LOGINDo outro lado da cidade
Marcel Ferraz estava com a caneca de café entre as mãos quando a secretária avisou que Verônica Luz estava na recepção. Ele demorou dois segundos para processar. Depois, um sorriso lento esticou seus lábios, perigoso, satisfeito e um calor indesejado desceu pelo baixo ventre. — Verônica Luz aqui? A essa hora? Deixa ela esperando. Dez minutos, depois manda entrar. Ele ajeitou os botões da camisa preta, o tecido esticando sobre o peito largo. O ambiente da Ferraz Tech era sóbrio, masculino, cheio de telas e relatórios. Marcel sempre jogara sujo com elegância quando se tratava de Verônica, havia uma satisfação cruel em vê-la do lado de lá da mesa. Era um prazer antigo, doído, quente, que ele jamais admitiria. O tipo de prazer que apertava a garganta e fazia o sangue circular mais baixo. Ela entrou. Não desviou o olhar. O ar entre os dois ficou mais denso, carregado, como se a chuva lá fora tivesse entrado junto com ela. O vestido preto colava no corpo, a fenda lateral revelando um trecho de pele da coxa a cada passo. Os cabelos presos em coque baixo deixavam o pescoço exposto, vulnerável. — Boa noite, Ferraz. A voz dela saiu baixa, controlada, mas ele sentiu o eco dela na pele. — Boa noite, Luz. A que devo o desprazer? Verônica conteve a vontade de revirar os olhos. Aproximou-se da mesa, a postura ereta, o tecido do vestido moldando os seios e a cintura com uma precisão quase obscena. Os olhos dele desceram, lentos, e voltaram para o rosto dela com uma deliberação provocante. — O Orlando Reis comprou o nosso projeto. O Atlas. Vazou de dentro da minha própria casa. A Reis Innovations vai lançar a tecnologia em seis meses e, se isso acontecer, você e eu sabemos que o mercado não terá espaço para mais ninguém. Marcel se inclinou na cadeira, o sorriso desaparecendo aos poucos. Os olhos verdes a estudavam com atenção lenta, como se ainda estivesse decidindo se queria devorá-la ou destruí-la — ou as duas coisas ao mesmo tempo. A camisa aberta no primeiro botão deixava entrever a pele do peito e Verônica sentiu o olhar dela demorar um segundo a mais do que deveria. — E o que você espera que eu faça? Ligue pro papai Luz e dê os pêsames? Ela segurou firme, o queixo erguido. O movimento esticou a garganta, e ela viu os olhos dele descerem até ali. — Eu estou propondo uma fusão. Temporária. Estratégica. Ferraz Tech e Luz Tecnologia. Juntas, temos capital, patentes e munição pra esmagar o Orlando antes que ele lance o produto. Ele riu baixo, incrédulo. O som saiu rouco, quase um rosnado. — Você deve estar brincando. — Nunca brinquei com você, Marcel. O uso do primeiro nome o fez estreitar os olhos. Algo antigo e afiado passou entre ele, um puxão baixo, quente, indesejado. — Por que eu aceitaria me fundir com a mulher que destruiu meu projeto e minha bolsa na faculdade? Verônica respirou fundo. O peito subiu e desceu sob o tecido preto, e ela soube que ele notou. O ar entre os dois ficou mais quente. — Porque se você não aceitar, a próxima empresa a cair não será a minha, Ferraz. Vai ser a sua. O silêncio entre eles estalou, carregado de tudo o que não era dito. Ele cruzou os braços, os músculos tensionando sob a camisa. Ela sustentou o olhar, as pupilas dilatadas, a respiração um pouco mais rápida. Lá fora, a chuva insistia, batendo nos vidros como se quisesse acompanhar o ritmo do que acontecia ali dentro. Marcel então se inclinou para a frente, apoiou os cotovelos na mesa e a encarou como um predador avaliando a presa e gostando do que via. — Tudo bem, Verônica. Vamos nos fundir. Ela quase suspirou. O alívio veio misturado a um arrepio que desceu pela coluna. — Mas com regras. — Que regras? — Três. Primeira: nada de compaixão. Você não tem aliados aqui. Segunda: eu quero acesso total ao que aconteceu com