LOGINPlano ou sonho irrealizável; ideia generosa, porém impossível; fantasia, quimera - Dicionário Michaelis
Magda ajeita a saia do vestido. O roteiro diz que a conversa de Rasha com Alan durará cerca de quatro minutos e vão anunciar o intervalo. Rasha terá um tempo para resmungar como seus pés doem - não ela não vai resmungar, pelo menos, não na frente das pessoas; mas todo mundo diz que a pausa de três minutos é para isto; - em seguida, vem a volta do comercial, seguindo para o momento em que a primeira prova de eliminação do reality será anunciada.
As meninas vão ser chamadas e precisam dizer poucas coisas sobre elas, então iriam para a segunda parte, a qual Magda não escutou, afinal, ela seria eliminada na primeira prova mesmo, certo?
“Certo,” ela afirma para si mesma. Está pensando mais no dinheiro do que no programa em si ou na ideia de arrumar um relacionamento depois de alguns míseros encontros programados.
Claro que Rasha Muniz não tinha deixado tudo claro para Magda ou qualquer uma das participantes. Como boa apresentadora e produtora de programas de TV, a mulher não havia dito que Alan faria perguntas para as participantes. Seriam dez perguntas diferentes e ele pegaria uma para cada uma delas, fazendo de forma aleatória.
“Ele vai o que?” Magda soube na última hora que ela teria que responder uma pergunta. E, bom, tudo bem que seus planos não envolviam passar para outras etapas do programa, mas ser pega desprevenida tão subitamente e ainda ter que ver aqueles malditos dedinhos de contagem regressiva se movimentando...
Pah!
Luzes, aplausos e pânico. O coração batendo ansioso com o tamanho do palco que ela até já conhecia, mas agora parecia vinte vezes maior com a plateia aplaudindo animada.
É gravado, calma!
Tudo é gravado. Pelo menos até o dia da decisão, que seria ao vivo. Então, bom Magda não tinha que se preocupar, certo? Afinal, se fizer alguma merda, vão cortar na edição ou transformar aquilo em alguma piada, não é?
Isto não serviu para acalmar a ruiva. Seu coração seguiu esmurrando o peito, arrancando o ar dos pulmões. Rasha a esperou com um sorriso genuíno, parecia até desejar boa sorte, o que não fazia nenhum sentido porque, bom, todo mundo sabia que Magda seria eliminada nesta prova, assim como todo mundo sabia que outra menina seria eliminada na próxima prova e outra na outra e assim sucessivamente...
Magda sorriu de forma estranha, a cabeça lembrando o tempo todo do valor que foi depositado em sua conta para que ela participasse dessa presepada. Bom, apesar de ainda ansiosa, a quantidade de zeros disponíveis na conta bancária transformou o sorriso estranho em algo tranquilo e até bonito.
“Alan,” Rasha começa dizendo. Magda não se lembra, direito, do rosto dele e de onde está, não consegue vê-lo, assim como ele não a vê. “Uma pergunta sincera. Você gosta de ruivas?”
Um som estranho escapa da plateia, cada um parecia ter feito um som diferente e isto criou um ruído meio engraçado.
“Nunca saí com uma,” a voz dele vem até os ouvidos da participante falsa e ela não tem nenhuma reação acerca disto. “Quer dizer, estamos falando de ruivas naturais?”
“Sim, completamente ruiva.” Rasha responde. “Com direito a sardinhas por todo o rosto…”
Magda mantém seu sorriso genuíno e, apesar de estar escutando a coisa mais idiota do mundo - afinal há um fetiche maluco por ruivas – ela ainda está apaixonada pela sequência de zeros após o número dez que adorna sua conta.
“Bom…” Há um segundo de silêncio por parte do príncipe, “seria uma pena ela estar com maquiagem, não?”
Os zeros perderam a beleza e até mesmo a atenção da ruiva. Aquela resposta veio de forma tão estranha para a participante, que Alan se tornou seu foco.
Durante toda a vida, suas sardas foram motivo de piada. Ela cresceu sabendo que seus cabelos eram cheios demais, armados demais, secos demais. As sardas foram escondidas sob camadas de maquiagens, que ela odiava, desde os doze anos, quando sua mãe lhe presenteou com bases, pós e blushes em seu aniversário.
“Tem que esconder isso, meu amor. Parece enferrujada.” Dizia a matriarca.
Mas Alan não. Ele queria que ela não escondesse as sardas? Qual o sentido disso? Ele não achava sardas a coisa mais estranha, como se a pele estivesse suja?
Se a ruiva não estivesse tão chocada, teria percebido que seu sorriso sumiu e que seus olhos estavam focados na parede que impedia de ver o príncipe, mas não sua silhueta.
Rasha começou a fazer um leque de perguntas para Magda. Idade, profissão e uma curiosidade. “Eu odeio correr,” A participante responde, lembrando, subitamente, que Alan adora sair para correr.
