Share

CAPÍTULO 4

last update publish date: 2026-06-06 20:18:23

Cheguei quarenta minutos adiantada.

Não foi estratégia. Foi desespero puro. Não conseguia ficar em casa, andando de um lado para o outro, olhando para o relógio a cada trinta segundos. O Lucas tinha ido para o hospital fazer uma transfusão – uma vizinha se ofereceu para acompanhá-lo, e eu aceitei com um misto de alívio e culpa.

Então peguei o ônibus e vim.

O Café Cultura ficava na esquina da Praça das Flores, um lugar que tentava ser sofisticado, mas entregava a humildade nos detalhes: as mesas de madeira lascada, os guardanapos de papel reciclado, o mofo disfarçado atrás da cortina de renda.

Escolhi uma mesa perto da janela. Queria ver quem chegava.

Pedi um café que não consegui tomar. Fiquei girando a xícara, olhando para o relógio do celular, contando os minutos.

14:23.

14:31.

14:42.

Cada segundo era uma pequena morte.

O que eu estava fazendo ali? Esperando um desconhecido. Um desconhecido que não mandou foto. Que escreveu "por razões de segurança". Que provavelmente era um golpista ou pior.

Você pode ir embora agora, uma voz dizia. Finja que nada disso aconteceu. Dá um jeito de conseguir o dinheiro de outra forma.

Que outra forma? Vender o rim? O fígado? A dignidade já estava em liquidação.

14:47.

Eu ia embora. Ia pagar o café e ir embora. Desistir dessa loucura.

Levantei meio corpo da cadeira.

Foi quando a porta do café abriu.

Ele entrou como quem não quer ser notado.

Mas foi notado. Por mim. Pela atendente que parou de secar as xícaras. Pelo senhor no fundo que ergueu o olhar do jornal.

Theo era... complicado de descrever.

Bonito não era a palavra certa. Bonito é limpo. Bonito é leve. Ele não era leve.

Era bonito no sentido desconfortável. A mandíbula desenhada como corte de diamante, o nariz reto, a boca que não parecia saber sorrir. Cabelos castanhos desalinhados, como se ele tivesse passado a mão várias vezes sem vontade. Olhos cor de mel – mas um mel escuro, denso, que escondia alguma coisa no fundo.

E havia algo cansado nele. Não o cansaço de uma noite mal dormida. O cansaço de quem carrega peso há muito tempo. As olheiras não eram marcas de insônia. Eram trincheiras.

Ele vestia uma jaqueta de couro surrada, dessas que contam histórias sem dizer uma palavra. Jeans preto. Coturno. Parecia saído de um filme de ação de baixo orçamento. Ou de uma fuga.

Ele me encontrou com o olhar antes de dar três passos. Como se já soubesse exatamente onde eu estava.

Atravessou o café.

Sentou na minha frente.

Não pediu licença.

— Isadora.

Não era uma pergunta. Ele sabia.

— Theo — respondi, tentando parecer mais calma do que estava. — Eu imaginava que você fosse mais... antissocial.

Ele quase sorriu. Quase.

— Sou. Mas aprendi que é mais fácil resolver as coisas pessoalmente.

— Por razões de segurança?

O olhar dele mudou um milésimo de segundo. Um piscar de alerta. Depois voltou ao normal.

— Isso.

A atendente veio. Ele pediu um café preto, sem açúcar. Ela saiu. O silêncio entre nós durou tempo demais.

Ele me estudava. Eu o estudava de volta. Parecia um duelo de pôquer onde nenhum dos dois queria mostrar as cartas.

— Por que você não manda foto? — perguntei, direta. Não tinha paciência para joguinhos.

— Porque fotos deixam rastros.

— Rastros.

— Digitais. Metadados. Localização. Se alguém estiver procurando por mim, uma foto pode ser o fio que puxa o novelo.

Meu estômago deu uma cambalhota.

— Alguém está procurando por você?

Ele me encarou. Os olhos de mel escuro ficaram opacos.

