LOGINA porta do apartamento se fechou atrás de nós com um clique suave. Era uma cobertura duplex elegante e luxuosa. Eu nunca havia pisado em um lugar como aquele. Parecia que eu estava dentro de um cenário de filme.
—Uau! — falei impressionada.
Loredano riu. Um riso divertido.
— O apartamento é seu? — perguntei
— Um amigo me emprestou.
— Você deve ganhar bem para circular nesse meio social. — Indaguei curiosa.
— O bastante — ele respondeu de forma objetiva.
Por alguns instantes fiquei pensando em como um stripper pode conhecer pessoas tão ricas. Mas, que importância tinha aquilo naquele momento? Nada dura para sempre, mesmo. Quando um médico olha nos seus olhos e diz que seu tempo pode ser mais curto do que deveria, certas regras simplesmente deixam de fazer sentido.
Voltei os olhos para ele e caminhei apreciando todo aquele luxo tentando parecer despreocupada. Mas sempre pensando nos últimos acontecimentos.
— Então… — falei. — Qual é o plano?
A verdade era que meu corpo estava carregando muita tensão: a traição, o diagnóstico e agora, o tapa na cara que recebi de Carlos. Tudo parecia contribuir para me desestruturar, me sufocar. Desde muito cedo a rejeição me acompanhou; desde a infância quando sentia que não era suficiente para ninguém. E então, olhei para Loredano e dei um pequeno sorriso, que não chegou ao coração.
Analisei aquele momento. Eu ali naquele apartamento, sozinha com um gostosão daquele, mesmo que aquilo tudo fosse uma mentira porque eu estava pagando. Ainda assim, era o sonho de muita mulher. Sorri mais uma vez para o meu stripper, tentando disfarçar as lágrimas que inundavam meus olhos.
Ele caminhou até um pequeno aparador, pegou uma garrafa de vinho e duas taças. Em seguida abriu a garrafa e serviu primeiro a minha taça, depois a dele. Peguei a taça e virei toda de uma vez. Ele a encheu de novo.
— Você está arrependida de ter vindo?
— Não sei.
Ele se sentou na poltrona à minha frente.
— Isso significa sim?
— Significa que eu não sei o que estou fazendo.
Loredano tomou um pequeno gole.
— Às vezes, não saber o que fazer é melhor do que continuar fazendo aquilo que nos machuca.
— Você fala como se soubesse muito sobre isso.
— Talvez eu saiba.
— Você também foi traído?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Já fui decepcionado.
— Não foi o que perguntei. Mas... como você conseguiu superar?
Loredano girou lentamente a taça entre os dedos.
— Não consegui de uma hora para outra.
— Quanto tempo levou?
— Mais do que eu gostaria de admitir.
Soltei uma risada amarga.
— É engraçado como as pessoas sempre dizem que o tempo cura tudo.
— Você não acredita nisso?
— Não hoje.
— E o seu noivo... você o pegou no flagra?
Apertei a taça entre os dedos. Senti meus olhos arderem e falei:
— É, foi isso... Só não diga que vai ficar tudo bem. Porque eu não sei se vai ficar.
— Talvez não fique por algum tempo. Eu diria que hoje você tem o direito de estar triste. Tem o direito de sentir raiva. Tem o direito de não entender como alguém que dizia amar você conseguiu fazer isso.
— E depois?
— Depois você vai decidir o que fazer com tudo isso.
Uma lágrima escapou. Passei rapidamente a mão pelo rosto.
— Eu odeio isso.
Loredano se levantou. Por um instante, pensei que fosse se aproximar, mas ele apenas pegou um guardanapo sobre a mesa e o colocou ao meu lado. Olhei para ele.
— Nós nos conhecemos há poucas horas. Não faz parte do pacote você ser gentil.
— Mas talvez você esteja precisando que alguém seja gentil com você hoje.
