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Capítulo- 6

Author: Marinez Assis
last update publish date: 2026-09-25 07:35:46

Meia hora depois de sair da igreja, eu estava sentada em frente a Loredano em um restaurante que definitivamente não pertencia ao meu mundo.

O lugar era… deslumbrante. Lustres enormes pendiam do teto como se fossem feitos de estrelas. As mesas eram cobertas por toalhas impecavelmente brancas. Garçons circulavam em silêncio, elegantes, como se estivessem coreografados.

— Algum problema? — Loredano perguntou com um leve sorriso.

— Só estou tentando entender como eu aceitei vir almoçar com você. Na verdade, eu nem sei onde estou com a cabeça… depois de tanta mentira.

Ele cruzou os braços sobre a mesa. E perguntou:

— Mentira de quem?

— Sua!

— Minha?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Que eu saiba… quem contratou um stripper para desmanchar a festa do ex-noivo foi você.

Me senti tão leviana! Empurrei a cadeira para trás e me levantei.

— Eu não devia ter vindo.

— Vina — ele disse calmamente.

Peguei minha bolsa e fui andando.

 Então ele falou um pouco mais alto:

— Ouça a minha proposta primeiro e se não gostar prometo que vou sumir da sua vida para sempre.

Voltei e me sentei novamente. Cruzei os braços. Ele sorriu de leve. O garçom se aproximou naquele momento com os pratos. Colocou a comida diante de nós e saiu. O cheiro era incrível! Mas eu estava incomodada demais para apreciar. Sentia uma pressão muito forte na cabeça.

— Você sempre é assim? — Loredano perguntou.

— Assim como?

— Dramática.

— Eu não sou dramática! —Respondi com acidez.

Ele levantou as duas mãos, num gesto conciliador.  Olhei para ele e perguntei:

— Se você não é stripper, como foi parar naquele lugar?

Ele deu uma pequena risada.

— Para de rir e me explica.

Ele recostou na cadeira.

— Você entrou no banheiro, me viu sem roupa… e tirou suas próprias conclusões.

— Porque você estava em um clube de striptease!

Ele continuou rindo.

— Então o que estava mesmo fazendo lá?

Ele respondeu com naturalidade:

— Um dos meus seguranças, o Domênico, é stripper nos finais de semana.

Fiquei ouvindo.

— Eu entrei ali porque precisava falar com ele. Sobre a próxima viagem.

Balancei a cabeça, tentando acompanhar.

— Aí uma garçonete desajeitada esbarrou em mim… E eu tomei um banho de um coquetel açucarado. Fui para o banheiro lavar a camisa. Mas eu estava todo pegajoso. Então decidir tomar banho. Foi quando você entrou.

Olhei para o prato. Fiquei em silêncio. Minha mente começou a reorganizar tudo. E… de repente… fazia sentido. Loredano observava meu rosto.

— Está tudo bem?

Respirei devagar. A pressão na cabeça aumentou.

— Não. Nada está bem.

Ele ficou atento.

— Por quê?

Olhei ao redor do restaurante.

— Eu não sei. Só não estou me sentindo confortável.

Loredano me encarou por alguns segundos. Então disse calmamente:

— Vina… vamos falar agora da proposta que eu tenho para você.

Franzi a testa.

— Que proposta é essa?

— Uma oportunidade.

Ele apoiou os cotovelos na mesa.

— Lembra lá no banheiro do clube quando eu disse que podia te ajudar?

— Você já me ajudou, quando provocou a queda de energia no evento do Carlos.

Ele riu.

— Aquilo foi improviso. Eu posso fazer mais por você. Muito mais.

Meu coração começou a bater mais rápido.

— O que por exemplo? E por quê?

Ele ficou em silêncio por um segundo. Depois perguntou, olhando direto nos meus olhos:

— Então… quer ouvir a minha proposta?

Eu ainda estava olhando para ele, tentando entender se aquela conversa era real ou se eu tinha entrado em algum tipo de sonho estranho. Um dia antes eu tinha conhecido Loredano num clube de striptease achando que ele era um dançarino contratado. Agora eu estava sentada com ele em um restaurante luxuoso, e ele falava como se estivesse prestes a mudar a minha vida.