— Não vou mentir para você. Sim. Alguém está. Mas não vou dizer quem, nem por quê. E não vai colocar você em perigo: esse é o meu problema. O seu problema é conseguir seu dinheiro. São mundos diferentes.

— Mundos diferentes que vão dividir o mesmo teto.

— Teto esse que você está me oferecendo, não é?

Ele tinha um ponto.

O café dele chegou. Ele bebeu um gole, sem pressa. O silêncio se alongou.

— Por que você? — ele perguntou, baixando a xícara. — Por que uma mulher bonita, jovem, com a vida pela frente, está comprando um marido na internet?

A pergunta pegou desprevenida.

— Bonita? Acho que você precisa de óculos.

— Evasiva também. Não respondeu.

Respirei fundo. Podia mentir. Podia inventar uma história de amor frustrado ou medo de ficar sozinha. Mas alguma coisa no jeito dele – na maneira como ele me olhava, como se já soubesse que eu estava escondendo alguma coisa – me fez querer dizer a verdade.

Ou parte dela.

— Meu irmão. Ele está doente. Leucemia. O tratamento custa caro, e eu estou falida. Uma herança vai resolver tudo. Vinte milhões. Mas tem uma condição: eu preciso estar casada até meu aniversário.

— Que é daqui a...

— Vinte e nove dias.

Ele assentiu devagar. Não demonstrou surpresa nem dó. Só processou.

— Por que o fórum? — continuou ele. — Por que não pediu ajuda a um amigo, contratou um ator?

— Que amigo? — minha voz saiu mais amarga do que eu queria. — Que ator? Você sabe quanto custa um ator para fingir casamento por um ano? Mais do que eu tenho. Mais do que eu posso pagar. E além disso... não quero que ninguém saiba. É humilhante.

— Humilhante é matar alguém por dinheiro. Isso aí é só triste.

Eu quase ri.

— Você tem um jeito estranho de confortar os outros.

— Não estou confortando. Estou constatando.

A conversa se alongou.

Ele perguntou sobre a rotina, sobre o Lucas, sobre os cuidados que ele precisava. Anotou mentalmente os horários de remédio, os dias de quimioterapia, as restrições alimentares. Parecia mais um enfermeiro estudando um prontuário do que um candidato a marido de aluguel.

Eu perguntei sobre ele. Pouco. O suficiente para parecer confiável.

— Tem família? — arrisquei.

— Tive. Não tenho mais.

— Por quê?

— Porque morreram.

O jeito seco, direto. Como quem arranca um band-aid de uma vez. Não era fingimento. A dor estava ali, no fundo daqueles olhos cansados, mesmo que ele tentasse esconder.

— Sinto muito — eu disse.

— Não precisa. Foi há muito tempo. Ou há pouco. Depende do dia.

Ele não explicou. Eu não insisti.

— E trabalho? O que você faz da vida?

Ele hesitou. A primeira hesitação real.

— Já fiz muitas coisas. Agora estou entre empregos.

— Entre empregos ou foragido?

Ele me olhou. Dessa vez, o quase sorriso veio completo – um canto da boca se erguendo, um traço de ironia.

— Um pouco dos dois.

Fechamos o acordo na calçada do café, depois que ele pagou a conta – insistiu, disse que era "parte do contrato não oficial".

Estávamos de frente um para o outro. O vento bagunçava o cabelo dele. O sol da tarde batia nas costas dele, criando uma silhueta que parecia mais sombra do que gente.

— Então está feito — eu disse, estendendo a mão. — Um ano. Quinhentos mil. Você finge que me ama, eu finjo que acredito. Nada de sexo, nada de envolvimento real, e você some no fim do contrato.

Ele apertou minha mão.

A mão dele era quente. Firme. Mas as pontas dos dedos eram calejadas – não de escritório, de luta. De arma? De sobrevivência?

— Combinado — disse ele.

Não soltou minha mão na hora. Me olhou mais um segundo, como se estivesse tomando uma decisão.

— Isadora — ele falou, mais baixo agora —, você não vai perguntar de onde eu vim?

A pergunta flutuou entre nós.

