Mag-log inA dor de cabeça foi a primeira coisa que acordou. Sentia o corpo pesado e dormente; como pude, tentei me ajeitar na maca.
— Com cuidado, não se esforce demais — diz a enfermeira que está ao meu lado.
Ela se aproximou para conferir meus sinais vitais com uma calma que eu não tinha. O pânico me atingiu e me obrigou a reagir na hora.
— Onde eu tô? O que aconteceu? — perguntei, e a voz saiu quebrada, enquanto eu segurava a cabeça com as duas mãos.
— Tranquila, por favor, não se mexa — pediu ela com suavidade, colocando uma mão firme no meu ombro para me obrigar a deitar de novo.
— Preciso saber da minha filha. Onde está a Lorena?
— Se acalme. A senhora teve um acidente na estrada, mas felizmente não foi tão grave e a sua filha está em segurança em casa — explicou, tentando me acalmar com um sorriso amável. — O seu marido já está vindo para cá. A polícia avisou e ele não demora a chegar.
As palavras cruéis de Enrique e Rebeca ressoaram na minha mente, me lembrando que eu estava cercada de dois assassinos capazes de tudo por dinheiro.
Me agarrei nos braços da enfermeira com uma força descomunal, implorando com o olhar que ela não me deixasse à mercê deles.
— Não o deixa entrar! — supliquei com a voz quebrada, tremendo sobre a maca fria.
A enfermeira me olhou sem entender.
— Esse homem quer me machucar — repeti. — A senhora tem que me ajudar, eu imploro.
— Senhora, por favor, a senhora está muito confusa por causa do impacto forte na cabeça — respondeu ela, me olhando com uma mistura de compaixão e desconcerto.
De nada adiantaram as minhas súplicas.
A porta se abriu de uma vez.
Enrique entrou com o passo quebrado, o rosto descomposto e os olhos inundados de lágrimas. Se jogou em cima de mim, se enterrando no meu pescoço, soluçando com uma intensidade que teria enganado qualquer um. O nojo revirou o meu estômago ao sentir os braços dele me envolvendo, os mesmos braços que uma noite antes tinham envolvido a minha melhor amiga em cima da minha mesa.
— Abril! Meu Deus, quando eu soube do acidente achei que tinha te perdido para sempre — exclamou, com a voz completamente quebrada.
Levantei a mão devagar e acariciei o cabelo dele. Era o que se esperava da esposa submissa que ele acreditava ter sob controle. Eu precisava ganhar tempo, precisava pensar, precisava construir cada peça da minha vingança sem que ele suspeitasse de nada. Aguentei o abraço falso com uma maturidade de aço, engolindo a vontade de cravar as unhas nos olhos dele por todo aquele cinismo.
— Tô bem, Enrique. Olha para mim — respondi com uma calma que eu não sentia, forçando um sorriso amoroso que escondesse a sede de sangue que começava a nascer. — Eu sou muito forte. Nunca deixaria vocês sozinhos, você e a nossa pequena.
Fiz uma pausa, acariciando a face úmida dele com um carinho que me custou cada grama de autocontrole que ainda me restava.
— E a Lorena? Onde ela está?
— Ela está em casa com a Carmen, está bem, meu amor. Não quis trazer ela para não se alterar.
A enfermeira ajustou o soro e saiu em silêncio, nos dando a privacidade que nenhum dos dois realmente queria. Fiquei completamente sozinha com o meu algoz, sentindo o ambiente se carregar de uma hipocrisia densa que ameaçava me sufocar.
O silêncio ficou pesado.
Enrique trocou o rosto compassivo por um de repreensão severa assim que a porta se fechou. Cruzou os braços, cravando os olhos em mim com aquela superioridade com que sempre me tratou, como se eu fosse um problema menor para resolver e não a mulher que tinha dado cinco anos da vida a ele.
— Que diabos você estava fazendo fora da mansão a essa hora da noite, Abril? — reclamou com dureza, sem sequer perguntar como eu estava.
Olhei para ele, e dessa vez já não havia em mim nem um fiapo de devoção. O manto que eu mesma tinha criado ao longo desses anos se destruiu num instante. Vi um homem frio. Um homem que acabava de correr pelo corredor fingindo terror e que agora me ralhava como se eu fosse empregada dele.
— Queria te dar uma surpresa no escritório pelo nosso aniversário — menti, fingindo timidez, baixando os olhos como a esposa submissa que ele esperava encontrar. — Mas nada saiu como eu esperava.
A tensão na mandíbula dele afrouxou um pouco. Calculou a resposta com aquela velocidade de homem acostumado a controlar situações.