Ele levou a mão ao bolso interno do paletó e tirou uma pequena embalagem de colírio. Colocou a caixinha sobre a mesa, empurrando-a na minha direção.

— Leia a parte de trás — pediu.

Peguei a caixinha, virei a embalagem. Comecei a ler as letras alaranjadas: “Fabricado por Zambiancho Farmacêutica”.

Até que meus olhos pararam em uma linha no canto inferior onde estava escrito: ”pesquisa desenvolvida pelo Dr. Loredano Zambiancho.”

Pisquei. Li de novo. Então levantei os olhos para ele.

— Espera…  é você?

Ele assentiu.

— Sou eu.

Meu cérebro levou alguns segundos para processar.

— Você… é o cientista responsável por esse produto?

— Por esse e por mais algumas centenas.

Coloquei a embalagem de volta na mesa.

— Na noite passada, eu achava que você fosse um stripper, há poucas horas descubro que você é empresário e agora também é cientista?

— Também sou.

Balancei a cabeça, ainda confusa.

— Tem mais algum segredo para me contar?

— Tudo ao seu tempo, Vina.

Ele apoiou os braços sobre a mesa. Em seguida apontou discretamente para os meus olhos.

— A heterocromia que você tem nos olhos é a minha especialidade de estudo. Confesso que me senti um grande sortudo quando lá no banheiro do clube vi as cores dos seus olhos: um olho âmbar, o outro azul violeta.

— E...

— Sei que você adquiriu heterocromia depois de usar produtos nos olhos que não foram passados pelos testes de qualidade. Se você aceitar, posso investigar se a heterocromia tem a ver com o tumor na sua cabeça. De qualquer forma você não tem nada a perder.

— E você, o que ganha com isso?

— Conhecimento, Vina. Eu sou um cientista.

— Vamos ver se entendi. Eu já fui a cobaia de Carlos, agora vou ser a sua. Só que dessa vez por livre e espontânea vontade — falei com sarcasmo.

Ele abriu uma pasta que estava ao lado da cadeira. Dentro havia relatórios, gráficos e documentos.

— Não, Vina, você não entendeu. — Loredano falou com calma.

— Então me explica.

— Estou te propondo uma parceria.

Inclinei a cabeça.

— Parceria?

— Sim.

— Eu e você?

— Exatamente.

Ele puxou um documento de dentro da pasta.

— Isso é um contrato de pesquisa.

Meu coração acelerou.

— Renovável se houver necessidade.

Peguei o documento com cuidado.

— O que eu teria que fazer?

— Os exames necessários e testes específicos para descobrirmos a relação da heterocromia com o tumor.

— Só isso?

— Pode ser rápido, ou pode durar muito, vai depender do que os testes forem revelando.

Ele virou outra página da pasta. Apontou o valor que eu receberia pela parceria. Meu coração quase parou.

Perguntei com a voz embargada:

— Isso… isso é o valor do contrato?

— Sim.

— É dinheiro demais.

— É justo.

Olhei novamente para o valor. Havia tantos zeros que eu precisei contar várias vezes. Meu Deus do céu... só a metade daquele valor já resolveria minha vida financeira para sempre.

— Você está mesmo me oferecendo tudo isso?

— Sim.

— Pelo tempo que durarem os testes? — perguntei, ainda confusa.

— Se passar de um ano, a gente renova o contrato. Você recebe metade agora. E metade quando o contrato terminar.

Fiquei olhando para o papel. Minha mente começou a correr. Senti a esperança voltar ao meu coração. Eu tinha uma chance de não morrer aos 24 anos e ainda ajudar minha tia com o dinheiro. E viver sem medo do futuro.

E então outro pensamento surgiu.

Com aquele dinheiro eu não permitiria mais que Carlos e Marina me humilhassem. Carlos ia aprender a me respeitar, a me tratar com dignidade. E aí sim, seria a minha vez de humilhá-lo. Já conseguia até vê-lo se arrastando no chão atrás de mim e eu chutando a cara dele. Eu me vingaria.

Fechei a pasta devagar e falei:

— Eu aceito.

— Mas ainda há uma outra coisa sobre o contrato: vou ter que apresentar você para a minha família como a minha noiva.

— Noiva? — Quase engasguei.

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