LOGINChantelle recuou um passo rápido, quase em pânico. A proximidade de Collen Wilkerson, o seu olhar penetrante, a sua presença imponente… tudo isso a oprimia. Mas sobretudo, um medo visceral a roía: Mégane, a sua meia-irmã histérica, podia surgir a qualquer instante. Não precisava de muito para se sentir traída, ainda menos quando se tratava de um homem que decidira possuir.
— Desculpe… – murmurou ela, insegura, o fôlego curto.
Virou costas, determinada a afastar-se, mas o pé escorregou numa pedra húmida. O coração deu um salto no peito e, antes que tocasse o chão, uma mão firme e ardente a segurou pela cintura.
Uma descarga elétrica atravessou-a. Tinha o nariz quase colado ao seu peito e, sem conseguir evitar, inspirou… aquele perfume. O mesmo. Aquele que a assombrava, à noite. O do misterioso desconhecido com quem passara doze noites.
O mundo pareceu desabar.
O seu olhar subiu lentamente até aos olhos de Collen, que a observava sem a menor emoção aparente.
— Tem cuidado – disse ele, num tom neutro.
Chantelle recuou bruscamente, como que queimada. Afastou a mão dele, confusa, envergonhada, perdida.
Ele perscrutou-a por um momento, depois perguntou, com voz dura:
— Causo-te assim tanta repulsa?
Ela baixou os olhos, engolindo as emoções.
— Só quero evitar qualquer mal-entendido desnecessário…
Um sorriso frio esticou os lábios de Collen.
— Nem um obrigado? Decididamente, falta-te um pouco de educação…
A observação foi como uma bofetada. Ela ergueu os olhos, furiosa. As faces coraram-se-lhe, o olhar tornou-se acerado.
— Obrigada, Senhor Wilkerson – cuspiu ela, a voz trémula de raiva.
Sem esperar resposta, deu meia-volta e afastou-se a passos largos.
Na varanda, afastada dos sorrisos de fachada, Mégane apertava furiosamente o braço da mãe. As unhas quase se lhe cravavam na pele, tal a cólera que lhe fervia.
— Mãe, viste aquela cadela?! Faz tudo para rondar o meu noivo! Olha para ele como se fosse dela! Provoca-o, faz-se de inocente, mas eu conheço-a!
Rhonda, imperturbável no seu tailleur marfim, bebericava vinho como se nada fosse. Os seus olhos brilhavam, contudo, com uma vigilância fria. Pousou a taça lentamente, depois segurou na mão crispada da filha para a acalmar.
— Querida, acalma-te. Fala baixo.
Mégane já não ouvia, estava enfurecida.
— E se eles descobrirem que o contrato de noivado era inicialmente para ela? O que é que a gente faz, hein?! Tudo vai desmoronar-se!
Rhonda esboçou um sorriso venenoso, digno de uma serpente que se insinua silenciosamente atrás da sua presa. Acariciou suavemente a mão de Mégane, quase com ternura.
— Esqueces-te com quem falas, minha filha. Aquela miúda… não passa de uma pedrinha no nosso sapato. Vou tratar desse problema. Definitivamente. Confia em mim.
Mégane olhou para ela com um brilho de admiração misturado com receio.
Chantelle entrou na sala a passo apressado. O seu pai estava ali sozinho, de pé junto do móvel bar, um copo vazio na mão. Sem esperar que ele falasse, plantou-se diante dele, o rosto fechado.
— Pai, acho que está na hora de ir para casa.
Ele arqueou uma sobrancelha, surpreendido.
Nesse momento, Rhonda e Mégane chegaram, ligeiramente ofegantes.
— Então, Chantelle? Divertiste-te esta noite? – lançou Mégane num tom melífluo, um sorriso sarcástico nos lábios.
Chantelle ignorou-a. Fixou o pai sem rodeios, cruzou os braços sobre o peito e declarou, num tom neutro mas cortante:
— Acho que desempenhei bem o meu papel esta noite. Vou-me embora agora.
