LOGINLOREDANOO silêncio da minha sala é interrompido apenas pelo som discreto do ponteiro do relógio na parede, passando um pouco das dez horas da manhã.Apenas cinco dias desde a apresentação do Zambi e o produto já é um sucesso nacional. Apoio as mãos sobre a mesa e inclino levemente o corpo para frente, observando a cidade através da imensa parede de vidro à minha frente.Caminho até a lateral da sala, onde um aparador exibe alguns dos primeiros protótipos do colírio. Quem olha hoje para o produto final não imagina o caminho tortuoso que percorri até chegar aqui. Quantas vezes isso falhou? Quantas vezes a fórmula não reagiu como esperado? Inclino-me para frente novamente e puxo um dos relatórios mais recentes. Vejo a repercussão pós-evento. Matérias especializadas. Comentários da comunidade científica. Reações do público. Leio rapidamente alguns trechos destacados.“Avanço revolucionário.”“Marco na oftalmologia estética.”“Tecnologia disruptiva.”Meu pai está em Nova York agora, ao
O corredor parecia mais estreito quando eu saí de perto da Marina. Foi então que vi a porta discreta, quase escondida no fim. Perfeita para se isolar. Então empurrei a porta devagar e entrei.O ambiente era pequeno, mas confortável. Um sofá de dois lugares encostado na parede, uma mesa de centro com algumas revistas organizadas e uma iluminação suave que contrastava completamente com a frieza do laboratório lá fora.Fechei a porta atrás de mim. — Que dia… — murmurei.Caminhei até o sofá e me joguei nele sem cerimônia. Levei as mãos ao rosto, pressionando os olhos com força. Eu precisava disso: alguns minutos sozinha. O cansaço, que até então era só emocional, começou a pesar no corpo também. Me ajeitei melhor no sofá, puxando o ar mais fundo, e, sem perceber, meus pensamentos começaram a ficar mais lentos. Mais distantes. Não sei quanto tempo passou. Mas eu despertei com um susto. Foi a porta abrindo.— Vina! — A voz de Daniel cortou o ar.Ele entrou como se soubesse exatamente onde
O carro desliza pela estrada com suavidade. O logo da DANPHARMA estampado na lateral reflete a luz da manhã enquanto subimos em direção a Petrópolis. A serra começa a aparecer aos poucos, as curvas ficando mais fechadas, o ar mais fresco… e, com isso, algo dentro de mim também muda. Fico olhando pela janela. As árvores. A neblina leve que insiste em se formar entre as montanhas.Era inevitável não lembrar de tudo o que vivi ali. Das emoções sentidas em um relacionamento de mentira, mas que mexeu com toda a minha estrutura e acabou mudando a minha vida. Não só a minha vida financeira, mas a minha vida interior, a minha pessoa, os meus sentimentos.— Você tá me ouvindo?A voz de Anna me puxa de volta.Viro o rosto.— Sim.Ela cruza os braços, desconfiada.— Eu acabei de falar uns cinco minutos sobre a Zambiancho e você nem me deu atenção.Desvio o olhar de volta para a janela.— Só estou observando a beleza da paisagemMenti descaradamente. Ultimamente eu estava me tornando boa em inven
O domingo finalmente chegou e eu fui à praia com Manu.— Você não vai entrar na água? — Manu pergunta, já em pé ao meu lado, ajustando o biquíni.— Não.O som do mar é constante, hipnótico. As ondas vêm e vão, quebrando com força na areia. O vento traz o cheiro de sal, de protetor solar, de calor. Manu coloca as mãos na cintura, me analisando.— Você veio à praia para quê então?Dou de ombros, olhando para o horizonte.— Para relaxar. Mas vai logo! Você estava louca para entrar na água.Ela pensa por um segundo e estreita os olhos, desconfiada. Então corre em direção ao mar, entrando na água sem hesitar, mergulhando logo depois, desaparecendo por alguns segundos antes de surgir mais à frente. Eu apenas observo sentada na cadeira, com os pés enterrados na areia quente e as mãos apoiadas nas laterais. E o olhar perdido, pensando em Loredano.Porque ele deu tanta importância ao que eu disse a ponto de colocar minha sugestão como nome do colírio?— Por quê? — falo baixo, quase sem perceb
— Oi, Vina Garcia.Fechei os olhos por um breve segundo antes de me virar. E lá estava Loredano. Mais perto do que deveria. Muito mais perto do que eu estava preparada para lidar.— Oi, Loredano Zambiancho — respondi.Eu imaginei tanto aquele momento. Mas ali, com ele me olhando daquele jeito, eu não soube o que dizer. Então ficamos por alguns segundos calados, encarando um ao outro. E foi ele quem quebrou o silêncio:— Como você está?— Estou bem — respondi rápido, mas por dentro, não tinha tanta certeza.— Está sem as lentes agora?— Sim. E graças a você e ao Zambi.Ele sorriu e me encarou de um jeito diferente.— O que foi? — Perguntei, um pouco insegura.— É que estou vendo pela primeira vez o castanho natural dos seus olhos.— Ser sua cobaia não foi tão ruim assim.Dei um pequeno gole no café e falei com sinceridade:— Parabéns, você conseguiu. O Zambi já é um sucesso.— Obrigada. Mas esse sucesso é nosso.Houve uma pausa breve. Lembranças da despedida vieram à minha mente, prin
Eu tremi dos pés à cabeça, quando ouvi aquela frase vindo de Marina.— Ele te pagou, não foi? Para fingir ser a noiva dele por um tempo?— Está louca? De onde você tirou isso? — perguntei com a voz cortada.— Não precisa ser muito esperta para ver as mudanças. Agora você tem apartamento próprio, tem carro...Realmente aquilo era bem óbvio.— Pagou a cirurgia cardíaca da sua tia...— Você está me vigiando?Ela me lançou um olhar dissimulado.— Claro que não. Eu tenho mais o que fazer. Só que as notícias correm.— Marina, para de me perseguir! Você tem tudo. O que quer de mim?— Quero que você se coloque no seu lugar. Acreditou mesmo que Loredano Zambiancho ia ficar com você? Ele apenas te usou.Senti um aperto no peito. Não estava conseguindo respirar direito.— Homens como ele não fazem nada por acaso.Meu estômago se contraiu. Cada palavra dela era como uma faca perfurando os rins. Respirei fundo, tentando conter a reação.— Você está enganada.— Estou?Ela soltou uma risada curta.







