INICIAR SESIÓNDORIANOnze dias depois de Gramado, minha vida tinha recuperado quase todas as aparências de normalidade.A Pediatria continuava funcionando sem qualquer interesse pelos meus problemas pessoais. Crianças ainda tinham febre, quebravam braços, recusavam medicação e faziam perguntas que obrigavam adultos a admitir que não sabiam tudo. Minha agenda continuava cheia. Reuniões continuavam começando no horário mesmo quando eu não tinha dormido direito. Patrícia continuava entrando na minha sala com prontuários, alterações de escala e aquela capacidade irritante de perceber quando alguma coisa estava errada antes que eu dissesse.Era útil.A normalidade exigia pouco de mim além de movimento.Naquela manhã, um menino de seis anos tentou descobrir por que médicos precisavam de outros médicos se sabiam examinar pessoas.— Porque é difícil avaliar a si mesmo — respondi.A frase saiu antes que eu pensasse.A mãe dele assentiu como se eu tivesse oferecido algum tipo de sabedoria.Eu apenas continue
MARIANANo dia anterior, eu tinha perguntado se podia passar na casa de Dorian.Ele respondeu que podia.Depois acrescentou que queria que eu fosse.A segunda mensagem foi a responsável por eu estar dentro de um carro de aplicativo atravessando Camobi com uma sacola de papel no colo e uma quantidade pouco saudável de pensamentos para uma viagem que deveria durar menos de vinte minutos.Eu havia comprado pão de queijo, dois pedaços de cuca e um daqueles cafés grandes que pareciam feitos para manter estudantes universitários funcionando contra a vontade da natureza. Não porque Dorian não tivesse comida. A cozinha dele provavelmente poderia sustentar uma pequena comunidade durante uma crise internacional. Eu só precisava chegar carregando alguma coisa.Chegar de mãos vazias parecia íntimo demais.Ridículo, considerando que eu já tinha passado a noite inteira nua com aquele homem.Meu celular vibrou.Dorian: Onde você está?Olhei pela janela. Casas, árvores, uma farmácia, um cachorro dorm
DORIANHenrique tirou a chave do Volvo da minha mão no estacionamento.Não pediu.— Me devolve.— Não.— Estou liberado.— Liberado não significa aprovado para dirigir horas depois de sair de um atendimento por alteração de consciência.— Eu sou médico.— E hoje essa frase perdeu qualquer valor argumentativo.Gustavo fechou o porta-malas atrás de nós e apontou para Henrique.— Eu apoio.— Ninguém pediu.— Continuo apoiando.Eu ia estender a mão quando Mariana apareceu ao lado de Cecília.Óculos escuros, cabelo preso, mochila em um ombro.— Nem tenta. Apoio eles.Olhei para ela.— Você também?— Especialmente eu.— Estou completamente orientado e ciente.— Excelente. Vai poder apreciar melhor a paisagem do banco do passageiro.Henrique abriu a porta.— Entrou para o sindicato.— Com orgulho.Eu deveria estar irritado. Estava.Também havia alguma coisa estranhamente familiar na maneira como Mariana me contrariava.Depois das últimas vinte e quatro horas, familiaridade parecia luxo.Entr
MARIANAQuando Lavínia passou por mim para sair do salão, eu senti o perfume dela.Foi a mesma coisa que senti ao entrar no quarto naquela manhã.O reconhecimento veio tão rápido que meu estômago se contraiu. Por meio segundo eu vi de novo o cabelo espalhado no travesseiro, o ombro nu, a roupa no chão, as embalagens sobre a mesa e Dorian sem acordar enquanto o café escorria pelo carpete.Só que agora havia uma diferença.Naquela manhã, aquela imagem tinha sido uma resposta.Agora começava a parecer uma pergunta.A porta fechou atrás de Lavínia.Henrique passou as duas mãos pelo rosto e ficou parado de costas para todos. Cecília se aproximou dele sem dizer nada. Tomás olhava para o chão. Gustavo, que normalmente encontrava alguma frase até nos momentos em que ninguém deveria falar, permaneceu em silêncio.Amália foi até Dorian.Parou antes de encostar.Ele percebeu.Eu também.— Posso? — ela perguntou.O rosto dele mudou.Pouco.— Pode.Amália abraçou o irmão com cuidado, quase sem usa
DORIANEu conhecia o som de um monitor cardíaco havia anos. Conhecia também o cheiro de antisséptico, o ruído das rodas de uma maca atravessando um corredor e aquele tom específico que médicos usavam quando possuíam informação suficiente para preocupar, mas não para concluir.Nada daquilo costumava me incomodar.Naquela manhã, incomodava tudo.A pulseira plástica no meu pulso. O acesso no braço esquerdo. O curativo da mão direita, que dois dias antes tinha sido o meu principal problema físico e agora parecia quase irrelevante. Até a luz branca acima da maca me irritava porque eu não conseguia decidir se a dor atrás dos olhos tinha realmente diminuído ou se eu apenas estava ficando acostumado a ela.A enfermeira terminou de verificar minha pressão e soltou o velcro da braçadeira.— Melhor.— Quanto?Ela respondeu.Assenti antes de perceber o movimento.Henrique, encostado perto da janela, observou.— Impressionante. Você consegue ficar internado e continuar trabalhando.— Não estou int
LAVÍNIAA porta do meu quarto fechou atrás de mim com um clique tão discreto que, por alguns segundos, fiquei olhando para a madeira como se o som tivesse sido insuficiente.Do outro lado continuavam o corredor, os passos, Cecília, o café derramado, Henrique levando Dorian embora e Mariana encostada perto de uma parede tentando descobrir qual parte da manhã deveria acreditar.Ali dentro, nada havia mudado.A cama permanecia feita.As cortinas estavam abertas até a metade, deixando entrar uma faixa de sol frio que atravessava o carpete e alcançava a poltrona onde eu tinha largado uma echarpe no dia anterior. Uma taça de água esquecida sobre a mesa continuava exatamente no mesmo lugar.A ordem me incomodou.Talvez porque o quarto não soubesse de nada.Soltei a bolsa sobre a cama e só então percebi que meus dedos estavam doloridos de tanto apertar a alça.O telefone vibrou lá dentro.Eu já sabia que não seria uma mensagem agradável antes de olhar.Henrique.Estamos levando ele para atend







