela que deveria ser a sua noiva…
Fizera uma pausa, como se medisse o impacto das suas palavras.
— Recusou categoricamente o casamento. Não é cooperante. Não é estável. Seria um erro da sua parte esperar mais por ela.
Collen limitara-se a fixá-lo. Nem uma palavra. Nem uma pergunta.
Então Gérard sorrira, educado, ávido por propor uma solução:
— Tenho outra filha. A mais velha. Mégane. Bela, obediente, muito culta. Saberá corresponder às suas expectativas.
E concluíra, como quem encerra um processo:
— Com toda a honestidade, é uma escolha melhor.
Collen nada dissera. Observara o homem sair, depois desviara o olhar para a cláusula do testamento do seu avô, emoldurada na parede:
"Só tocarás na herança se desposares uma filha de Gérard Lemoine. Nenhuma outra."
Isso convinha-lhe.
Não se tratava de sentimento.
Nem de atração.
Apenas de lealdade contratual a um morto e de herança a preservar.
Assim, aceitara Mégane.
Passados alguns minutos, Mégane desceu do seu quarto, empoleirada em saltos demasiado altos para a discrição. O seu vestido justo, de ombros nus, conferia-lhe ares de estrela de cinema, e o sorriso que ostentava era o de uma mulher segura do seu triunfo.
Os seus olhos percorreram a sala, depois iluminaram-se com um falso calor ao avistar Chantelle, sentada ligeiramente afastada, ereta e silenciosa numa poltrona de vime no fundo da sala, uma chávena de chá na mão.
Com um passo gracioso mas calculado, aproximou-se.
— Ah, Chantelle! – exclamou com um entusiasmo quase afetuoso. – Estás aqui, estou tão contente! Vem, deixa-me ter a honra de te apresentar o meu noivo… Collen Wilkerson.
Segurou delicadamente no braço de Chantelle, como se aquele simples contato provasse uma cumplicidade intacta entre elas. Mas sob os seus dedos perfeitamente manicurados, Chantelle sentiu a insistência, a posse, e talvez um toque de triunfo mal dissimulado.
Chantelle ergueu calmamente os olhos para ela. O seu olhar não era hostil nem terno. Apenas… neutro.
— Sim, a tua mãe já mo apresentou. – respondeu simplesmente, sem se mexer, inclinando apenas ligeiramente a cabeça na direção de Collen.
A sua voz era suave mas desprovida de calor, como se cada palavra pesasse o seu peso de lucidez.
Mégane soltou uma risadinha embaraçada, antes de se voltar para Collen. Deslizou naturalmente para o seu lado no sofá, o ombro nu roçando a manga escura do fato perfeitamente talhado do presidente. Recostou-se nele, como para marcar claramente o seu território, e cruzou as pernas lentamente.
Mas Collen, esse, não reagiu. O seu olhar permanecera pousado, por um pouco mais de tempo do que deveria, em Chantelle, antes de regressar friamente ao centro da sala.
O jantar foi servido. Os pratos fumegantes estavam dispostos com cuidado sobre a comprida mesa de mogno brilhante, decorada com castiçais esguios e pratos de porcelana fina. A atmosfera pretendia ser calorosa, quase solene.
Gérard aproximou-se da pequena sala onde a filha estava perdida no ecrã do telemóvel.
— Chantelle, vem. O jantar está servido.
Ela ergueu os olhos para ele sem dizer palavra. Depois, com a mesma elegância distante que a caracterizava, levantou-se sem reagir.
Na sala de jantar, os lugares pareciam já atribuídos. Por um estranho acaso, o lugar que ficava defronte de Collen estava vazio. Sem uma palavra, Chantelle instalou-se aí, endireitando as costas, o olhar direito, as mãos cruzadas sobre os joelhos.
Mégane, essa, já tomara lugar precisamente à direita de Collen. Mal se sentara, apressara-se a colar-se a ele, passando o braço à volta do seu com uma familiaridade ostensiva. A sua risada estridente pontuava cada uma das suas frases como um meio de preencher o silêncio do homem ao seu lado.
— Queres provar o meu gratinado? Ajudei a prepará-lo. Pronto, um bocadinho… – gracejava ela, aproximando um garfo da sua boca, que ele afastou educadamente sem lhe prestar atenção.
