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Capítulo 3

Author: Fumaça Azul
— Cecília, até a teimosia tem limite. — O olhar de Noah transbordava decepção quando ele declarou, com a voz gélida. — Se me disser agora onde a Juju está, esqueço tudo o que aconteceu antes e não cobrarei nada de você.

— Eu já disse que não sei onde ela está. — Retrucou Cecília, sustentando o olhar dele e pronunciando cada sílaba com firmeza. — Não tenho absolutamente nada a ver com o sequestro da Júlia.

A resposta pareceu esgotar a paciência dele. Num movimento brusco, a mão de Noah se fechou em torno do pescoço dela. À medida que os dedos dele apertavam a traqueia, o ar faltou e a visão de Cecília começou a escurecer; à beira da inconsciência, o único som que penetrou o zumbido em seus ouvidos foi o toque estridente de um celular.

Noah a soltou imediatamente para atender. Do outro lado da linha, a voz do assistente informava que haviam acabado de encontrar a Júlia. Sem dirigir um segundo olhar a Cecília, ele girou nos calcanhares e caminhou com passos largos e urgentes em direção à porta.

Cecília permaneceu sentada no chão, o rosto pálido contrastando com as marcas violáceas dos dedos que já começavam a surgir em sua pele alva, uma visão aterrorizante. O som do motor do carro sendo ligado no andar de baixo ecoou, distanciando-se gradualmente até o silêncio reinar.

Somente após recuperar o fôlego, ela conseguiu se erguer, cambaleando até o banheiro. Ao confrontar no espelho seu reflexo deplorável, estando descabelada, ferida e abandonada, as lágrimas que tanto segurara finalmente romperam a barreira do orgulho.

Foram sete anos ao lado de Noah. E, no entanto, sete anos de devoção não foram suficientes para que ele confiasse nela nem por um segundo.

Respirando fundo, Cecília se forçou a buscar a calma. Lavou o rosto, aplicou uma pomada nas contusões e, arrastando o corpo exausto, deitou-se na cama, onde o sono pesado a venceu quase instantaneamente.

Na manhã seguinte, bem cedo, uma mensagem de sua assistente iluminou a tela do celular: [Senhora Cecília, a equipe do senhor Noah convocou uma reunião de diretoria de última hora. A senhora recebeu a notificação?]

A empresa atual de Noah fora erguida pelas mãos dos dois. Muitos dos projetos cruciais foram conquistados por Cecília, que quase perfurara o estômago de tanto beber em jantares de negócios para roubar contratos da concorrência. Pela lógica e pelo direito, ela deveria ser a primeira a saber da reunião.

Porém, não havia chegado nenhum aviso.

Cecília instruiu a assistente a monitorar os movimentos de Noah e avisou que chegaria à empresa em breve. Arrumou-se e desceu. Mas, ao abrir a porta do carro, percebeu algo errado. Antes que pudesse reagir ou fugir, uma toalha úmida foi pressionada com força contra seu rosto. O cheiro químico invadiu suas narinas e a consciência se dissipou num instante.

Ao despertar, Cecília percebeu que estava envolta na escuridão de um saco de aniagem. Sua boca estava amordaçada com uma toalha e os membros, atados com cordas grossas. Tentou se debater, mas os nós eram firmes demais, tornando qualquer movimento inútil.

Justo quando buscava uma alternativa para descobrir quem a havia sequestrado, uma voz masculina familiar soou do lado de fora, fazendo seu sangue gelar.

— É essa a pessoa que intimidou a Juju?

O corpo de Cecília congelou, como se atingido por um raio. Toda a luta cessou. Era Noah.

Ela emitiu um gemido abafado, tentando desesperadamente sinalizar que era ela quem estava ali dentro, mas a resposta foi um chute brutal contra suas costelas.

— Fique quieta! — Ordenou Noah, com o olhar carregado de nojo fixo na figura no chão. — Quem ousa tocar em quem eu protejo precisa aprender uma lição inesquecível. Nem sei de onde tirou coragem para isso.

— Noah, isso não é um pouco demais? — Interveio Júlia, agarrada ao braço dele e se encolhendo contra seu peito, numa atuação de fragilidade. — Talvez devêssemos deixar para lá. Eles não fizeram nada grave comigo e você me encontrou a tempo. Estou bem, de verdade.

