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Capítulo. 03

last update Fecha de publicación: 2026-08-28 03:49:41

São Paulo, noite anterior ao anúncio...

A sala de reuniões da Ferraz Tech estava fria, apesar do ar-condicionado desligado. O ar denso parecia grudar na pele. Verônica Luz estendeu os papéis sobre a mesa com a precisão de quem já passara horas decorando cada linha e de quem sentia o olhar dele queimando na curva do pescoço exposto.

Eram dois documentos. O primeiro: fusão estratégica temporária entre Ferraz Tech e Luz Tecnologia.

O segundo: acordo de noivado público, sem amor, sem contato íntimo, sem fidelidade afetiva. Apenas aparência.

Marcel Ferraz observava tudo com o olhar de quem se divertia mais do que devia. Os olhos verdes desciam devagar pela linha do vestido preto dela, demorando na cintura apertada, na boca cerrada, no pulso que batia um pouco rápido demais sob a pele.

— Você trouxe até cláusula sobre distância em público — comentou ele, virando uma página com o polegar. A voz saiu baixa, rouca. — Tão assustada assim de encostar em mim?

— Prefiro ser clara — respondeu Verônica, sem levantar os olhos. O tecido do vestido esticava sobre os seios a cada respiração controlada. — No jogo que vamos jogar, as regras existem para os dois.

— E se eu quebrar uma?

Ele se inclinou um pouco para a frente. O calor do corpo dele atravessou o espaço entre eles.

— Então eu quebro o acordo.

Ele sorriu, devagar. O sorriso torto que sempre fazia o sangue dela subir.

— Gosto quando você fica autoritária.

— Assina, Ferraz.

Marcel pegou a caneta. Assinou as duas vias sem desviar o olhar dela. Os dedos longos apertaram o instrumento com uma firmeza quase provocante. Verônica fez o mesmo. Quando a caneta passou de uma mão para a outra, os dedos se roçaram por um segundo a mais do que o necessário. O silêncio entre eles era carregado de passado e de futuro mal resolvido e de um desejo que nenhum dos dois ousava nomear.

Quando o último papel voltou para a mesa, Marcel ergueu a taça de uísque que estava ao lado. O gelo tilintou.

— Aos noivos.

Ela não ergueu a dele. Os olhos se encontraram por um instante longo demais.

— Aos mentirosos.

Na casa da família Luz a mansão continuava impecável. Luz branca, móveis caros, retratos de conquistas. Mas no centro da sala, o clima era de tribunal.

O pai de Verônica estava de pé, com o celular na mão, a tela ainda acesa com a notícia do noivado.

— Você assinou um noivado com um Ferraz e não me avisou? Você enlouqueceu?

— Foi estratégico — disse Verônica, calma. A voz firme, o corpo ereto, a saia justa moldando as coxas. — O mercado precisava de um espetáculo. E o Orlando precisa acreditar que nós já tínhamos um plano conjunto.

— E ele acredita?

— Acreditou o suficiente para hesitar.

— E o Atlas? O projeto que você passou dois anos chamando de “o futuro da Luz Tecnologia”?

Aline se recostou no sofá, os olhos atentos, fingindo desinteresse.

Verônica respirou fundo e deu de ombros, como se o assunto fosse pequeno. O movimento fez o decote se aprofundar um milímetro.

— Uma peça que perdeu a utilidade. Eu já vinha trabalhando em algo maior com a Ferraz. O Atlas era só… uma etapa antiga.

Aline piscou duas vezes.

— Uma etapa antiga? — repetiu, sem esconder a surpresa.

— Isso. Você acha que eu deixaria o futuro da empresa preso a um projeto que qualquer estagiário ambicioso poderia vazar?

Verônica virou o rosto para a irmã. O olhar era frio, mas a boca permanecia entreaberta, como se ainda sentisse o eco do aperto de mãos de horas atrás.

— Eu trabalho com camadas, Aline. O Atlas era a camada visível.

Aline sustentou o olhar, mas os dedos se crisparam sobre a taça de suco.

— Mas a perda… — tentou Aline.

— Já estava prevista. O escândalo me dá tempo de limpar o terreno e avançar com a fusão sem interferência. O noivado com Marcel veio justamente para dar um novo rosto ao projeto. O mercado adora uma história de amor entre rivais.

O pai voltou a falar:

— E por que ninguém foi avisado disso?

— Porque nem a senha do wi-fi dessa casa eu confio, pai. Vocês são minha família, mas família também vaza. O Atlas está aí pra provar.

A mãe, calada, observava as filhas como quem assiste a um jogo de xadrez.

Aline desviou o olhar.

— Você fala como se tivesse tudo sob controle — disse a caçula, baixo.

— Porque eu tenho.

Verônica se levantou, alisou a saia, o tecido deslizando sobre a pele quente e pegou a bolsa.

— Agora, se me dão licença, eu tenho uma guerra para vencer. E um noivo para adestrar.

E saiu da sala com a cabeça erguida. O som dos saltos ecoou no corredor como um desafio.

Ninguém falou nada.

Mas Aline ficou para trás, remoendo a única ideia que a incomodava: e se o Atlas nunca tivesse sido o projeto vencedor?

Noite — Boate Aurora...

Marcel saiu com os antigos sócios da faculdade. Roupas escuras, riso fácil, uísque na mão. A noite era dele ou pelo menos ele queria que fosse.

— Cê tá noivo e tá aqui? — brincou um dos amigos.

— Noivo — repetiu Marcel, como se saboreasse a palavra. O sorriso torto apareceu. — Não é uma prisão.

— Cuidado que a Verônica descobre.

— E se descobrir? — ele ergueu a taça. O uísque brilhou sob as luzes baixas. — Que sinta ciúme.

Risadas explodiram na mesa e foi aí que Júlia apareceu.

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