— Porque não ficas mais um pouco? – fez o pai, a voz tensa.
— Porque não tenho nada que fazer aqui, pai. Boa noite.
Virou costas, mas Mégane não conseguiu evitar cuspir:
— Sim, mais vale ires-te embora. Arriscas-te a estragar muita coisa se ficares.
— Mégane, cala-te! – cortou secamente Rhonda, o maxilar crispado.
Lançou um rápido olhar para as escadas. Collen ainda estava em casa. Podia irromper a qualquer momento. Não podia ele assistir a uma cena de discussão. Rhonda sabia o quanto ele detestava conflitos e, sobretudo, não queria que ele descobrisse a amargura real entre as raparigas.
Voltou-se para a filha e murmurou em voz baixa:
— Faz boa figura, Mégane. Collen pode ainda estar cá. Ele não pode suspeitar de nada.
Mégane engoliu um comentário, mas o seu olhar permaneceu envenenado.
Chantelle, essa, não acrescentou palavra. Apanhou a mala no sofá, saiu com dignidade, o tronco direito, o coração pesado.
Depois de sair da casa do pai, Chantelle sentiu um nó de angústia apertar-lhe o estômago. Tirou o telemóvel e abriu a Uber. Nenhum veículo disponível. Tentou várias vezes, em vão. O silêncio da noite envolvia-a, as ruas estavam desertas, os candeeiros projetavam uma luz baça. Acelerou o passo, a garganta apertada.
Subitamente, um carro negro abrandou a seu lado, imobilizou-se suavemente. O vidro do lado do passageiro desceu com um leve clique. Collen olhou para ela, calmo e frio.
— Entra – disse simplesmente.
Ela recuou um passo, os olhos arregalados, surpreendida.
— Não, obrigada – respondeu ela, a voz trémula de incerteza.
— Contas andar até ao nascer do sol? – lançou ele, os olhos penetrantes. – Olha à tua volta… Nem um único táxi oficial, apenas carros que passam sem parar.
Um arrepio percorreu-a, tanto devido ao frio como àquela presença imponente diante de si.
— Não, não vou entrar no seu carro – afirmou ela, o olhar desafiador mas a voz mais fraca do que desejara.
O silêncio instalou-se por um instante. Collen olhou para ela, os seus olhos escuros fixos nela, como se pesasse cada palavra.
Depois acrescentou, num tom frio e categórico:
— Sou obrigado a forçar-te a entrar no meu carro, porque és agora minha futura cunhada. Pessoas desonestas podem fazer-te mal nesta escuridão.
Ofegante, ela lançou um olhar em redor. A solidão oprimia-lhe o peito.
Após uma hesitação que lhe pareceu uma eternidade, aproximou-se lentamente, abriu a porta.
— Só desta vez – murmurou ela sentando-se.
A porta fechou-se suavemente. O motor rugiu, e o carro retomou a sua rota na noite silenciosa.
Chantelle olhava obstinadamente pela janela do carro, as luzes da cidade desfilavam sem que ela lhes prestasse realmente atenção. O seu espírito estava agitado, dividido entre a cólera e a tristeza.
De repente, o telemóvel vibrou. Desviou os olhos da paisagem para ver quem a chamava. Era o pai.
Atendeu com um gesto rápido.
— Amanhã ao meio-dia, vais almoçar ao hotel Le Grand com o filho da família Paterne – ordenou a voz dura do pai. – É um bom partido. É com ele que te deves casar. Tens de o atrair, ouviste? Será excelente para os nossos negócios.
Chantelle sentiu uma cólera surda subir nela. Com voz firme, respondeu:
— Não vou, pai. Não sou uma criança a quem se impõem ordens. Sou uma mulher livre, capaz de tomar as minhas próprias decisões. Sei o que é bom para mim.
