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Capítulo 6

Author: Peixe Koi
— Isaac… — A voz de Lorena falhou, traindo o nó na garganta.

— Hein? Lorena? — Isaac segurou a mão dela. — O que aconteceu? Você está com vontade de chorar? Se quiser chorar, chora. Não precisa segurar.

A voz de Isaac era muito, muito doce.

Era igual àquela época em que Lorena tinha saído da sala de cirurgia. Isaac, junto com a enfermeira, tinha empurrado a maca até o quarto e tinha ficado do lado da cama dela, falando com o mesmo tom suave, quase líquido:

— Lorena, está doendo? Se doer, chora. Não precisa aguentar sozinha…

Naquele tempo, Lorena achava que aquele cuidado delicado, quase carinhoso, era o melhor anestésico do mundo. Pena que ela demorou tantos anos para entender que a gentileza e a preocupação de um homem nunca iriam, por si só, se transformar em amor.

— Isaac, vamos nos divorciar. — Lorena falou baixo, puxando a mão de volta. A dor fazia a visão dela ficar embaçada.

Isaac franziu a testa. Claramente, ele não tinha esperado por isso. Depois de um silêncio curto, ele chamou o garçom, pediu um prato limpo, pegou um pedaço de peixe e começou a tirar cuidadosamente as espinhas com garfo e faca. Enquanto isso, ele disse, num tom manso:

— Lorena, eu sei que você ainda está chateada, mas falar em divórcio é falta de juízo. Se você se divorciar de mim, como é que você vai fazer? Como você vai viver sozinha?

A respiração de Lorena ficou mais rápida. Há cinco anos, na cabeça de todo mundo, ela existia só como um apêndice de Isaac. Sem ele, ela seria sempre a coitada, a inútil, a mulher que ninguém queria. E ele pensava exatamente igual.

— Eu dou conta de mim. — Pela primeira vez, Lorena ergueu a cabeça diante dele. Pela primeira vez, ela quis defender a própria capacidade.

Isaac apenas sorriu, como se ela fosse uma criança teimosa, e colocou o peixe já limpo no prato dela:

— Come. Eu deixo você ficar brava mais um pouco, mas, depois que terminar de comer, não pode ficar de mau humor.

— Eu não estou brava. Eu estou falando sério sobre o divórcio.

Como era que ela podia falar para Isaac de um jeito que ele realmente entendesse que aquilo não era birra?

— Lorena. — Isaac pousou os talheres. — Já chega. Hoje eu cancelei duas reuniões e uma viagem rápida de negócios só para ficar com você. Amanhã e depois de amanhã eu nem sei se vou ter esse tempo todo. Eu vou repetir: a Aurora é amiga de todos nós, é só mais uma do grupo. Eu a trato do mesmo jeito que trato o Breno e os outros. Ela gosta muito de você, sempre quis ser sua amiga. Com esse seu jeito, como você quer que eu apresente vocês duas?

— Então não precisa apresentar. — Lorena não acreditava, nem por um segundo, que Aurora quisesse, de fato, ser amiga dela.

— Lorena!

Isaac começou a se irritar.

Lorena já sabia que, quando o assunto envolvia Aurora, o famoso autocontrole dele começava a falhar.

— Vai, come. Depois a gente vai no shopping, compra o que você quiser, e, à noite, vamos jantar com os seus pais. Faz quanto tempo que você não visita os seus pais?

Ele não parava de colocar comida no prato dela.

Lorena não queria se torturar de propósito. Ela pegou o garfo e a faca, e começou a comer. Fosse como fosse, ela precisava estar bem de saúde. Não valia a pena estragar o próprio estômago para provar um ponto.

— Assim está melhor. — A voz de Isaac voltou a ficar suave. — E, daqui pra frente, não fala mais em divórcio.

Lorena fez uma breve pausa, mas continuou de cabeça baixa, comendo.

Quando terminaram, ela não queria ir ao shopping, mas Isaac insistiu. Ele dirigiu direto até lá.

Em cinco anos de casamento, as idas de Isaac ao shopping ao lado de Lorena podiam ser contadas nos dedos de uma mão. Na verdade, qualquer aparição pública dos dois juntos podia ser contada nos dedos.

Mesmo de dia, a iluminação do shopping era forte a ponto de incomodar. Lorena se sentiu deslocada. Ela abraçou a bolsa contra o peito e caminhou com cuidado, um passo atrás dele, escondida na sombra que ele projetava.

O primeiro piso era tomado por vitrines de bolsas de luxo, relógios caros e joias brilhando sob o vidro.

— O que você quer comprar? — Isaac se virou e perguntou.

Lorena não queria comprar nada. Ela só queria voltar para casa. Mas, antes que ela pudesse responder qualquer coisa, alguém chamou lá de longe:

— Sr. Isaac!

