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Capítulo-5

last update Fecha de publicación: 2026-09-25 07:34:49

Acordei com o celular vibrando em cima do criado-mudo. A tela acendeu. Era uma mensagem da minha prima Manu.

“Vina, onde você está? Mamãe passou mal. Ontem à noite tivemos que levá-la às pressas para a emergência.”

Me sentei na cama num salto e olhei imediatamente para o lado. Loredano ainda dormia profundamente, de bruços.

Levantei devagar, catei minhas roupas espalhadas pelo chão, me vesti e saí. Sentada no banco de trás do carro de aplicativo eu mandava mensagens para Manu em busca de notícias. Quando o carro parou na frente da casa, desci correndo e entrei como um furacão.

Encontrei as duas sentadas à mesa da cozinha. Tia Madalena com uma xícara de café na mão. Manu comendo pão.

— Tia! — Corri até ela e a abracei forte.

— Calma, menina — ela riu — você vai me quebrar.

Afastei um pouco para olhar o rosto dela.

— A senhora está bem mesmo?

— Estou ótima.

— Manu disse que a senhora foi parar na emergência!

— Foi só um susto.

Manu entrou na conversa.

— Vina, você precisava ver. Ela passou a manhã toda na feira, comprando coisas, carregando peso, recebendo o sol quente na cabeça.

— Manuela! — Tia Madalena a repreendeu.

Olhei novamente para minha tia.

— Tia, a senhora tem problema cardíaco. Não pode brincar com isso.

— Eu sei, minha filha. Mas agora está tudo bem.

Sentei à mesa. Manu empurrou uma xícara na minha direção. Depois de alguns minutos de café e conversa, tia Madalena se levantou.

— Está quase na hora do culto. Francisco já está nos esperando na igreja.

Eu ainda estava com a roupa da noite anterior. Tomei um banho às pressas e vesti um vestido tubinho para ir à igreja. Saímos as três caminhando pela rua. A igreja ficava a poucos minutos da casa. Manu caminhava ao meu lado.

— Então… — ela disse com um sorriso curioso — fez o barraco no evento?

— Não saiu como planejei, mas deu tudo certo. Depois te conto.

— Conta agora.

— Não posso. É uma história longa.

Chegamos. O culto estava prestes a começar. Meu tio Francisco era pastor naquela igreja e quando nos viu, acenou com a cabeça, sempre sério demais. Tia Madalena sentou-se ao púlpito, perto do marido. Manu caminhou até o primeiro banco, onde já estavam meus dois primos, o Fernando e o Alessandro.

Me sentei no último banco, próximo à porta de saída. Eu era a única da casa que não seguia a religião dos meus tios e nem sabia orar, mas naquele momento, pedi a Deus que fizesse um milagre em mim. E pedi perdão por ter pensado em tirar a minha própria vida num momento de desespero. Porque na verdade eu queria viver. Eu queria muito viver.

Foi nesse momento que senti uma presença. Alguém acabara de se sentar ao meu lado. Virei o rosto e levei um susto quando vi Loredano. Ele estava elegante como na noite anterior, camisa clara, cabelo bem penteado, e aquele olhar tranquilo que parecia não se abalar com absolutamente nada. Ele sorriu de leve.

— Bom dia.

— O que você está fazendo aqui? — Perguntei irritada.

Ele inclinou a cabeça.

— Também é bom te ver.

Olhei para frente imediatamente, tentando manter a voz baixa.

— Isso é uma igreja! — Sussurrei.

— Eu percebi — ele respondeu, olhando ao redor com calma.

— Eu estou falando sério.

— Eu também.

— O que quer?

— Você saiu com tanta pressa… — ele disse tranquilamente — sem se despedir.

Virei o rosto para ele novamente, irritada.

— Então você me seguiu?

— Eu prefiro dizer que vim conversar.

Algumas pessoas nos olharam. Diminuí o tom da voz.

— Olha… você não tem o direito de me perseguir. Isso é crime, sabia?

Ele cruzou os braços, completamente relaxado.

— Interessante que considere crime eu vir falar com você depois da noite que tivemos.

Meu rosto ficou quente.

— Fala baixo!

Ele deu um pequeno sorriso.

— Você sempre fica nervosa assim depois de uma noite tão excitante?

— Quer me deixar em paz, por favor?

E então ele falou algo que me desconcertou:

— Acontece que você não me pagou.

Fiquei imóvel. Então, meus olhos se arregalaram.

— Meu Deus! É verdade.

Peguei o celular rapidamente.

— Me passa o número da sua conta.

— Vamos assistir ao culto primeiro. Depois a gente resolve — Loredano falou com calma.

Olhei para ele com irritação.

— Me dá o número da conta, por favor!

— Você deveria estar mais calma. Está ouvindo a palavra de Deus.— Ele disse cinicamente.

— Jesus, onde fui me meter! Acho que você é um psicopata.