— Tudo isso é culpa minha. Eu deveria ter cancelado aquela reunião — afirmou, pegando as minhas mãos com uma falsidade que agora eu reconhecia perfeitamente. — Eu te prometo, vou te recompensar por isso.
Assenti com um sorriso doce.
E em algum lugar bem no fundo de mim, alguma coisa fria e silenciosa começou a construir um plano.
***
Na manhã seguinte, os médicos assinaram a minha alta e eu voltei para a mansão.
Mal entrei, Lorena correu até mim e se jogou nos meus braços, se agarrando no meu pescoço com força. As lágrimas pequenas molharam o meu ombro, me lembrando a única e poderosa razão pela qual eu precisava manter a sanidade e ganhar essa guerra.
— Eu tive muito medo de você não voltar, mamãe — soluçou, tremendo entre os meus braços.
— Isso nunca vai acontecer, minha princesa — prometi, beijando a testa dela de olhos fechados. — A mamãe sempre vai estar aqui para te proteger. Sempre.
— Eu vou ser a sua enfermeira particular a partir de hoje — afirmou ela, se afastando só um pouco para me olhar com aquela seriedade adorável. — Vou cuidar de você com muitos beijinhos e não vou deixar nada te doer.
Ri pela primeira vez em dois dias. Uma risada pequena, verdadeira, que doeu nas costelas, mas precisava sair.
Estávamos prestes a subir a escada quando a porta principal se abriu de uma vez.
Rebeca entrou com o rosto desencajado e uma pressa que não me enganou nem por um segundo. Correu até mim de braços abertos e com aquela doçura de sempre que agora me dava um enjoo fundo. O cinismo dela não tinha limite: a mesma mulher que na noite anterior tinha rido da morte do meu bebê agora vinha me consolar com um abraço.
— Amiga minha, eu vi as notícias e não hesitei em vir! — exclamou, se aproximando de braços abertos.
Parou um instante, estudando a minha expressão.
— Eu sabia que você precisava de mim.
Olhei para ela.
Olhei do mesmo jeito que tinha olhado para Enrique no hospital. Sem o véu. Sem os anos de lealdade cega que me tinham convencido de que aquela mulher era minha irmã.
— Não me toca — sentenciei, com uma voz tão calma que até a mim surpreendeu. — Estou cansada e quero ficar sozinha.
Desviei das mãos dela com brusquidão, peguei a mão de Lorena e subi a escada sem me virar. Mas eu senti. Senti Enrique e Rebeca se olhando nas minhas costas, desconcertados, sem entender o que tinha mudado em mim.
Que continuassem sem entender. Por enquanto, aquele desconcerto era o meu melhor aliado.
Fechei a porta do quarto. Sentei-me na beira da cama e olhei para as minhas mãos por um bom tempo, lembrando cada palavra que tinha ouvido atrás daquela porta. As mãos que prepararam o presente que nunca entreguei. As mãos que assinaram a certidão de casamento com um homem que nunca me amou.
As mesmas mãos que iam desmontar o mundo dele peça por peça.
Muito bem, pensei. Se querem guerra, que sobre tempo para se arrependerem.
Já se passou um ano desde aquela noite em que Mila segurou minha mão e me pediu que construíssemos um futuro juntas. Um ano desde que decidimos deixar o medo para trás e escolher uma à outra sem condições. Hoje, enquanto observo meu reflexo diante do espelho, sinto que a mulher que aparece diante de mim percorreu um caminho enorme para chegar até este momento.O vestido branco que estou usando não representa uma vida perfeita. Representa uma história real. Uma história com feridas, erros, despedidas e reencontros. Representa todas as vezes em que pensei que amar Mila era difícil demais, mas também todas as vezes em que descobri que nosso amor tinha força suficiente para aprender, mudar e crescer.Minhas mãos tremem um pouco enquanto termino de ajeitar alguns detalhes. Não é nervosismo por arrependimento, é a emoção de saber que, depois de tantos anos, vou caminhar em direção à pessoa que ainda consegue me fazer sentir especial com um simples olhar.Ao meu redor estão as pessoas que vir
Cheguei ao meu apartamento com o cansaço acumulado de um dia que parecia nunca terminar. A conversa com Susana, o encontro com Cecilia e aquela estranha sensação de ter fechado uma porta que havia permanecido aberta dentro de mim por tempo demais.Abri a porta e entrei esperando encontrar a tranquilidade de sempre no meu lar. No entanto, assim que atravessei a entrada, percebi que algo estava diferente. Não era uma transformação exagerada nem um cenário impossível, mas pequenos detalhes que falavam de cuidado, de tempo e de alguém que tinha pensado em mim antes de preparar cada coisa.Havia fotos nossas colocadas com delicadeza, lembranças de momentos que eu acreditava terem se perdido e alguns detalhes que pertenciam completamente ao meu mundo. Meu livro favorito sobre a mesa, uma música que eu sempre ouvia quando precisava me sentir melhor e um pequeno bilhete escrito com a letra de Mila.Peguei o papel nas mãos e reconheci aquelas palavras antes mesmo de lê-las. Mila sempre teve um