Collen, fiel a si mesmo, permanecia impassível, os traços lisos, a atitude irrepreensível. Não a afastava, mas também não a olhava. Mastigava lentamente, o olhar perdido na toalha da mesa ou… de tempos a tempos, cruzando os olhos de Chantelle.
Rhonda, radiante com a cena, inclinou-se para Gérard, os olhos brilhantes:
— Olha só para estes dois. É como se tivessem sido feitos um para o outro, não achas?
Gérard, o copo de vinho na mão, ostentava um sorriso forçado, um daqueles sorrisos que dizem muito:
— Absolutamente. Collen é um homem excecional, de uma classe rara, um verdadeiro chefe de empresa. A Mégane tem muita sorte. Esta aliança vai elevar a nossa família como nunca. Sabes, Chantelle, é uma grande oportunidade para todos nós.
Depois, voltando-se para a filha, a sua voz tornou-se doce, quase melíflua:
— Estou orgulhoso por estares aqui esta noite. É importante para mim, e para a tua irmã também. Sei que compreendes que certas coisas estão acima dos ressentimentos. A família primeiro, sempre.
Chantelle, por seu lado, sentia o estômago contrair-se. Nunca aceitara aquela farsa familiar. Desde a morte da sua mãe, o pai Gérard trouxera para casa Rhonda, a sua nova "esposa", e Mégane, uma filha dois anos mais velha do que ela, que lhe apresentara como a sua nova "mãe" e a sua nova "irmã". Tudo aquilo não fazia senão reforçar as suas suspeitas: Gérard certamente as enganara muito antes da morte da sua mãe.
Não suportando mais aquela comédia, Chantelle pousou os talheres com um ligeiro estalido seco, depois declarou com voz firme:
— Já comi bem. Vou tomar um pouco de ar.
— Fica aí! Não tens modos?! – exasperou-se Gérard, os olhos a lançarem relâmpagos.
Rhonda, falsamente magnânima, interveio com um sorriso glacial, quase trocista:
— Deixa-a, não tem importância. Afinal, ela não cresceu connosco. Não admira que lhe falte um pouco de educação…
Aquelas palavras gelaram o coração de Chantelle, como uma lâmina invisível trespassando-lhe o peito. Cerrou os dentes, as mãos crispadas, e depois, sem um olhar, abandonou a sala de jantar, o fôlego curto, sufocada por aquela atmosfera familiar tóxica, tão pesada como uma tempestade prestes a rebentar.
Lá fora, Chantelle entediava-se e quis regressar para ver a sua avó. O que acabara de viver naquela noite já era suficiente. Caminhava rapidamente pelo jardim, os seus passos apressados a denunciarem a sua impaciência.
Sem olhar onde punha os pés, embateu de repente contra um peito sólido.
Já era a quinta vez que Chantelle subia e descia no elevador para lhe ir buscar um simples café. As suas pernas estavam pesadas, as costas suadas, e os braços tremiam ligeiramente de exaustão. Tinha a impressão de ser uma marioneta puxada por fios invisíveis.Quando entrou novamente na cafetaria, a empregada, que se ria no início, teve desta vez um olhar enternecido.— O teu patrão só quer testar os teus limites — disse ela com voz doce.— Estou no limite. Exausta — murmurou Chantelle, com o fôlego curto. — Ainda nem sequer tirei as minhas coisas da caixa no gabinete…— Não desanimes. É um jogo de poder. O que é que ele disse desta vez?— Que estava amargo… Vou pôr-lhe muito açúcar. Demasiado, até.— Quantos pacotes?— Cinco.A empregada arregalou os olhos.— Cinco? Mas isso é… é xarope, não é café.— Que me despeça, então, em vez de me fazer andar às voltas como uma louca — replicou
Depois da saída da secretária, Chantelle sentou-se devagar na poltrona de couro. Pousou as mãos na mesa, acariciando distraidamente a superfície lisa e brilhante da madeira escura. Tudo aquilo lhe parecia irreal. Girou suavemente sobre si mesma com a cadeira, varrendo a sala com o olhar, os olhos cheios de assombro.— É incrível… Não pensava estar aqui um dia — murmurou interiormente.Foi então que o telefone do gabinete emitiu um bipe seco, fazendo-a sobressaltar-se violentamente. Hesitou um segundo e depois atendeu.— Estou?Uma voz glacial, cortante como uma lâmina de barbear, fez-se ouvir do outro lado:— Vem ao meu gabinete. Já.Chantelle baixou instintivamente os olhos para a linha de separação entre o seu gabinete e o do diretor executivo. Através da parede de vidro fumado, avistou-o: Collen, de pé, de braços cruzados, olhar duro, silhueta direita como um cutelo.O seu coração começou a bater mais depres