Ele riu.

— Olha… — falei entre dentes — o que aconteceu foi uma coisa entre adultos.

— Concordo.

— E acabou. Entendeu? — Falei irada.

Ele apenas sorria.

— Você vai me passar o número da conta ou não?

Loredano se recostou no banco.

— Depois.

— Depois quando?

— Depois do culto, já falei.

Ele se inclinou um pouco mais perto. Tão perto que pude sentir o seu perfume.

— Engraçado.

— O que é engraçado? — perguntei com raiva.

— Porque ontem à noite você não parecia querer que eu desaparecesse.

— Você não vai me deixar em paz, vai?

Ele sorriu, com aquele jeito incrivelmente sedutor e não respondeu. Ficamos em silêncio ouvindo o sermão do meu tio. Quando o culto terminou, eu e Loredano saímos primeiro e fomos até a calçada em frente à igreja onde ficamos aguardando. Logo vi minha família perto do portão. Tio Francisco conversava com dois membros da igreja e tia Madalena caminhava justamente na nossa direção.

— Que bom, Vina! Você trouxe um amigo para assistir ao culto

— Não, tia, na verdade...

Mas antes que eu terminasse, Loredano deu um passo à frente com aquela elegância irritantemente natural.

— Sou Loredano Zambiancho, muito prazer.

—  Sou Madalena, tia de Vina. O prazer é meu em receber uma pessoa tão agradável na nossa igreja.

Olhei para ele com os olhos semicerrados, enquanto tia Madalena falava:

— Esses são meus filhos.

Manu apareceu primeiro, com aquele sorriso curioso. Depois veio Fernando.  E por último Alessandro se aproximou. Ele olhou para Loredano por alguns segundos…

— Você é Loredano Zambiancho… da Indústria Farmacêutica Zambiancho?

Eu pisquei.

— Hã?

Loredano respondeu com naturalidade.

— Sou.

Alessandro deu um pequeno sorriso de surpresa.

— Então eu não estava enganado.

Loredano inclinou a cabeça e perguntou:

— Conhece nosso trabalho?

Alessandro riu.

— Quem não conhece o Laboratório de Pesquisa Zambiancho?

Eu franzi a testa.

— O quê?

Alessandro continuou:

— Fiz um trabalho na faculdade o semestre passado sobre a sua empresa e as pesquisas desenvolvidas no campo da oftalmologia.

Fiquei parada. Completamente aturdida. Que conversa é essa? Olhei para Loredano. Depois para Alessandro. Depois para Loredano de novo. E minha cabeça começou a girar. Indústria farmacêutica? Laboratório? Meu cérebro tentou juntar aquilo com a imagem do homem que eu tinha contratado como stripper. Não fazia sentido. Nenhum. Tia Madalena sorriu.

— Que coisa boa! Um empresário tão importante visitando nossa comunidade.

— É um prazer — respondeu Loredano educadamente.

Eu abri a boca.

— Espera!

Mas ninguém me ouviu. Tia Madalena logo apresentou Loredano para o meu tio que vinha se aproximando. Já Manu, estava claramente se divertindo. Depois de alguns minutos de conversa, a família começou a caminhar pela calçada. Eles seguiram na frente. Eu e Loredano andávamos alguns metros atrás.

— Que conversa foi aquela com o meu primo?

Ele olhou para mim, tranquilo.

— Qual delas?

— Aquela sobre laboratório, indústria farmacêutica...

— O que tem?

Parei de andar.

— Você quer me dizer que aquilo é verdade?

Ele me observou com um sorriso leve.

— Por que? Você não acreditou?

— Porque… porque você é um stripper contratado!

Ele riu.

— Eu nunca disse isso.

— Disse sim!

— Quando?

— Ontem!

— Não disse. Só alimentei a sua fantasia. — Loredano falou.

Ele caminhou até o carro estacionado a alguns metros à frente. Olhei e fiquei sem palavras. O carro era… absurdo, elegante, caro, chamativo. Era um sedã de luxo.  Algumas pessoas que passavam na rua diminuíam o passo para olhar aquela maravilha. Quando chegamos perto do carro. Ele abriu a porta.

— Então você não é...

— Não.

— E deixou eu acreditar...

— Eu quis te ajudar. E deu certo, não deu?

— Você me enganou!

— E você me usou para estragar os planos do seu ex- noivo.

Fiquei completamente atônita. Eu tinha acabado de descobrir que o homem que contratei como stripper era na verdade um bilionário da Indústria Farmacêutica. Nossa! Eu estava tão envergonhada.

— Precisamos conversar — Loredano falou.

— Conversar sobre o quê?

— Quero te fazer uma proposta.

— Proposta? — perguntei desconfiada.

— Venha, vou te levar para almoçar.

Eu quase disse não, mas já estava embolada o suficiente naquela situação e precisava saber qual era a proposta. Então entrei no carro.

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