O tom do pai tornou-se ameaçador, gelando o ar à sua volta:
— Se recusares, então esquece a tua avó. Nunca mais a verás.
Antes que pudesse replicar, a linha cortou-se brutalmente.
Chantelle apertou o telemóvel entre as mãos, os nós dos dedos brancos pela pressão. Uma frustração amarga e um sentimento de impotência invadiram-na.
Dentro do carro, o silêncio era tenso, quase opressivo.
Collen mantinha os olhos na estrada, concentrado no volante, o rosto imobilizado numa indiferença perfeita.
Ele ouvira tudo.
Contudo, a sua voz soou de repente, tão fria como o ar condicionado no habitáculo:
— O teu pai gosta de vender as filhas, pelo que vejo.
Chantelle imobilizou-se. O sangue subiu-lhe ao rosto. Sem voltar a cabeça, murmurou com voz glacial:
— Isso não te diz respeito.
Um sorriso quase impercetível esticou os lábios de Collen. Encolheu os ombros com um pequeno gesto despreocupado da mão direita, enquanto fixava a estrada diante de si.
— Sim, claro… – respondeu calmamente, como se a sua observação não tivesse importância alguma.
Mas no seu olhar, a ironia brilhava. Não esperava resposta alguma.
Chegaram em breve diante do prédio de Chantelle. Ela quase se precipitou para apanhar a mala, abriu a porta, depois voltou-se brevemente para ele, o olhar duro.
— Obrigada, Senhor Wilkerson.
Desceu sem esperar resposta e fechou a porta com firmeza. Collen, sempre imóvel, seguiu com o olhar a sua silhueta que se afastava. Não se mexeu, o seu rosto tão fechado como uma porta blindada.
Depois, num suspiro quase inaudível, arrancou novamente, como se nada o atingisse ou como se se esforçasse por que nada o atingisse.
Já era a quinta vez que Chantelle subia e descia no elevador para lhe ir buscar um simples café. As suas pernas estavam pesadas, as costas suadas, e os braços tremiam ligeiramente de exaustão. Tinha a impressão de ser uma marioneta puxada por fios invisíveis.Quando entrou novamente na cafetaria, a empregada, que se ria no início, teve desta vez um olhar enternecido.— O teu patrão só quer testar os teus limites — disse ela com voz doce.— Estou no limite. Exausta — murmurou Chantelle, com o fôlego curto. — Ainda nem sequer tirei as minhas coisas da caixa no gabinete…— Não desanimes. É um jogo de poder. O que é que ele disse desta vez?— Que estava amargo… Vou pôr-lhe muito açúcar. Demasiado, até.— Quantos pacotes?— Cinco.A empregada arregalou os olhos.— Cinco? Mas isso é… é xarope, não é café.— Que me despeça, então, em vez de me fazer andar às voltas como uma louca — replicou
Depois da saída da secretária, Chantelle sentou-se devagar na poltrona de couro. Pousou as mãos na mesa, acariciando distraidamente a superfície lisa e brilhante da madeira escura. Tudo aquilo lhe parecia irreal. Girou suavemente sobre si mesma com a cadeira, varrendo a sala com o olhar, os olhos cheios de assombro.— É incrível… Não pensava estar aqui um dia — murmurou interiormente.Foi então que o telefone do gabinete emitiu um bipe seco, fazendo-a sobressaltar-se violentamente. Hesitou um segundo e depois atendeu.— Estou?Uma voz glacial, cortante como uma lâmina de barbear, fez-se ouvir do outro lado:— Vem ao meu gabinete. Já.Chantelle baixou instintivamente os olhos para a linha de separação entre o seu gabinete e o do diretor executivo. Através da parede de vidro fumado, avistou-o: Collen, de pé, de braços cruzados, olhar duro, silhueta direita como um cutelo.O seu coração começou a bater mais depres