— É gente de uma empresa parceira nova. Eu vou lá cumprimentar. — Isaac avisou. — Anda, dá uma olhada por aí, eu te encontro daqui a pouco.

Lorena não conhecia nenhum parceiro dele. Ela observou Isaac caminhar até um homem não muito longe e apertar a mão dele. Ela ficou parada onde estava. Em meio àquele excesso de luxo e brilho, não havia um único objeto que ela realmente quisesse comprar.

— Senhorita, chegou a sua vez. — A vendedora chamou a atenção de Lorena.

Só então Lorena percebeu que, distraída, tinha parado justamente na fila de uma loja de grife.

— Ah, não, obrigada. — Ela respondeu depressa e saiu dali quase às pressas.

Lorena continuou andando pelo shopping sem rumo, até que, de repente, ela viu uma silhueta familiar em frente a um balcão de relógios de uma marca famosa. Era Aurora.

Quando Lorena viu o logo na vitrine, algo dentro dela afundou. Sem perceber, ela se aproximou do balcão.

Aurora não estava sozinha. Breno a acompanhava na escolha do relógio. À medida que Lorena se aproximava, a conversa dos dois ficava cada vez mais nítida.

— Se você gostou, compra. — Era a voz de Breno.

— Não sei, esse é caro demais. — Aurora respondeu. — Mesmo o Isaac tendo me dado o cartão de crédito adicional e falando para eu usar à vontade, eu fico sem jeito de comprar uma coisa tão cara assim.

Os pés de Lorena pararam ali mesmo. Ela não conseguiu dar mais um passo. O peso no peito acompanhava o peso nas pernas.

O cartão de crédito… O cartão adicional dele…

— Já que Isaac te deu o cartão, é porque ele quer que você use. O Isaac nunca foi de falar uma coisa e pensar outra. Depois de tantos anos de amizade, você ainda não conhece o jeito dele? Se ele te deu, é de coração. — Breno continuou.

— Também acho… — Aurora começou a girar o pulso, exibindo o relógio para Breno em ângulos diferentes.

Lorena também viu.

— E aí, ficou bonito? Hein, Breno? Eu estou apaixonada por esse modelo. Desde a faculdade eu gosto dele. Naquela época, o Isaac me prometeu que ia me dar um quando a gente se formasse, depois… — Disse Aurora.

"Depois…?"

No coração de Lorena, um riso irônico e amargo apareceu de uma vez. Depois, em todos os aniversários e datas especiais, o presente que Isaac dava para ela era exatamente esse mesmo modelo de relógio.

Lorena sempre tinha pensado que, mesmo que Isaac não a amasse, pelo menos ele lembrava do aniversário dela, lembrava da data do casamento. Mesmo que ele não escolhesse com afeto, os presentes eram caros, tinham peso.

Mas agora, ela via que Isaac não era esquecido nem desatento. Pelo contrário, ele lembrava demais, se importava demais. Só que tudo aquilo que estava gravado no coração dele não tinha nada a ver com Lorena.

— Então agora o Isaac está, finalmente, cumprindo a promessa. Qualquer coisa que você queira, hoje ele pode comprar. Se você gostar, ele dá conta de pagar. — Breno incentivou.

— Então eu vou comprar.

Era visível o quanto Aurora estava tentada.

Um pouco mais distante, Isaac já tinha terminado as apresentações com o potencial parceiro. O homem, que tinha ido ao shopping para encontrar a esposa, soube que Isaac estava ali acompanhando sua própria mulher nas compras e sugeriu que fossem até ela para cumprimentá-la.

Quando Lorena viu Isaac se aproximando, ela se escondeu atrás de uma coluna, por instinto. Aurora, porém, já tinha notado a presença dele e levantou o braço, chamando, toda animada:

— Isaac, estou aqui, vem cá!

Lorena, por trás da coluna, viu Isaac e o parceiro de negócios caminharem direto na direção de Aurora.

Aurora agarrou o braço de Isaac e o balançou, manhosa:

— Isaac, eu posso comprar esse relógio?

— Claro. — Isaac olhou para ela com uma doçura quase líquida. O brilho nos olhos dele deixava todo o rosto mais vivo, completamente diferente do homem apático que ele era em casa, diante de Lorena.

— Obrigada! Então eu vou lá pagar. — Aurora ergueu o cartão adicional que Isaac tinha dado para ela, sacudindo no ar.

O empresário que tinha vindo com ele viu a cena e riu.

— Opa, Sr. Cunha e Sra. Cunha, vocês são mesmo um casal apaixonado. Vocês dois emocionam a gente.

Sr. Cunha e Sra. Cunha?

Isaac e Aurora se sobressaltaram por um segundo, mas nenhum dos dois corrigiu o engano...
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