Olhei para ele. Para a jaqueta surrada. Para os olhos cansados. Para a mandíbula tensa. Para o jeito que ele posicionou o corpo de lado, como se estivesse sempre esperando um golpe vindo do ângulo morto.

— Você vai responder a verdade? — perguntei.

Ele sustentou meu olhar.

— Não.

— Então não pergunto.

Ele se despediu com um aceno seco. Virou as costas e começou a andar em direção ao ponto de ônibus.

Eu fiquei na calçada, observando.

Ele caminhava rápido. Determinado. Mas a cada poucos passos, a cabeça virava levemente para a esquerda, para a direita. Verificando. Sempre verificando.

Vi quando ele parou no ponto. Não pegou ônibus. Ficou ali, imóvel, por trinta segundos – contados por mim –, os olhos percorrendo o movimento da praça. Carros. Pessoas. Um vendedor de pipoca. Uma mãe com criança no colo.

Qualquer um veria uma cena comum de fim de tarde.

Ele via alguma outra coisa.

Depois, sem aviso, ele se moveu. Não para o ponto de ônibus. Para o outro lado. Atravessou a rua no meio do quarteirão, entrou num beco entre dois prédios, e sumiu.

Não foi embora.

Ele sumiu.

Como se tivesse ensaiado aquela fuga centenas de vezes.

Fiquei na calçada por mais um minuto, o coração batendo mais rápido do que deveria.

Vou casar com um estranho, pensei. Um estranho que sabe sumir no meio da multidão.

No fundo do beco por onde ele desapareceu, um vulto se moveu por um segundo.

Ou foi impressão.

Ou foi ele.

Olhando para trás.

Conferindo se alguém o seguia.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 231

    Epílogo — As Folhas do AmanhãMayaDizem que os lugares guardam a memória dos afetos que acolhem.A antiga propriedade dos Sterling nas colinas de Avelar, que um dia conheceu o silêncio pesado do abandono e as sombras de um passado rígido, hoje respirava uma vida inteiramente nova. O gramado extenso, cercado por carvalhos antigos e hortênsias em flor, estava banhado pela luz dourada de um fim de tarde perfeito. Um corredor de madeira de demolição, coberto por pétalas de jasmim e marcado por pequenos lampiões de vidro amarelado, guiava o caminho até o altar montado sob a copa da maior árvore do jardim.No ar, misturava-se o perfume da terra molhada pelo orvalho com a melodia suave de um quarteto de cordas que tocava ao fundo. Não havia a pompa fria dos grandes eventos da elite corporativa de outrora. Havia apenas verdade, acolhimento e a presença daqueles que caminharam conosco quando o mundo parecia desmoronar sob os nossos pés.Dentro do casarão, na suíte principal voltada para o val

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 230

    Capítulo 87 — A Geometria do TempoMayaO tempo não é uma linha reta, tampouco uma estrada pavimentada pela qual caminhamos em marcha compassada. O tempo é, antes de tudo, um tear silencioso. Ele trança perdas estraçalhadas, recomeços improváveis, dores que pareciam eternas e alegrias quietas em uma mesma e complexa tapeçaria. Olhando para trás hoje, compreendo que a vida não acontece apesar do sofrimento, mas exatamente através da forma como escolhemos atravessá-lo e nos reconstruir diante das ruínas.Há quem acredite que as grandes tragédias marcam o ponto final de uma história. Eu costumava pensar assim enquanto observava o teto frio do hospital e sentia o peso sufocante do luto. Hoje, porém, do topo de anos de reconstrução e aprendizado, sei que a dor não é o fim, mas o divisor de águas que molda quem realmente somos. As marcas do passado permanecem — a cicatriz pálida no meu abdômen e a saudade terna do pequeno milagre que não chegamos a segurar nos braços continuam gravadas na p