Nada melhor do que dar um bom motivo para ela ser eliminada, certo?
“Bom Alan, eu espero que sua pergunta para ela não seja ‘qual sua atividade física favorita’” Rasha brinca.
Alan ri, uma risada gostosa e breve, “não, não é.”
“Então, qual a pergunta?”
Ele abre o envelope que está com a pergunta surpresa. Lê, sorri para Rasha e diz:
“A pergunta é... qual a sua utopia?”
Magda ofega e ela tem sorte de que a câmera foi para Rasha, que se mostrou surpresa com a pergunta - mesmo que ela fosse a criadora daquela em especial e que, talvez ela tenha deixado aquela pergunta essencialmente para a garota de número oito.
A ruiva se recupera do choque que foi a pergunta e sorri no exato momento em que a câmera lhe captura o rosto. Há um toque de saudade, uma descrença suave se mistura com esperança e seu sorriso, todo o seu rosto, cuja as sardas foram banhadas com base matte, deixam claro que ela realmente está pensando numa utopia.
“Amor tranquilo,” responde sem medo de como isto irá afetá-lo porque ele não lhe é um objetivo.
Alan não é seu objetivo, não é sua utopia, sua meta. Ela só está ali trabalhando.
Sua utopia é...
Bom, encontrar alguém que sinceramente fique. Não a coloque em risco, que saia com ela em aventuras para descobrir novos lugares. Mas que ela também possa fazer parte da vida dele.
“Você não acredita que o amor pode ser tranquilo?” A voz dele chega até ela. Há uma parede branca removível que não permite que eles se vejam, mas ela precisa olhar para a direção dele e então ter certeza de que a pergunta continuou. De que Rasha deixou ele fazer duas perguntas.
“Isto não é contra as regras?” Magda pergunta de forma baixa, mas o microfone capta tudo e a plateia geme descrente.
Rasha não deixa o programa desandar e ri, “Oras, só se pode fazer uma pergunta, meu caro príncipe,” O riso da apresentadora puxa o riso da plateia.
Só que Alan sabe como conquistar Rasha e ele abre um de seus sorriso-de-bom-menino para ela, “não ficou curiosa com esta resposta?” Ele seduz.
Rasha cai, ou se deixa cair, na armadilha, “confesso que sim. Então, Magda, você não acredita que o amor pode ser tranquilo?”
O príncipe, ou seja, Alan, fica esperando pela resposta com certa ansiedade. Ele não se lembra daquela voz em específico, além disto, ela dizer que não gosta de fazer exercícios quando ele deixou claro que adora sair para correr.
Bom, a ruiva, naturalmente ruiva – como reforçado por Rasha – é a infiltrada, a garota que o acaso trouxe para aquele momento, aquele programa, aquela situação. E, com uma simples resposta, deixou Alan atraído. Quase uma necessidade louca de saber quem está atrás daquela parede branca...
“Não,” ela responde”. “Isto é utópico.”
Sim, ela também parece afiada. Sabe o que é uma utopia, sabe que é inalcançável. Ela está desafiando Alan, desafiando Rasha, desafiando o programa. E Alan não só gosta disto, como ele sabe que Rasha também está gostando.
“Certo,” Rasha segue com seu papel de apresentadora, “o que lhe fez se inscrever no programa?”
Dinheiro, Magda pensa, meu emprego, você me obrigar?
Mas sua resposta é muito mais criativa e interessante, pelo menos para as pessoas que não sabem que a participação e a eliminação dela são coisas planejadas.
“Descobrir se estou errada.”
