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Cláusula de Vingança
Cláusula de Vingança
Autor: Bennys Black

Capítulo 01

last update Data de publicação: 2026-08-27 21:56:05

São Paulo, dias atuais.

A chuva fustigava os vidros da torre envidraçada como se quisesse invadir o escritório e roçar a pele dela. Verônica Luz não se lembrava da última vez que sentira frio de verdade, daquele que começa na base da espinha, sobe devagar pela coluna e se espalha pela nuca, arrepiando a pele como um toque indesejado, mas sentia agora. O relógio marcava 21h48 quando o e-mail se abriu diante dos seus olhos e o mundo, por um instante, pareceu suspender o fôlego.

Projeto Atlas transferido. Prioridade vendida. Se prepare, V.

A mensagem era curta, anônima, vinda de um servidor descartável. No entanto a dor que ela carregava era precisa, afiada, pessoal e ainda assim, no fundo da garganta, um calor estranho se misturava à raiva.

O Projeto Atlas — a inteligência artificial que a Luz Tecnologia vinha desenvolvendo há dois anos — era a menina dos olhos de Verônica. A última cartada para recolocar a empresa no topo. O projeto que faria a Ferraz Tech engolir o próprio veneno, agora não existia mais.

Não era roubo cibernético. Era coisa de dentro. Traição com cheiro de casa.

Ela sabia de onde vinha.

Brasília, 2011.

Na faculdade, os sobrenomes Ferraz e Luz sempre foram mencionados juntos, mas não como Romeu e Julieta. Eram os rivais mais quentes do campus, os dois lados da mesma moeda: ele, o gênio carismático que entrava em qualquer sala e roubava a atenção como se o ar pertencesse a ele.

Ela, a estrategista fria que fazia o silêncio pesar e os olhares se demorarem demais. Onde um entrava, o outro chegava logo atrás. Onde um vencia, o outro estreava a derrota com a cabeça erguida e o olhar desafiador, a tensão entre os corpos quase palpável.

Marcel Ferraz era o cara que todos queriam por perto. Verônica Luz era a mulher que todos temiam e desejavam em segredo. Durante um semestre, chegaram perigosamente perto de ser outra coisa.

Foi na maratona de robótica. Um projeto conjunto que poderia ter mudado tudo. Marcel virou noites, obcecado, o corpo tenso sobre a bancada, a camisa grudada nas costas, o maxilar travado de concentração. Verônica revisava cálculos e códigos ao lado dele, os dedos precisos, a respiração controlada, o perfume sutil dela se misturando ao cheiro de café e suor e no fim, o projeto foi desclassificado por um erro que ninguém do grupo reconheceu.

Marcel perdeu a bolsa.

Nunca soube o que realmente aconteceu, mas a versão plantada por terceiros era a que ele queria ouvir: Verônica Luz sabotou você porque queria o prêmio.

Ele nunca a perdoou.

Ela nunca se rebaixou a explicar.

E a distância entre eles virou uma muralha invisível. Intransponível. Alimentada por boatos, negócios perdidos e a indústria inteira assistindo de camarote, esperando o próximo round e o dia em que aquele ódio finalmente explodisse em outra coisa.

São Paulo, agora...

Verônica fechou o notebook com força. O pai provavelmente já sabia. A família Luz tinha um lema silencioso: não se criam filhos preferidos, criam-se ativos lucrativos. Apesar do Sobrenome, a família não emanava afeto, somente a obrigação de brilhar. Falhas não eram admitidas.

Aline, a caçula, sempre esteve um passo atrás. Nunca venceu Verônica em nada e estava cansada de ser a única a falhar, a ser cobrada, a ser invisível. Por isso, fez o que fez.

Vendeu o Atlas para Orlando Reis, dono da Reis Innovations, o terceiro grande player do mercado, que vinha crescendo à custa de apunhalar as duas famílias e agora, com o projeto em mãos, Orlando tinha a arma que faltava para engolir de vez os Ferraz e os Luz.

Verônica sentiu o gosto amargo na boca. Queria chorar. Queria quebrar a mesa. Mas se levantou, alisou a saia justa com as palmas das mãos, o tecido deslizando sobre a pele das coxas. Encarou a própria imagem refletida na janela encharcada. O vestido preto marcava cada curva, os seios subiam e desciam com a respiração controlada.

— Você não pode cair agora. Não com ele assistindo.

Ela precisava de um plano e o plano tinha nome de inimigo.

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