o Atlas. Vou descobrir quem vazou. Terceira… Ele fez uma pausa. O sorriso voltou, torto, perigoso, e os olhos dela não conseguiram desviar a tempo. A boca dele se entreabriu um pouco, e ela sentiu o olhar queimando na pele do pescoço. — Terceira: quando o Orlando cair, a história vai ser contada do meu jeito e no meio dela, você vai aparecer como uma peça. Não como a heroína. Não como a gênia. Só como a mulher que me implorou ajuda. Ela ergueu o queixo, a pele do pescoço se tensionando, o pulso batendo visível sob a pele. — Eu não implorei. — Implorou com os olhos. É a única forma que você conhece de pedir. Verônica sustentou o olhar, recusando-se a dar o gosto de uma reação, mas o calor que subia pelo peito não tinha nada a ver com raiva. Era mais baixo, mais perigoso. A pele formigava onde ele a olhava. — Então fica assim, Ferraz, mas lembra de uma coisa: nessa história que você quer tanto contar, eu também escolhi estar aqui e se eu cair, você cai junto. — Isso é uma ameaça? A voz dele saiu mais grave. — É um aviso. O aperto de mãos foi firme. Frio na superfície. Mas quando os dedos de Verônica tocaram os de Marcel, ela sentiu um arrepio estranho subir pelo braço, quente, indesejado, impossível de ignorar. A pele dele era quente demais. Os dedos longos envolveram os dela com uma pressão que não era apenas profissional. Ele sentiu também. Os polegares se tocaram por um segundo a mais do que o necessário um deslizar lento, quase íntimo, que fez o sangue de ambos latejar mais forte. O olhar dele desceu até a boca dela. O dela, até o maxilar dele. Nenhum dos dois soltou a mão de imediato. Nenhum dos dois mencionouMarcel ficou alguns minutos no corredor antes de se mover. A porta do quarto estava entreaberta, um fio de abajur cortando o piso. Empurrou com cuidado. O quarto estava em penumbra. Verônica dormia de lado, o corpo ainda meio encolhido por cima da coberta, a blusa social amassada, o cabelo preto espalhado no travesseiro. Mesmo dormindo, havia tensão residual nos ombros, como se o dia não tivesse liberado o músculo por completo. Marcel aproximou-se sem acender a luz. Sentou na beira da cama com uma lentidão quase cerimonial. Não tocou o rosto dela de imediato. Só ficou ali, ouvindo a respiração. Quando, enfim, ergueu a mão, limitou-se a puxar a coberta um pouco mais para cima do ombro dela — um gesto pequeno, doméstico, destituído de estratégia. Verônica mexeu-se. Os olhos abriram só um pouco, turvos de sono e cansaço. — Rafael falou com você — murmurou, não como pergunta. — Falou. Ela estudou o rosto dele na meia-luz, procurando o gume antigo da acusação. Não encontrou. E
Cobertura de Verônica, 20h31Marcel não tinha conseguido deitar.Permaneceu sentado na beira da cama do quarto de hóspedes, a camisa aberta no colarinho, os antebraços apoiados nas coxas, os olhos fixos no ponto em que o piso mudava de tom. A imagem do corredor insistia com uma precisão cruel: Verônica encolhida, a cabeça no colo de Rafael, o caminho seco de uma lágrima atravessando o rosto dela. Ele passara em silêncio. Agora o silêncio devolvia o peso.Bateram na porta. Uma vez só.— Sou eu — disse Rafael.Marcel fechou os olhos por um instante.— Entra.Rafael atravessou o vão com cuidado, como se o cômodo inteiro pudesse rachar com qualquer movimento em excesso. Sem blazer. Sem a postura impecável de quem organiza crise alheia. Só o celular na mão e uma cansaço antigo colado ao olhar.— Não vim brigar.— Ainda bem — respondeu Marcel, sem se levantar. — Porque eu também não tenho energia para a briga errada.Rafael aproximou-se até uma distância respeitosa. Desbloqueou a tela, mas