PersonalidadeQualidade essencial e exclusiva de uma pessoa; aquilo que a distingue de todas as outras; caráter, identidade, originalidade. – Dicionário Michaelis.A mesa estava uma bagunça, como sempre. A comida farta era simples, um frango assado, um punhado de salada fresca, suco, arroz, feijão e purê de batatas, nunca podia faltar purê quando Marília ia almoçar na casa da mãe. Ninguém sabia de onde tinha tirado tanto amor pelo purê, mas quando não se tinha, ela simplesmente ficava fazendo um discurso interminável de como ninguém lembrava dos mais velhos.“Você foi moleque,” Regina diz, ou tenente Pegatto, como detestava ser chamada pela família. Ela queria fugir do trabalho quando estava naquela casa cheia e confortável.“Obrigado pelo aviso tardio,” Alan retorna para a irmã que está ao seu lado direito. À esquerda, a mãe continuava concordando fisicamente com Marília, que discute sobre o ato malcriado de Alan.Como ele ousava participar de um programa de namoro e não avisar a nin
IrmãsAmiga inseparável, de todas as horas, ligada a outra pessoa por sentimento de irmandade e fraternidade; mana – Dicionário Michaelis. A prova seguinte, para Alan conhecer as meninas e ver se era compatível com elas, seria algo interessante. Ele escolheria uma atividade e teria um tempo com cada uma delas. O príncipe pensou em muitas coisas e Rasha negou várias delas.“Você sabe que tem que ter um tempo colado com elas, não sabe?”A apresentadora estava com a cara mais entediada do mundo. Como assim as ideias dele tinha que envolver corpo colado? E como assim ele não fazia ideia disso?“Acho que esqueci de ler o manual das provas,” ele ironiza enquanto recruza as pernas.“Vamos, você consegue fazer algo melhor do que só essas coisas chatas. Que tal, acampar?”“Duvido que pelo menos três gostem de ficar um tempo no mato com um punhado de insetos,” ele rebate.Seria interessante, pensou a apresentadora, ver as meninas ficando apavoradas com a ideia e tentando fingir que amaram. Me
OpacoPouco ou nada claro e preciso; difícil de compreender; confuso, incompreensível – dicionário Michaelis.As meninas se reuniram no palco. Os a plateia estava sacudindo as mãos, as duas. Para direita e para esquerda, como se estivessem mostrando que tremiam de tensão. A música era tensa e até a luz estava mais baixa, meio roxa, para afetar ainda mais o público que assistia ao programa. Rasha tinha feito a grande pergunta para Alan:“Quem você elimina hoje?”Magda percebeu que estava tensa com a situação. Ela só não entendeu a razão para aquilo. Era por medo de ser escolhida por Alan e descobrir que estava realmente gostando dele ou era por ser escolhida e perder o dinheiro que Rasha estava lhe oferecendo.Caramba, franziu a testa, quanta coisa uma cabeça podia pensar em tão pouco tempo?A câmera foi passeando por aquelas meninas que mais demonstravam algo. Focaram um pouco mais em Magda, o que causou um reboliço na internet, levantando brigas e teorias sobre a ruiva saber ou não qu
RegraFórmula que indica o modo correto de falar, pensar ou agir, em determinados casos. – Dicionário Michaelis.“Acho que é conversar é o melhor encontro que alguém pode ter.” A câmera foca um pouco mais no rosto sardento de Magda. Ela pensa um pouco, deixa uma gostosa sensação de mistério no ar. “É isso, um simples momento confortável.”Com o sorriso suave da ruiva, a imagem volta para Alan e Rasha. A plateia está aplaudindo, igual ao que fizeram com todas as outras declarações.“Então, você concorda com ela?” Rasha Muniz provoca.“Sim, claro.” O príncipe diz. “Se não podemos ficar confortáveis com quem convive conosco, então será que vale a pena?”Roseane sorri e olha para o marido. O programa está muito interessante para o casal que acompanhava a busca pelo coração de um cara bonitão. “Acho que desta vez,” ela começa com a voz risonha, “você vai perder a aposta.”Julian beija a mão da esposa e a puxa para mais perto. O aconchego do sofá era aumentado pelas cobertas fofas recém limp
InimigoPessoa que tem inimizade, hostilidade a alguém e quer seu mal. – Dicionário Michaelis.Rasha Muniz brilhava no palco de seu programa. Vestida como uma princesa, ela chama Alan ao palco. Gosta como ele parece preencher todo o ambiente, como a plateia grita animada mesmo sem incentivo algum. Eles se abraçam, possuem quase a mesma altura, já que ela está em saltos altos.Sem o microfone ligado, perguntam como estão. O príncipe interage com a plateia saudando-os com um aceno de mão. Está sempre sorrindo, mas de um jeito um tanto fofo, parece até um garoto.“Meu querido,” diz Rasha quando se acomodam nos bancos desconfortáveis, mas capazes de deixar uma postura elegantíssima, “como foram os encontros com nossas garotas?”Alan diz:“Incrível. Elas são incríveis.” Ele é bem politizado.“Então, você conseguiu conhecer um pouco mais delas?”“Olha, Rasha, eu tenho uma tendencia a ser meio lento nisto,” revela. A plateia urra com alegria de saber que ele pode ser lento em algo. Todos ver
PensarTer em mente; pretender, tencionar – Dicionário MichaelisNo dia de gravar a eliminação, Alan não quis sair da cama. O programa estava previsto para ser gravado às 14 horas, mas ele tinha de chegar um pouco mais cedo. O carro da emissora chegaria as 12:30 e teriam um lanchinho para ele quando chegasse.Bom, metade de suas coisas já estavam prontas porque ele sabia que teria aquele desânimo quando acordasse. Era sempre a mesma coisa, ir para o palco do programa, ser bombardeado por perguntas e pegadinhas, lembrar o tempo todo de se manter sorridente e, no final, explicar o motivo de eliminar alguém.As duas primeiras gravações eram para ter sido fáceis. Uma garota que não queria participar? Moleza, ele pensou. O problema é que se interessou demais pela mulher. Aí ficou um pouco mais difícil de eliminar alguém.Alan Pegatto odiava, de todo coração, fazer as pessoas ficarem tristes. Com raiva? Tudo bem, ele podia lidar com a ideia de não gostarem dele; mas magoado? Socorro, ele nã