De repente a expressão dele mudou. Loredano caminhou até um sistema de som e falou:
— Agora, vamos nos divertir.
— O que você está fazendo? — perguntei.
Ele apertou um botão e uma música começou a tocar. A batida era lenta, profunda, quase hipnótica. Imediatamente estreitei os olhos.
— Você não vai fazer o que estou pensando.
Ele caminhou devagar para o centro da sala. E o sorriso dele ficou mais largo, quando abriu os braços numa cena teatral.
— Você entrou em um clube de striptease hoje à noite e contratou um stripper. Então, você tem direito a uma dança especial. Exclusiva.
E inclinou a cabeça, olhando direto para mim
— Você precisa relaxar.
Ele tinha toda razão. Eu precisava. Mas naquele momento eu só tinha vontade de chorar. Eu me sentia tão idiota! Tão ridícula! Como pude ser tão alienada? Eu era tão tola que acreditei mesmo que Marina fosse minha amiga. E contava para ela até as minhas intimidades com Carlos. Agora estava explicado as vezes em que ela me convidava para beber e sempre me apresentava a um cara bonitão. Tudo que ela queria era que eu traísse Carlos, para o caminho ficar livre para ela.
Acreditei em Carlos, quando na cama ele dizia que me amava. Acreditei quando ele me levava para jantares românticos e me dava flores. Era tudo mentira! Uma terrível mentira. E só hoje pela manhã ao receber o resultado do exame foi que a ficha caiu. Eu nunca fui nada para ele. Nada. Eu era só uma cobaia, recebendo drogas experimentais, para os testes do seu projeto.
Sempre me perguntei por que um médico oftalmologista renomado se interessou tão rapidamente por uma garota pobre como eu. Agora eu sabia a resposta. Suspirei e me joguei no sofá. Eu precisava mesmo me divertir.
— Me impressione — Falei para meu stripper.
Os olhos de Loredano brilharam com diversão.
— Com prazer.
A música deslizou pelo ambiente como uma corrente elétrica. Loredano começou a dançar. No início com sutileza. O corpo balançava suavemente, os ombros se moviam no ritmo da música.
— Ok — murmurei — isso já é melhor do que eu esperava.
Ele sorriu sem parar de se mover. Do lugar onde estava eu o observava atentamente. Os movimentos dele eram fluidos, seguros. Como se cada músculo do corpo soubesse exatamente o que fazer.
— Impressionante — murmurei.
— Mesmo? E qual é o veredito?
— Ainda em análise.
Ele riu e disse com um sorriso safado no rosto.
— Vamos melhorar o espetáculo.
Ele veio mais para perto. Então, puxou a camisa de dentro da calça e começou a desabotoá-la, em seguida a jogou para o lado.
Eu levantei uma sobrancelha e fixei os olhos na muralha de músculos peitorais que se descortinava bem à minha frente e conclui: pelo menos aquilo eu podia ter, já que eu estava pagando.
Procurei não pensar em Carlos, mas automaticamente eu já estava pensando nele. E Marina, aquela cadela, também me usou, me humilhou. Eu era a secretária dela, mas no dia seguinte ao ocorrido, quando eu os flagrei transando, ela me transferiu para o depósito e eu passei a trabalhar em pé o dia todo, num calor insuportável, embalando produtos em caixas. E quando viu que eu não desistia, ela mesma me demitiu.
Meu stripper continuava dançando e subiu na mesa de centro — ainda bem que a mesa era de madeira maciça. E com um movimento ágil ele disse:
— E o melhor vem agora...
E de repente se livrou da calça como num passe de mágica. Foi tão perfeito que não resisti e bati palmas. Só mesmo um stripper para tirar a roupa com tanta agilidade.
Ele se inclinou levemente, olhando para mim de cima da mesa. Estava apenas de cueca. Eu já tinha visto aquele corpo escultural dentro do banheiro do clube, mesmo assim aquele físico de Hércules causou em mim um arrepio estranho pelo corpo. Eu nunca vi um homem tão perfeito. Apesar de que Carlos foi o único homem que já tive na vida.