São Paulo, fim da tarde Rafael não foi para a assessoria depois do conselho. Ficou andando sem destino por duas quadras, o vento batendo no rosto, a frase de Verônica ainda presa na cabeça como farpa: eu fico na técnica, ele fica no front. Ela se oferecendo de novo. Sempre se oferecendo. Sempre calculando o próprio corpo como peça sacrificável para manter o tabuleiro de pé. Ele parou numa esquina, tirou o celular e abriu a galeria privada. Não a pasta do trabalho. A outra. A primeira imagem que subiu não era dos três. Era só dos dois. Igor Oliveira de frente, a boca no canto da boca de Rafael, a mão na nuca dele, o apartamento pequeno ao fundo. Na seguinte, os dois no sofá, pernas enroscadas, a cabeça de Igor no peito de Rafael, a TV ligada em qualquer coisa. Noutra, um espelho de banheiro embaciado, os dois sem camisa, Igor rindo com a escova de dente na mão, Rafael beijando o ombro dele sem olhar para a câmera. Casal. Simples. Real. Indisfarçável. A dor veio antiga e inteir
São Paulo, 8h03A sala do conselho estava cheia demais para o tamanho da paciência de Verônica.Vidro, madeira escura, café mal bebido e a tela da parede ainda repetindo, em silêncio, recortes da noite anterior: o Atlas de Orlando, as fotos de Ilhabela, o trio da faculdade, a palavra “triângulo” aparecendo com a naturalidade suja de quem já tinha vendido a manchete antes de apurar qualquer coisa.Marcel chegou dois minutos antes dela. Terno escuro, rosto fechado, a mesma contenção da mensagem da noite. Quando Verônica entrou, os dois trocaram só um olhar. Não havia carinho ali. Havia alinhamento.Ele abriu a reunião como prometeu.— A fusão não vai discutir vida pessoal nesta mesa — disse, a voz baixa e firme. — Vamos discutir origem, cronologia e continuidade operacional. O resto é ruído.Ruído, no entanto, era exatamente o que alguns acionistas tinham vindo buscar.O primeiro a falar foi direto:— Ruído que está derrubando percepção de valor. O mercado lê instabilidade societária. L
São Paulo, 19h40 Marcel não foi para a cobertura. Também não voltou para a war room. Foi para o escritório vazio da Ferraz Tech, no andar alto, onde a cidade ficava longe o bastante para não ouvir opinião de ninguém. Sentou sem tirar o terno. Não ligou a luz principal. Só o abajur do canto, o notebook fechado na frente, o silêncio grosso de quem ainda estava saindo de uma sala demais. A raiva continuava no corpo. Não a raiva limpa de reunião perdida. A outra. A que vinha misturada com humilhação, ciúme e a imagem de Verônica se colocando na frente de Rafael como se aquilo fosse o instinto mais natural do mundo. Marcel ainda sentia a marca invisível da mão dela no peito, empurrando-o para trás. Ainda ouvia o “sai”. Por um longo tempo, ele só ficou ali. Não porque tivesse feito as pazes com o que vira. Porque gritar não ia mudar o fechamento do mercado. Levantou, abriu a pequena barra do escritório e serviu água, não uísque. Bebeu devagar. A cabeça, teimosa, insistia em voltar
São Paulo, 18h47A crise do Atlas ainda não tinha esfriado quando a segunda bomba caiu.Rafael entrou na war room sem bater, o celular na mão, o rosto já diferente. Menos o profissional impecável. Mais alguém que tinha levado um golpe abaixo da linha.— Saiu.Verônica tirou os olhos da linha do tempo do projeto.— O quê?Ele desbloqueou a tela e deslizou a primeira imagem.Ilhabela.Verônica de biquíni vermelho na areia, o corpo cortado pela luz da tarde. Rafael ao lado, sem camisa, a cabeça virada para ela. Na sequência, os dois rindo. Depois, uma foto mais fechada: a mão dela no braço dele, a boca aberta no meio da risada. O ângulo era de longe. Lente longa. Alguém tinha esperado o momento certo.Marcel, do outro lado da mesa, endureceu inteiro.A legenda do portal vinha pronta:Enquanto o noivo apaga incêndio no mercado, Verônica Luz curte praia com o “melhor amigo ou amante de longa data?"— Tem mais — disse Rafael.A voz saiu baixa. Raspada.A segunda leva era de câmera de segura







