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Capítulo 4

Author: Titã do Martelo
Winnie se calou de repente e ficou me encarando, sem reação, tomada por um pânico inexplicável. Era como se eu fosse uma folha de papel tão leve que o vento pudesse me levar, a qualquer momento, para muito longe dela.

Levantei devagar, me apoiei na parede e limpei o sangue do rosto. Então olhei para minha mãe e disse:

— Winnie e eu não oficializamos o casamento no civil, então ela pode se casar com Sean agora mesmo.

— Vocês não se casaram no civil? — minha mãe perguntou, surpresa.

Winnie pareceu incomodada. Franziu a testa e explicou:

— Eu estava muito ocupada na época e, depois, acabamos esquecendo.

Minha mãe bateu palmas e respondeu:

— Ainda bem que não registraram!

Minha filha, Cynthia, me olhou com receio e perguntou:

— Então o tio Sean vai ser meu pai de agora em diante?

Assenti para ela e perguntei, sorrindo:

— Ficou feliz?

Cynthia deu um pulo de alegria e exclamou:

— Oba! Agora o tio Sean vai ser meu pai!

Depois, como se temesse me magoar, acrescentou:

— Pai... Não, tio Klose. Se você prometer que não vai mais maltratar o tio Sean, eu ainda vou gostar de você.

Baixei os olhos e murmurei:

— Entendi.

Sean começou a chorar de alegria e perguntou:

— Klose, você vai mesmo deixar a Winnie se casar comigo?

— Sim. E não precisa mais tratá-la como cunhada — respondi com calma.

Sean olhou para Winnie com carinho, esperando encontrá-la feliz, mas percebeu que ela não tirava os olhos de mim.

No mesmo instante, ele apertou o tecido das próprias mangas e baixou os olhos para esconder o ciúme. Quando voltou a erguer a cabeça, seu olhar estava cheio de inocência, e ele disse num tom sincero:

— Obrigado, Klose.

Balancei a cabeça e respondi tranquilamente:

— Somos da mesma família. Não precisa de tanta cerimônia. Além disso, vou precisar dos seus cuidados no futuro.

Sean não sabia da doação do meu corpo ao laboratório dele. Achou que eu estava apenas sendo educado e logo respondeu, sorrindo:

— Somos irmãos. É claro que vou cuidar muito bem de você.

Ao nos ver "fazendo as pazes", minha mãe assentiu, satisfeita, e disse:

— Isso mesmo. Se você tivesse tomado jeito antes, por que seu pai e eu ficaríamos com raiva de você?

Olhei para ela, com vontade de perguntar se era mesmo assim.

Eu era o herdeiro da família Morgan, mas todos achavam que eu era o filho adotivo.

Foi Winnie quem insistiu em se casar comigo, mas todos me viam como o canalha que se meteu no relacionamento dos outros.

Cuidei dela e da filha dela por vontade própria, mesmo sem ser seu marido no papel, mas todos achavam que eu agia por interesse.

Fechei os olhos devagar, tentando conter as lágrimas que insistiam em cair. Não queria mais me humilhar diante deles. Eu sabia que, se demonstrasse qualquer insatisfação, Sean logo se faria de magoado, e até sentir dor acabaria sendo um erro meu.

Quando voltei a abrir os olhos, meu coração, dolorido por tanto tempo, ficou completamente dormente, como um relógio velho que parou de vez. Olhei para Winnie e a encontrei me encarando, com um traço de dor no olhar.

Aquilo me pareceu absurdo, e murmurei:

— Já posso ir descansar?

Winnie assentiu e respondeu:

— Sim, pode ir.

Soltei um suspiro de alívio e segui devagar para o depósito, mas minha mãe disse:

— Arrume suas coisas e volte para casa. Tem repórteres por toda parte agora. Se descobrirem que você está morando na casa da sua cunhada, sabe-se lá o que vão pensar.

Assenti sem discutir e respondi:

— Tudo bem.

Minha mãe pediu que Winnie me levasse para casa. Já do lado de fora, Winnie de repente segurou minha mão e disse:

— Daqui a uma semana, vou entrar na sala de cirurgia com você. Depois que tudo terminar, vamos conversar com calma. Eu e o Sean... Não é o que você está pensando.

Vi a expressão de Sean mudar de repente e sorri para Winnie antes de responder:

— Está bem.

Ela nem imaginava, porém, que eu nunca mais teria a chance de ouvir suas desculpas hipócritas.

Winnie me olhou de um jeito estranho, como se o homem à sua frente fosse um pedaço de madeira sem sentimentos. Um pouco irritada, disse:

— Vamos.

Entramos no carro e seguimos em silêncio. Winnie tentou puxar assunto várias vezes, mas, ao ver meu rosto pálido e manchado de sangue, acabava desistindo.

Estávamos na metade do caminho quando ela recebeu uma ligação da minha mãe. Winnie encostou o carro e disse, aflita:

— O Sean desmaiou de repente. Pode ser uma reação grave de rejeição ao transplante. Preciso voltar correndo. Você pega um táxi.

Olhei para o relógio no painel: eram três da manhã, e estávamos numa via expressa elevada, em um trecho afastado.

"Um táxi? Onde eu conseguiria um aqui?"

Ainda assim, não disse nada e desci do carro sem discutir.

Antes que eu sequer conseguisse me equilibrar, Winnie pisou no acelerador e foi embora.

O ronco do carro esportivo dilacerou meu coração. Apertei o peito e demorei a me recuperar daquela dor que parecia me rasgar por dentro.

Assim que me acalmei, o som abafado de um trovão ecoou no céu. Era como se até os céus estivessem revoltados com a minha covardia e rugissem de raiva.

Logo, gotas de chuva do tamanho de grãos de feijão começaram a cair, atingindo minha cabeça e provocando uma dor aguda.

Ouvi pancadas secas e logo percebi que era granizo. Cobri a cabeça às pressas e comecei a andar, enquanto as pedras duras castigavam minhas mãos e meu rosto. Continuei caminhando até a visão escurecer e eu cair no chão.

Muito tempo depois, achei ter ouvido a sirene de uma ambulância, seguida pela voz familiar do médico que me acompanhava. Ele parecia chorar e repetia:

— O que aconteceu? Ele ainda tinha uma semana de vida! Como pôde... Como pôde morrer assim, de repente?

"Minhas costelas doem tanto... Doutor, parece que está apertando meu peito com força. Está tentando me reanimar? Mas... Dói demais... Viver dói... Me deixa partir..."

Bip...

O paciente Klose Morgan morreu às 5h do dia 1º de junho, aos 28 anos. Ao mesmo tempo, o renomado Laboratório de Pesquisas Médicas Ingenuity recebeu seu corpo e o submeteu à criopreservação.
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