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 229

    Capítulo 86 — O Reencontro e o Abraço do Perdão (Parte 2)Maya— Lucas... — solucei alto, passando meus braços pelo pescoço dele com um desespero cego, colando o meu corpo frágil ao dele com toda a força e vida que me restavam.O impacto da minha aproximação fez Lucas paralisar por um segundo terrível. O corpo dele ficou totalmente rígido. Ele permaneceu imóvel, os braços erguidos no ar sem ousar me tocar, trêmulos, com medo de me machucar, assustado demais para acreditar que aquilo não era um delírio da sua mente exausta.— Maya...? — ele sussurrou contra o meu ouvido, a voz embargada em puro choque e dor.— Me segura... — implorei, afundando o meu rosto na curva do pescoço dele, sentindo o cheiro familiar de sândalo misturado ao suor, ao cansaço e ao antisséptico do hospital. Pressionei minha pele contra a dele. — Pelo amor de Deus, Lucas, me segura... Não me deixa cair... Me segura, meu amor...Com um som rasgado que veio do fundo do seu estômago — um misto de rugido de pura dor e

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 228

    Capítulo 85 — A Trajetória até Você (Parte 1)MayaA porta do quarto de hospital deslizou com um estalo suave, quase imperceptível.Aquele som, porém, pareceu ressoar no meu peito como o estrondo de uma comporta se abrindo. O corredor do setor de internação parecia infinito, uma galeria fria, impessoal e silenciosa, iluminada por lâmpadas fluorescentes que zumbiam baixinho no teto de gesso. A cada passo que eu dava, descalça sobre o piso gélido, sentia a textura fria do vinil contra a sola dos meus pés. Segurava a barra de metal do suporte de soro com toda a força que me restava para manter o corpo ereto. Meu abdômen protestava a cada movimento com fisgadas agudas e queimantes, lembrando-me da intervenção cirúrgica recente e do trauma que meu corpo sofrera. A dor física, contudo, era apenas um ruído distante e irrelevante comparada ao verdadeiro terremoto que rugia dentro do meu peito.Apertei a carta contra o peito. As folhas de papel do bloco de anotações do hospital, marcadas pelas

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 227

    Capítulo 84 — A Carta na PenumbraMayaNo quinto dia após o meu despertar, os médicos autorizaram a minha transferência para um leito de internação comum. Eu já conseguia me sentar com menos dor e os exames mostravam que a hemorragia fora completamente contida. O corpo físico cicatrizava; a alma, no entanto, continuava em ruínas.Aproveitando um momento em que minha mãe fora até a lanchonete e Isadora atendia a uma ligação no corredor, decidi levantar-me da cama pela primeira vez sem ajuda.A tontura inicial fez o quarto girar, mas apoiei-me na barra de metal do leito e dei passos lentos até a pequena poltrona de descanso no canto do quarto. Minhas roupas limpas e a bolsa que eu usava no dia do acidente haviam sido trazidas de casa por Isadora e repousavam sobre a mesa de apoio.Aproximando-me da mesa, estendi a mão para pegar a bolsa. Ao movimentá-la, um envelope de papel encorpado, levemente amassado e com manchas escuras de sangue seco na borda, escorregou de uma das divisórias e c

  • Comprei Um Marido Na Internet e Ele Era Um Foragido?   CAPÍTULO 226

    Capítulo 83 — O Deserto das HorasMayaO silêncio do quarto de hospital era o som mais ensurdecedor que já experimentei.Dias se passaram desde o meu despertar, mas o tempo deixara de ser uma linha contínua para se tornar uma espiral cinzenta de dor física e dormência emocional. A cada manhã, o sol cruzava a persiana e desenhava faixas de luz sobre a colcha branca, lembrando-me com crueldade de que o mundo lá fora continuava girando, alheio à devastação do meu universo particular.Minha mãe, Eunice, e Isadora passavam horas ao lado do meu leito. Elas seguravam minha mão, trocavam os curativos com carinho e sussurravam palavras de conforto. Eu as ouvia, mas não respondia. Apenas encarava a parede fria, mantendo a palma da mão pousada sobre a curva inexistente da minha barriga. O vazio do meu ventre era um abismo constante que sorvia toda a minha energia.Lucas não entrara mais naquele quarto.Eu sabia, no entanto, que ele continuava ali. Sempre que a porta se abria ligeiramente para a

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status