LOGINPOV Romeo Catarina desaparecera havia dois dias. Nas primeiras horas, convenci-me de que o silêncio era uma resposta. Ela queria me punir. Precisava de distância. Estava com Amélia, insultando meu nome entre taças de vinho e transformando cada erro meu em mais um argumento para o divórcio que eu mesmo havia pedido. Depois, Catarina não apareceu na empresa. Cancelou uma reunião sem avisar, ignorou as ligações do conselho e não respondeu ao e-mail enviado pelos meus advogados. Nenhuma exigência. Nenhuma ameaça. Nem sequer uma mensagem me mandando apodrecer no inferno. A ausência de Catarina nunca fora silenciosa. Ela batia portas, erguia a voz, atacava onde sabia que doeria. Até sua indiferença tinha intenção. Aquilo era diferente. Às dez da manhã do segundo dia, eu já havia lido o mesmo relatório nove vezes sem compreender uma única linha. — O conselho está esperando na sala principal — Bianca informou, parada diante da minha mesa com uma pasta apertada contra o peito. Seu o
POV Catarina O apartamento parecia menor do que nas minhas lembranças. Ficava no vigésimo segundo andar de um prédio antigo, distante das luzes ostensivas da Strip e perto o bastante para que eu ainda enxergasse os cassinos pela janela. Eu o comprara aos vinte e três anos, quando ainda acreditava que independência significava possuir um lugar onde ninguém pudesse mandar em mim. Depois me casei com Romeo. Passei a morar na cobertura dele, assinei documentos sem lê-los e permiti que nossas vidas se misturassem até não conseguir mais distinguir o que era meu daquilo que pertencia ao império De Luca. Aquele apartamento era uma das poucas coisas que sobreviveram a essa mistura. A chave emperrou duas vezes antes de a fechadura ceder. Entrei arrastando a mala, acendi a luz e fui recebida pelo cheiro de lugar fechado. Os móveis continuavam cobertos por lençóis brancos. Havia poeira sobre o piso, caixas empilhadas perto da parede e uma garrafa vazia esquecida sobre a bancada desd
POV Catarina Acordei com o som do chuveiro sendo desligado. Por alguns segundos, não existiram contrato, divórcio ou Mateo. Existia apenas o corpo dolorido, os lençóis desarrumados e a lembrança das palavras que Romeo sussurrara enquanto me mantinha nos braços. Fica comigo. Virei-me para o lado dele. O travesseiro ainda guardava a marca de sua cabeça. A aliança continuava sobre o criado-mudo, exatamente onde eu a deixara. Sorri. Pequeno. Cauteloso. Quase incrédulo. Talvez não estivéssemos bem. Mas, depois da noite anterior, acreditei que finalmente voltaríamos a tentar. A porta do banheiro se abriu. Romeo apareceu com uma toalha presa à cintura. Os cabelos molhados pingavam sobre os ombros, e pequenas gotas percorriam o peito nu. — Bom dia — murmurei. Ele parou. Não respondeu imediatamente. Foi então que percebi que já não havia vulnerabilidade em seu rosto. Romeo havia reconstruído cada uma das barreiras que derrubáramos durante a madrugada. — Bom dia. Sentei-me, seg
POV Catarina Romeo me ergueu da mesa. Minhas pernas ainda estavam ao redor dele, e ele não parecia disposto a me soltar. Atravessou o escritório com passos firmes, e eu senti cada movimento dele contra meu corpo. — Onde estamos indo? — perguntei, a voz saiu mais trêmula do que eu gostaria. — Para o quarto. — Não vai me mandar embora? Ele parou no corredor. A luz baixa das luminárias noturnas desenhava sombras em seu rosto. — Depois. — Romeo— — Depois. Ele abriu a porta do quarto com o ombro e me colocou de pé ao lado da cama. O quarto estava escuro, apenas a luz da cidade entrando pelas cortinas entreabertas. Ficamos frente a frente. Onze meses. Onze meses desde a última vez que estivemos juntos assim. Onze meses de silêncio, de guerra, de mágoa. E agora, o ar entre nós parecia denso demais para respirar. — Você tem certeza? — perguntou ele. A pergunta me surpreendeu. Depois de tudo, depois de me arrastar até aqui, ele ainda estava me dando uma saída. —
POV Catarina Às três e quarenta e cinco da manhã, entrei na cobertura usando a chave que Romeo ainda não havia mandado retirar de mim. Encontrei as luzes da cozinha acesas. Ele estava sentado diante da bancada, com a gravata abandonada ao lado de uma garrafa de uísque. Segurava um copo, mas não parecia bêbado. Parecia devastado. Romeo ergueu os olhos quando me ouviu entrar. Por um segundo, nenhum de nós se moveu. Então ele colocou o copo sobre a bancada e se levantou. Não perguntou onde eu estivera. Não comentou minhas lágrimas ou a aliança que eu ainda apertava dentro da mão. Apenas caminhou em direção ao escritório. — Romeo. Ele continuou. — Eu estou falando com você. — Recebeu os documentos. A voz saiu fria. — Recebi. — Então sabe que precisa deixar a cobertura. — Não vou sair antes de conversarmos. — Já conversamos. Ele entrou no escritório. Fui atrás. — Não. Você decidiu tudo sozinho outra vez e chama isso de conversa. Romeo parou diante da mesa, mas perman
POV Catarina Amélia abriu a porta usando um pijama coberto por pequenos abacates e segurando um taco de beisebol. — Catarina? Eu não consegui responder. Estava descalça, com os sapatos em uma das mãos e a aliança de Romeo fechada dentro da outra. Não me lembrava de ter dirigido até ali. Só me lembrava do carro dele desaparecendo na garagem e da certeza de que, se voltasse para a cobertura, encontraria uma casa que já não era nossa. — Meu Deus. Amélia largou o taco e me puxou para dentro. — O que aconteceu? Você está machucada? Balancei a cabeça. — Romeo fez alguma coisa? — Pediu o divórcio. As palavras saíram quebradas. Amélia ficou imóvel. — Ele fez o quê? — Eu consegui. Soltei uma risada que se transformou em choro. — Fiz meu marido pedir o divórcio. Ela fechou a porta e me abraçou. Foi só então que desabei. Chorei contra o ombro da minha amiga com uma força que doía no peito. Amélia não pediu que eu me acalmasse. Não disse que ficaria tudo bem. Apenas me segurou en