Acomodei as costas no encosto da poltrona e soltei o ar devagar, tentando relaxar a rigidez dos meus ombros.Três meses tinham se passado desde aquele último pesadelo em que o nome de Fabricio tirava meu fôlego, três meses desde que as sombras do cativeiro deixaram de ser uma ameaça real para se transformarem em fantasmas noturnos.Tudo corria bem na empresa, e Benjamín voltava a sorrir, mas minhas noites continuavam sendo um território hostil onde eu acordava suando e procurando às cegas por um perigo que já não estava ali.A doutora Susana me observava do outro lado da mesa com aquela serenidade paciente que sempre conseguia acalmar minha tempestade interior.Ela ouviu meu relato sobre os pesadelos recorrentes, sobre o medo repentino que me atacava quando eu caminhava sozinha ou ouvia uma porta bater inesperadamente. Era frustrante sentir que, embora minha vida seguisse em frente, uma parte da minha alma continuava presa entre quatro paredes.—Gina, o que você está vivendo é a marca
O tiro arrancou de mim um grito que eu nem sabia que era capaz de dar. Meu corpo inteiro reagiu antes dos meus pensamentos. Lancei-me sobre Mila e o abracei com todas as minhas forças, procurando ferimentos, procurando sangue, procurando algum sinal de que ele ainda estava comigo. Minhas mãos tremiam enquanto percorriam suas costas.—Mila, olha pra mim... por favor, diz que você está bem.Ele me segurou, mas, antes que pudesse responder, ouvi uma voz atrás de nós. Não era a de Fabricio. Era uma voz tranquila, firme, uma voz que eu conhecia bem demais.—Filho, nunca se esqueça do que sempre te ensinei. Mesmo quando você acha que os ratos já estão acabados, cedo ou tarde eles tentam atacar.Virei lentamente e vi Nikolái com a arma ainda erguida. Aos seus pés, Fabricio estava imóvel. Na mão dele ainda havia uma arma, como se, mesmo derrotado, tivesse esperado uma última oportunidade para nos machucar.Senti minhas pernas perderem as forças. Aquilo tudo parecia um pesadelo interminável. E
POV GinaO frio do chão era o que menos me preocupava, a dor física não era nada comparada ao vazio insuportável que corroía meu peito. Presa naquela penumbra nauseante, eu mal conseguia mexer as mãos sem que o metal enferrujado arrancasse pedaços da minha pele.Um nó sufocante apertava minha garganta. Eu sentia uma pontada amarga, um pressentimento terrível que não me deixava respirar. Algo bem dentro de mim dizia que aquele pesadelo não teria um final feliz, que talvez eu nunca mais voltasse a abraçar meu pequeno Benjamín.Pensar na risada dele, nas mãozinhas procurando meu rosto pela manhã, me despedaçou por completo. As lágrimas começaram a cair sem controle, queimando minhas bochechas enquanto um soluço dilacerante escapava do meu peito.—Olhem só a grande dama, chorando feito uma cadela abandonada —a voz de Fabricio ecoou na escuridão.Ouvi seus passos pesados se aproximando. Encolhi-me instintivamente, tentando esconder o rosto inchado de tanto chorar.—Adoro ver você destruída
A tela se iluminou com um arquivo anexado que queimava minhas mãos, marcando as coordenadas exatas de uma zona industrial abandonada nos arredores.Meu coração parou completamente e uma dor insuportável rasgou meu peito quando abri as fotografias horríveis que aquele desgraçado havia me enviado.E lá estava ela, Gina, caída sobre um chão imundo, com o rosto pálido manchado de sangue seco e olheiras profundas que apagavam seu brilho natural.Grossas correntes de aço enferrujado envolviam seus pulsos frágeis. Um rugido animal saiu do lugar mais sombrio da minha alma.Eu golpeei a parede com o punho até deixar meus nós dos dedos destruídos, sentindo os demônios me consumirem por inteiro ao ver sua expressão de exaustão absoluta.—Suka blyat! Yob tvoyu mat! Juro pela minha vida inteira que vou pegar aquele covarde miserável e transformar ele em uma maldita carne moída ensanguentada para dar aos porcos da fazenda. Não vai sobrar nada daquele corpo nojento quando eu terminar de destruí-lo o