A segunda-feira chegou mais depressa do que ela teria querido.Às seis e meia, Chantelle acordou sobressaltada: estava atrasada para o trabalho.Virou a cabeça para o telemóvel, apanhou-o maquinalmente e verificou as mensagens. Nada.Sempre nada do pai.— É estranho… — murmurou ela, franzindo as sobrancelhas. — Porque é que o pai ainda não me ligou de volta?Pousou o telemóvel devagar, levantou-se e dirigiu-se para a casa de banho.A água quente do duche não conseguiu apagar a estranha sensação de mal-estar que se apoderara dela.Vestiu um vestido simples, descontraído, pegou na mala e saiu de casa.Um táxi parou quase imediatamente diante dela e deixou-a em frente à empresa.O edifício já fervilhava de atividade: empregados chegavam de todos os lados, a conversar, a andar de passo apressado, a cumprimentar de passagem.Mas mal entrou no átrio principal, Chantelle sentiu uma mudança n
Collen saiu da casa de banho, um roupão amarrado à cintura. Quando atravessava a soleira para voltar ao quarto, três batidas discretas soaram na porta.Parou no seu impulso e depois foi abrir.Um homem de fato estava ali, direito, dois sacos pretos na mão.— Patrão, aqui está o que nos pediu — disse ele simplesmente.Collen recolheu os sacos sem responder, fechou a porta atrás de si e girou a chave na fechadura.Aproximou-se da cama e pousou os sacos. Abriu um deles, tirou as roupas novas que desdobrou brevemente, antes de as pousar negligentemente ao lado.O seu telemóvel vibrou na mesa.Apanhou-o, levou-o devagar ao ouvido.— Fala — disse ele num tom calmo.— Patrão, fizemos o que nos pediu — respondeu uma voz grave do outro lado da linha.— Bem — murmurou Collen antes de desligar.Depositou o telemóvel na mesa, prendeu o relógio ao pulso e depois pegou novamente no telemóv
Collen tirou os sapatos e o seu casaco devagar, deixando-os cair negligentemente na poltrona. Arregaçou as mangas da sua camisa branca e aproximou-se da cama, deslizando os braços suavemente por baixo dela.Sem uma palavra, levou-a até à casa de banho. A água fria já enchia a banheira. Inclinou-se e, com cuidado, depositou Chantelle ali dentro.Ao contacto gelado, ela sobressaltou-se violentamente, agarrando o seu braço.— Está muito frio… — murmurou Chantelle, estremecendo.— Sei — respondeu Collen com voz doce. — Vai acalmar-te.Ajoelhou-se ao pé da banheira e começou a deitar-lhe água suavemente nos ombros, na nuca, na parte superior do peito.Mas para Chantelle, aquela água fria não acalmava nada. Antes, inflamava ainda mais o fogo que já fervedia dentro dela. Cada arrepio era uma faísca a mais.Esperou que ele lhe deitasse mais um punhado de água e depois agarrou na sua mão molhada, manteve-a um instante c
Três homens surgiram na sala, vestidos de negro da cabeça aos pés, as suas silhuetas destacando-se como sombras ameaçadoras na luz ténue. Um deles, mais imponente do que os outros, mantinha-se direito como uma lâmina. Usava uma máscara negra que só deixava ver os seus olhos, frios, implacáveis.Raphina, deitado a meio na cama, sobressaltou-se ao ouvir o estrondo. O seu coração começou a bater mais depressa, o seu cérebro não conseguia processar o que se passava. Nem teve tempo de abrir a boca, um dos homens saltou sobre ele.— Eh! O que é que…?!Não teve tempo de dizer mais. O homem mascarado agarrou-o brutalmente e levantou-o sem esforço, antes de o esmagar violentamente no chão. A sua cabeça embateu no ladrilho com um barulho surdo. Um primeiro murro caiu-lhe no rosto. Depois um segundo, ainda mais violento. O gosto do sangue encheu-lhe imediatamente a boca.— Mas o que é que estão aqui a fazer? Quem são?! — exclamou ele, com a voz def







