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Capítulo-2

Author: Marinez Assis
last update publish date: 2026-09-25 07:30:06

O salão de festas do Hotel Imperial brilhava com as luzes refletindo no mármore impecável do saguão. Tudo estava em perfeita harmonia. Ao meu lado, Loredano caminhava com a naturalidade de alguém que parecia pertencer àquele ambiente. Eu por outro lado, sentia cada passo como se estivesse pisando em areia movediça.

— Está tudo bem? — Ele perguntou.

 — Claro.

Mentira. Nada estava bem. Segurei a taça de champanhe que um garçom acabara de me entregar e observei o ambiente. A classe médica inteira parecia ter sido convidada. Estavam todos ali para ouvir o grande projeto que o ilustre médico Carlos Santiago iria apresentar.

Engoli um gole do champanhe e vi Carlos perto do palco.  Marina estava ao seu lado. Os dois riam de alguma coisa, felizes, cúmplices, como se nunca tivessem me traído.

— Vou buscar algo melhor para beber — Loredano disse. — Não saia daqui.

Ele se afastou pelo salão. Resolvi caminhar um pouco e parei perto do telão que exibia uma frase tão hipócrita quanto aquele evento.

— O que você está fazendo aqui?

Me virei devagar. Carlos estava ali, a poucos passos de mim. Seu tom era seco e frio.

— Boa noite para você também — respondi.

— Não me lembro de ter enviado convite para você.

— Não enviou. Mas eu consegui convite.

Ele se aproximou um pouco mais.

— O que você quer, Vina?

Meu coração bateu forte, mas mantive o rosto neutro. Antes que ele pudesse dizer algo mais, uma voz tranquila surgiu ao meu lado.

— Boa noite.

Loredano colocou uma mão leve nas minhas costas e me puxou suavemente para perto dele.

— Espero não estar interrompendo.

Carlos olhou para ele com desconfiança.

— E você é…?

Loredano sorriu. Aquele sorriso elegante e educado que parecia esconder mil segredos.

— Um amigo. Com licença.

Ele me conduziu alguns passos para longe, afastando-nos de Carlos. Sua voz virou quase um sussurro:

— A arrogância dele logo vai acabar.

Antes que pudéssemos dizer mais alguma coisa, uma nova voz nos interrompeu.

— Boa noite.

Olhei para o lado. Marina estava parada diante de nós. Sorrindo.

— Que bom te ver, Vina! — Ela disse com o sorriso mais falso do mundo.

Inclinei levemente a cabeça.

— Marina.

Ela olhou para Loredano com curiosidade.

— E quem é o seu amigo?

Antes que eu respondesse, Loredano deu um passo à frente e estendeu a mão.

— Loredano. Muito prazer.

Marina apertou a mão dele, analisando-o com interesse.

— Prazer.

Seus olhos o examinaram da cabeça aos pés.

— Seu rosto é bastante familiar. Você é de alguma família conhecida?

Ele manteve o sorriso calmo e respondeu sarcasticamente.

— Depende do ponto de vista.

Marina piscou, confusa com a resposta.

— Se conhecem desde quando?

— Há algum tempo. — Loredano respondeu.

 — Nunca soube que Vina tivesse amigos... tão distintos.

Marina como sempre estava tentando me humilhar. Para ela eu era só uma pobretona sem capacidade de conhecer alguém interessante. Que vontade de enfiar a cereja da bebida no traseiro dela! Mas, pensando bem, talvez ela fosse gostar.

Loredano sempre bem-humorado respondeu:

— A vida é cheia de surpresas, não é mesmo? Isso mostra que nunca conhecemos totalmente as pessoas.

Não sabendo mais o que dizer, Marina se despediu.

— Com licença.

Ela se afastou caminhando elegantemente pelo salão. Naquele momento, a música diminuiu e as pessoas começaram a se sentar. Loredano e eu procuramos um lugar ao fundo e nos sentamos discretamente.

 Carlos subiu ao palco diante dos aplausos e pegou o microfone. Deu boa noite e fez uma rápida introdução sobre o assunto que seria abordado. Eu senti uma pontada no peito. Ele estava ali sendo aplaudido às minhas custas. E eu, a idiota perfeita, estava morrendo literalmente, por culpa dele.

De repente houve uma queda de energia. O salão inteiro mergulhou em uma escuridão profunda. O microfone de Carlos ficou mudo. Por alguns segundos houve apenas silêncio. Depois o salão começou a se encher de vozes.