A segunda-feira chegou mais depressa do que ela teria querido.Às seis e meia, Chantelle acordou sobressaltada: estava atrasada para o trabalho.Virou a cabeça para o telemóvel, apanhou-o maquinalmente e verificou as mensagens. Nada.Sempre nada do pai.— É estranho… — murmurou ela, franzindo as sobrancelhas. — Porque é que o pai ainda não me ligou de volta?Pousou o telemóvel devagar, levantou-se e dirigiu-se para a casa de banho.A água quente do duche não conseguiu apagar a estranha sensação de mal-estar que se apoderara dela.Vestiu um vestido simples, descontraído, pegou na mala e saiu de casa.Um táxi parou quase imediatamente diante dela e deixou-a em frente à empresa.O edifício já fervilhava de atividade: empregados chegavam de todos os lados, a conversar, a andar de passo apressado, a cumprimentar de passagem.Mas mal entrou no átrio principal, Chantelle sentiu uma mudança n
Collen saiu da casa de banho, um roupão amarrado à cintura. Quando atravessava a soleira para voltar ao quarto, três batidas discretas soaram na porta.Parou no seu impulso e depois foi abrir.Um homem de fato estava ali, direito, dois sacos pretos na mão.— Patrão, aqui está o que nos pediu — disse ele simplesmente.Collen recolheu os sacos sem responder, fechou a porta atrás de si e girou a chave na fechadura.Aproximou-se da cama e pousou os sacos. Abriu um deles, tirou as roupas novas que desdobrou brevemente, antes de as pousar negligentemente ao lado.O seu telemóvel vibrou na mesa.Apanhou-o, levou-o devagar ao ouvido.— Fala — disse ele num tom calmo.— Patrão, fizemos o que nos pediu — respondeu uma voz grave do outro lado da linha.— Bem — murmurou Collen antes de desligar.Depositou o telemóvel na mesa, prendeu o relógio ao pulso e depois pegou novamente no telemóv
Collen tirou os sapatos e o seu casaco devagar, deixando-os cair negligentemente na poltrona. Arregaçou as mangas da sua camisa branca e aproximou-se da cama, deslizando os braços suavemente por baixo dela.Sem uma palavra, levou-a até à casa de banho. A água fria já enchia a banheira. Inclinou-se e, com cuidado, depositou Chantelle ali dentro.Ao contacto gelado, ela sobressaltou-se violentamente, agarrando o seu braço.— Está muito frio… — murmurou Chantelle, estremecendo.— Sei — respondeu Collen com voz doce. — Vai acalmar-te.Ajoelhou-se ao pé da banheira e começou a deitar-lhe água suavemente nos ombros, na nuca, na parte superior do peito.Mas para Chantelle, aquela água fria não acalmava nada. Antes, inflamava ainda mais o fogo que já fervedia dentro dela. Cada arrepio era uma faísca a mais.Esperou que ele lhe deitasse mais um punhado de água e depois agarrou na sua mão molhada, manteve-a um instante c
Três homens surgiram na sala, vestidos de negro da cabeça aos pés, as suas silhuetas destacando-se como sombras ameaçadoras na luz ténue. Um deles, mais imponente do que os outros, mantinha-se direito como uma lâmina. Usava uma máscara negra que só deixava ver os seus olhos, frios, implacáveis.Raphina, deitado a meio na cama, sobressaltou-se ao ouvir o estrondo. O seu coração começou a bater mais depressa, o seu cérebro não conseguia processar o que se passava. Nem teve tempo de abrir a boca, um dos homens saltou sobre ele.— Eh! O que é que…?!Não teve tempo de dizer mais. O homem mascarado agarrou-o brutalmente e levantou-o sem esforço, antes de o esmagar violentamente no chão. A sua cabeça embateu no ladrilho com um barulho surdo. Um primeiro murro caiu-lhe no rosto. Depois um segundo, ainda mais violento. O gosto do sangue encheu-lhe imediatamente a boca.— Mas o que é que estão aqui a fazer? Quem são?! — exclamou ele, com a voz def