A expressão dura de Noah se suavizou ao encarar a doçura fabricada de Júlia. Ele acariciou o rosto dela com o polegar e disse, com ternura:

— Precisamos fazer isso. Caso contrário, eles tentarão sequestrar você novamente. Juju, não permitirei que ninguém lhe faça mal.

Ao ouvir aquelas palavras, Cecília parou de lutar. Em seguida, sentiu seu corpo ser içado no ar. Pela trama rala do saco, viu a silhueta de Noah se aproximar, empunhando um taco de beisebol.

O primeiro golpe a atingiu com violência.

Cecília urrou contra a mordaça, sentindo o gosto ferroso de sangue inundar sua boca enquanto a visão turvava. Mas ele não parou. Golpe após golpe, Noah descarregou sua fúria noventa e nove vezes antes de finalmente baixar a arma.

O homem largou o taco e se virou para Júlia. No mesmo instante, soltaram a corda que sustentava Cecília, e ela despencou no chão. A toalha branca que a amordaçava estava agora empapada de um vermelho alarmante, encharcada de sangue.

— Noah, estou com medo!

Júlia correu para abraçá-lo, escondendo o rosto em seu peito e apertando a cintura dele. No entanto, por cima do ombro de Noah, seu olhar recaiu sobre a figura ensanguentada que acabara de ser retirada do saco. Seus olhos brilhavam com escárnio e triunfo, num claro desafio: "Viu o que acontece com quem tenta roubar o meu homem?"

Engasgando com o próprio sangue, Cecília fixou os olhos em Noah e forçou a voz através da dor:

— No... Noah...

O som fraco e rouco fez Noah franzir a testa. Aquela voz parecia muito com a de Cecília.

Ele estava prestes a investigar quem estava ali atrás, mas, subitamente, Júlia desmaiou em seus braços.

— Juju!

A atenção de Noah se voltou inteiramente para a mulher em seu colo. Percebendo que não conseguia acordá-la, ele a ergueu nos braços e correu em direção ao local onde havia estacionado, partindo em disparada e deixando tudo para trás.

Cecília viu o carro se afastar e sentiu o coração afundar num abismo gelado.

Alguém cortou as cordas em seus pulsos e a arremessou como lixo na parte traseira de uma van. O impacto fez suas costelas gritarem de dor, e a escuridão ameaçou engoli-la novamente. Os homens, alheios ao estado crítico dela, discutiam o próximo passo:

— A senhorita Júlia mandou arrumar uns caras para "servirem" ela, mas nesse estado, será que ela aguenta?

— Que importa se ela vive ou morre? O nosso objetivo é tirar as fotos.

— Mas é um desperdício, falando sério... ela tem um corpo e tanto.

As risadas obscenas preencheram o veículo. Ao ouvir o nome da "senhorita Júlia" e o plano sórdido, Cecília compreendeu tudo. Júlia não queria apenas machucá-la; queria destruí-la completamente.

Decidida a se salvar, Cecília se arrastou penosamente até a outra porta. Seus dedos roçaram a maçaneta, mas foi brutalmente puxada pelos cabelos para trás, sentindo o couro cabeludo arder como se fosse ser arrancado.

— Vadia! Acha que vai fugir?

Cecília mordeu o lábio, o desespero tomando conta enquanto encarava os olhares maliciosos. Mas, tateando o chão às suas costas, seus dedos encontraram um pedaço de metal frio e afiado, talvez um resto da lataria.

Num instante de clareza furiosa, ela tomou uma decisão. Quando o homem se aproximou com a corda para amarrá-la de novo, ela agiu rápido, pressionando a lâmina improvisada contra a jugular dele.

— O que... o que você pensa que está fazendo? — Gaguejou ele.

O metal perfurou a pele, fazendo escorrer um fio de sangue pelo pescoço do homem.

— Me deixe ir! — Exigiu Cecília, com os olhos selvagens e a voz rouca.

Antes que ele pudesse responder, um estrondo sacudiu a van, seguido pelo som inconfundível de luta corporal do lado de fora. A porta foi arrancada. Vários guarda-costas de terno preto cercaram o veículo, liderados por um homem elegante de óculos sem aro.

— Senhora Cecília, peço perdão pelo atraso.

Cecília, oscilando entre o alívio e a confusão, encarou-os com o olhar turvo e sussurrou com dificuldade:

— Quem são vocês?
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