No palco, Carlos tentava falar, mas um murmúrio começou a crescer. Pessoas pegavam os celulares para iluminar o espaço e pequenos feixes de luz começaram a surgir aqui e ali no salão.

Carlos desceu do palco. Funcionários da equipe dele vieram correndo e junto com o responsável da mesa técnica tentavam descobrir o motivo do apagão. Respirei devagar. Nenhuma vingança apagava a tristeza que se alojara no meu coração desde que descobri que Carlos não me amava.

O tempo passava. Os convidados estavam cada vez mais impacientes.  E depois de muitas tentativas, finalmente rendido, Carlos levantou as mãos.

— Senhoras e senhores… — disse, tentando manter a dignidade. — Infelizmente tivemos um problema técnico inesperado. A apresentação será reagendada.

Algumas pessoas já estavam perto da saída. Eu e Loredano nos levantamos devagar e caminhamos em direção à porta, mas nos perdemos um do outro no meio da multidão.

Eu caminhava no meio de toda aquela gente tentando encontrar a saída. De repente senti alguém segurar meu braço com muita força. Antes que eu pudesse reagir, fui puxada violentamente para o lado. Meu corpo bateu contra uma parede. Reconheci Carlos pelo clarão vermelho da luz de emergência e meu coração disparou descontroladamente.

— Foi você, não foi, sua vagabunda? — ele disse cerrando os dentes.

— Não sei do que você está falando — respondi tentando parecer natural.

A mão dele continuava apertando meu braço.

— Não se faça de idiota comigo! Esse evento foi planejado durante meses. E eu acabei de perder a maior oportunidade da minha vida.

Carlos me sacudia com uma fúria diabólica:

— Sabe qual é a chance de eu conseguir reunir essas pessoas novamente? — Ele gritou, a saliva voando no meu rosto.

 Meu corpo todo tremia de raiva e medo. Mesmo assim o enfrentei:

— Você ainda não perdeu tudo. Mas vai perder, quando eu te denunciar, Carlos.

Ele soltou uma risada.

— E quem vai acreditar numa morta de fome como você?

Senti meu estômago apertar enquanto ele continuava:

— Eu sou um médico. Tenho nome no mercado, tenho carreira e tenho reputação.

Ele se inclinou mais perto.

— É a sua palavra contra a minha.

— Você é uma mentira, Carlos. Não tem capacidade de conquistar nada sendo verdadeiro. — Joguei as palavras no rosto dele. Foi libertador.

Por um segundo houve silêncio. E então recebi um tapa forte no rosto que me fez cambalear para trás. Senti minha bochecha pegando fogo com o impacto e meus olhos se encheram de lágrimas.

Carlos me apertou contra a parede. E puxou meu cabelo para trás com uma violência tão grande que eu caí no chão ajoelhada, chorando.

— Me solta, seu filho da puta desgraçado! — gritei com os olhos ardendo pelas lágrimas.

— Devia me agradecer por ter feito parte da minha experiência, sua vadia — ele disse furioso. — Pelo menos você participou de alguma coisa fora da sua realidade de merda. Maldita favelada!

Senti algo se quebrar dentro de mim naquele momento. Não era só a dor física. Era o desprezo que ele sentia por mim e que eu nunca havia percebido.  Aquela era a verdadeira face do homem que um dia foi o meu príncipe encantado, a quem eu me entreguei e confiei cegamente.

Finalmente ele soltou meu cabelo empurrando a minha cabeça para trás. Eu caí sentada no chão, humilhada. Carlos deu um passo para o lado e disse em tom ameaçador:

— Isso não vai ficar assim. Eu vou acabar com você!

Em seguida ajeitou o paletó como se nada tivesse acontecido. Depois virou as costas e desapareceu na multidão. Fiquei sentada no chão, respirando devagar, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Depois me levantei e comecei a caminhar.

E finalmente cheguei ao hall do hotel, onde Loredano estava me esperando.  Seus olhos se fixaram no meu rosto. Por um segundo pensei que ele tivesse percebido. Joguei o cabelo para o lado do rosto dolorido, tentando disfarçar.

— Vamos sair daqui? — Sugeri.

— Vamos para a minha suíte. Posso te oferecer um entretenimento bem melhor do que esse.

E caminhamos em direção ao elevador.

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