— Está se divertindo? — Loredano perguntou.
Cruzei as pernas lentamente, analisando o meu stripper
— Estou — falei com sinceridade.
Quando a música terminou, Loredano pulou da mesa com leveza e caminhou até mim, com passos leves, como se flutuasse. Eu o observei por alguns segundos.
— Foi um show memorável. — Falei.
— Então valeu a pena subir até aqui?
Olhei para ele e sorri espontaneamente pela primeira vez desde que entrei naquele apartamento.
De que planeta saiu aquele homem que fazia eu me sentir a mulher mais importante da galáxia? E justo naquele momento que eu estava tão sozinha, tão carente e tudo que eu queria era alguém que fizesse eu me sentir especial.
— Você é assim com todas as suas clientes? — perguntei curiosa.
Ele apenas riu. Em seguida me levantou do sofá agarrando-me pela cintura.
— O que quer fazer agora? — ele perguntou com os olhos escuros faiscando.
— O que você quiser fazer comigo eu topo — respondi decidida.
E então, senti o vestido caindo aos meus pés enquanto a boca dele me atacava em um beijo quente e ardente com gosto de vinho e de desejo.
Depois que sai do quarto da nonna, Loredano me acompanhou até o quarto de hóspedes. Quando paramos na porta o telefone dele tocou.— Eu preciso atender — ele falou seguindo pelo corredor.Minutos depois voltou e disse:— Esqueci completamente que eu tinha um jantar de negócios.— Pode ir. Ela está bem cuidada pelas enfermeiras. E eu estou aqui. Qualquer coisa eu ligo.Loredano saiu. Eu entrei no quarto e fechei a porta. Eu estava tão triste pela nonna e ao mesmo tempo tão perplexa com a conversa dela sobre casamento, que a minha mente estava girando como um redemoinho, impedindo os pensamentos de se conectarem.Me joguei na cama e fiquei olhando para o teto lembrando que tempos atrás a nonna estava feliz no seu aniversário. Estava forte, autoritária, feliz. E agora havia apenas um corpo moribundo em cima daquela cama.Não me lembro quando adormeci. Mas acordei durante a noite com sede e desci para beber água. Quando caminhava na direção da cozinha ouvi um murmúrio abafado no corred
Duas enfermeiras estavam sentadas próximas à cama. Assim que Loredano entrou, elas se levantaram imediatamente, assumindo uma postura respeitosa. Dei alguns passos me aproximando do leito e foi então que vi a nonna deitada na cama.Meu Deus! O que estava acontecendo? A nonna estava com os olhos fechados, a pele pálida demais. Um aparelho de oxigênio cobria parte do rosto, ajudando-a a respirar. O som que eu ouvia vinha dali. Do monitor ao lado da cama, marcando cada batida, cada sinal de vida. Aquilo era um hospital dentro de casa.Dei mais um passo, totalmente fora do meu controle. Olhei para Loredano e perguntei:— O que… — minha voz falhou — …está acontecendo com ela? O que ela tem?Naquele momento ele estava parado ao lado da cama, olhando para a avó. E o que vi no rosto dele, nunca tinha visto antes. Não era o homem firme, seguro e inabalável de sempre. Era alguém… quebrado. Totalmente quebrado.Aproximei-me mais um pouco, sentindo o coração bater na garganta. Minha voz saiu tr
A chuva parecia ter sido enviada para me castigar. Forte, constante, impiedosa. Cada gota caía como se quisesse me empurrar ainda mais para baixo, como se o céu tivesse decidido que eu precisava sentir tudo — o frio, o cansaço, a solidão.Segurei firme a alça da mala e continuei andando. As rodinhas já não giravam direito, travando nas irregularidades da calçada encharcada. Em alguns momentos, eu praticamente arrastava o peso morto atrás de mim, sentindo os braços doerem, os dedos escorregarem. Mas eu não parei. Não podia parar. Eu estava em uma cidade estranha. Sozinha, sem hotel, sem um plano B.Depois que pedi demissão, Daniel não perdeu tempo. Cancelou minha estadia no hotel como se eu fosse descartável. Respirei fundo, tentando ignorar o aperto no peito. A água escorria pelo meu rosto, misturando-se com lágrimas de decepção, de frustração. Eu precisava ir embora. Sumir daquele lugar.O som de um carro se aproximando quebrou o ritmo da chuva. Não dei atenção no começo. Achei que f
LOREDANOO silêncio da minha sala é interrompido apenas pelo som discreto do ponteiro do relógio na parede, passando um pouco das dez horas da manhã.Apenas cinco dias desde a apresentação do Zambi e o produto já é um sucesso nacional. Apoio as mãos sobre a mesa e inclino levemente o corpo para frente, observando a cidade através da imensa parede de vidro à minha frente.Caminho até a lateral da sala, onde um aparador exibe alguns dos primeiros protótipos do colírio. Quem olha hoje para o produto final não imagina o caminho tortuoso que percorri até chegar aqui. Quantas vezes isso falhou? Quantas vezes a fórmula não reagiu como esperado? Inclino-me para frente novamente e puxo um dos relatórios mais recentes. Vejo a repercussão pós-evento. Matérias especializadas. Comentários da comunidade científica. Reações do público. Leio rapidamente alguns trechos destacados.“Avanço revolucionário.”“Marco na oftalmologia estética.”“Tecnologia disruptiva.”Meu pai está em Nova York agora, ao
O corredor parecia mais estreito quando eu saí de perto da Marina. Foi então que vi a porta discreta, quase escondida no fim. Perfeita para se isolar. Então empurrei a porta devagar e entrei.O ambiente era pequeno, mas confortável. Um sofá de dois lugares encostado na parede, uma mesa de centro com algumas revistas organizadas e uma iluminação suave que contrastava completamente com a frieza do laboratório lá fora.Fechei a porta atrás de mim. — Que dia… — murmurei.Caminhei até o sofá e me joguei nele sem cerimônia. Levei as mãos ao rosto, pressionando os olhos com força. Eu precisava disso: alguns minutos sozinha. O cansaço, que até então era só emocional, começou a pesar no corpo também. Me ajeitei melhor no sofá, puxando o ar mais fundo, e, sem perceber, meus pensamentos começaram a ficar mais lentos. Mais distantes. Não sei quanto tempo passou. Mas eu despertei com um susto. Foi a porta abrindo.— Vina! — A voz de Daniel cortou o ar.Ele entrou como se soubesse exatamente onde
O carro desliza pela estrada com suavidade. O logo da DANPHARMA estampado na lateral reflete a luz da manhã enquanto subimos em direção a Petrópolis. A serra começa a aparecer aos poucos, as curvas ficando mais fechadas, o ar mais fresco… e, com isso, algo dentro de mim também muda. Fico olhando pela janela. As árvores. A neblina leve que insiste em se formar entre as montanhas.Era inevitável não lembrar de tudo o que vivi ali. Das emoções sentidas em um relacionamento de mentira, mas que mexeu com toda a minha estrutura e acabou mudando a minha vida. Não só a minha vida financeira, mas a minha vida interior, a minha pessoa, os meus sentimentos.— Você tá me ouvindo?A voz de Anna me puxa de volta.Viro o rosto.— Sim.Ela cruza os braços, desconfiada.— Eu acabei de falar uns cinco minutos sobre a Zambiancho e você nem me deu atenção.Desvio o olhar de volta para a janela.— Só estou observando a beleza da paisagemMenti descaradamente. Ultimamente eu estava me tornando boa em inven







