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Capítulo 2

Author: Fumaça Azul
Desde o momento em que saiu do bar até entrar no carro, Cecília esperou, mas Noah não veio atrás dela. Em vez disso, seu celular vibrou com uma mensagem fria, carregada de um tom acusatório implícito: [Eu e a Juju não temos nada do que você está pensando. Depois do que você fez hoje, deveria pedir desculpas a ela!]

Pedir desculpas à Júlia? Um sorriso sarcástico curvou os lábios de Cecília enquanto ela jogava o aparelho com desdém sobre o banco do passageiro.

Talvez Noah não soubesse, mas há um mês ela vinha recebendo fotos comprometedoras. Eram imagens dele e de Júlia viajando juntos, posando para ensaios de casamento como um casal apaixonado e até flagrantes dele brigando com outros homens por ciúmes da garota. E, para cada uma daquelas ocasiões, Noah tinha uma desculpa pronta na ponta da língua, como viagens de negócios ou excesso de trabalho. Mas, de agora em diante, ele não precisaria mais se esforçar para inventar mentiras. Ela não o queria mais.

Cecília deu partida no carro e dirigiu de volta para a casa que dividiam. Assim que cruzou a porta, começou a revirar tudo, reunindo todos os presentes que Noah lhe havia dado no início do namoro, como fotos de casal, gravações e os diários que escreveram juntos. Levou tudo para o jardim, amontoou dentro de uma bacia de ferro e ateou fogo.

As chamas mal haviam subido quando um grito masculino explodiu atrás dela:

— O que você pensa que está fazendo?!

Cecília sentiu o braço ser puxado com violência para trás. Era Noah, que sem hesitar enfiou a mão no fogo para resgatar as fotos que já estavam meio consumidas. Quanto aos outros objetos, o fogo já estava alto demais e acabou queimando as costas da mão dele quando tentou alcançá-los. Noah sibilou de dor e recolheu a mão, incapaz de conter a fúria que o dominava.

— Qual é o seu problema? — Rugiu ele, encarando-a. — A Juju assumiu a culpa por você e ainda tentou me convencer a voltar e fazer as pazes, para eu não ficar bravo. E é assim que você retribui? Queimando nossas lembranças? Cecília, desde quando você se tornou tão imatura?

Cecília ergueu os olhos, o olhar gélido perfurando o dele, e sorriu com escárnio.

— Tem razão, sou imatura mesmo. — Concordou ela, com a voz seca. — Noah, vamos terminar.

Dito isso, ela se virou para caminhar em direção à casa. Ao ouvir a palavra "terminar", o coração de Noah falhou uma batida, mas logo a incredulidade tomou conta. Cecília quase rompia com a própria família por causa dele; ela o amava demais para acabar com tudo por uma briga tão trivial. "Ela só está fazendo charminho para me provocar", concluiu ele.

Convencido disso, Noah correu atrás dela e bloqueou sua passagem na escada, franzindo a testa.

— Chega, para com esse drama. Errei em esquecer nosso aniversário de namoro, tudo bem? Amanhã é Dia dos Namorados, vou compensar você e comemoramos tudo junto.

Cecília abriu a boca para recusar, mas Noah não lhe deu chance. Na frente dela, pegou o celular e reservou um restaurante e ingressos para o cinema, agindo como se a decisão já estivesse tomada. Satisfeito, largou o aparelho e abriu os braços para abraçá-la, mas Cecília se esquivou bruscamente antes que ele pudesse tocá-la.

— Você... — Começou ele, confuso.

— Noah, você já sentiu o cheiro que está em você? — Interrompeu Cecília, com os olhos fixos nele.

O aroma enjoativo de flores e frutas impregnava as roupas dele. Era o perfume inconfundível de Júlia. Noah travou. Baixou a cabeça para cheirar a própria camisa e sua expressão mudou instantaneamente. Sem dizer nada, afrouxou a gravata, pegou roupas limpas no armário e marchou em direção ao banheiro.

— Vou tomar um banho. — Avisou, tentando disfarçar o constrangimento.

Cecília ignorou a atitude dele. Sabendo que Noah passaria a noite ali, decidiu que não dividiria a mesma cama e nem o mesmo ar que ele. Enquanto recolhia seus pertences para se mudar para o quarto de hóspedes, o celular de Noah, deixado sobre o móvel, acendeu com o som de uma notificação.

Ela lançou um olhar para a porta do banheiro, onde o chuveiro já estava ligado, e pegou o aparelho. A tela exibia a conversa com Júlia, um histórico repleto de insinuações e flertes velados que reviraram o estômago de Cecília.

A mensagem mais recente era uma foto provocante, quase explícita.

[Ficou bom assim?], perguntava a legenda, seguida de: [Estou esperando você vir conferir meu corpo de novo, igual da última vez.]

Além do texto sórdido, a imagem destacava uma tatuagem na linha da cintura, descendo em direção ao ventre, exibindo a assinatura de Noah em inglês, marcada na pele dela como se Júlia fosse gado marcado, propriedade exclusiva dele.

Cecília largou o celular como se queimasse e correu para a lixeira, onde vomitou violentamente, o corpo rejeitando a podridão que acabara de ver. Ao ouvir o barulho, Noah saiu do banheiro apressado, ainda se vestindo.

— O que houve? — Perguntou ele, a voz transbordando uma preocupação encenada enquanto se aproximava. — Onde dói? Vou te levar ao médico.

Quando ele tentou pegá-la no colo, Cecília o empurrou com toda a força que lhe restava.

— Sai de perto de mim! — Gritou, os olhos vermelhos e o corpo tremendo incontrolavelmente.

Será que ela nunca o conheceu de verdade? Aquele homem diante dela parecia um estranho. No início, Noah não era assim. Ele costumava anunciar para o mundo que tinha namorada, rejeitando qualquer flerte; passava noites em claro ao lado da cama dela quando estava doente; ficava de vigia embaixo do dormitório quando faltava luz, só porque sabia que ela tinha medo do escuro. As memórias daquele afeto antigo contrastavam dolorosamente com a realidade atual. Cecília não conseguia entender em que momento o Noah que a amava tanto havia apodrecido por dentro.

— Você mexeu no meu celular? — A voz de Noah cortou seus pensamentos, fria e acusatória.

Cecília ergueu a cabeça, encarando a fúria nos olhos dele com um escárnio ainda maior.

— Se não fez nada de errado, por que o medo?

— Cecília! — Noah agarrou os ombros dela e a prensou contra a parede. — O celular é minha privacidade! E a tatuagem da Juju é apenas um sinal de admiração e respeito por mim, que sou como um irmão mais velho para ela. Pare de projetar sua mente suja nela!

Mente suja? As mãos de Cecília tremiam ao lado do corpo. Eles cometiam atos repugnantes, traindo a confiança e a moral, e ainda tinham a audácia de acusá-la? A situação era tão absurda que ela começou a rir. Gargalhou até as lágrimas escorrerem, um riso de puro desespero e descrença. Noah a encarou por um longo momento, confuso, e soltou seus ombros.

Antes que pudesse dizer algo, o toque do celular rompeu o silêncio tenso. Ele atendeu, e a voz aterrorizada de Júlia ecoou pelo ambiente:

— Noah, me ajuda! Tem... tem alguém me perseguindo!

— Juju! — Noah apertou o aparelho com força, o pânico tomando conta de sua voz. — Onde você está? Eu vou te buscar, aguenta fi...

— Não! Não rasguem minha roupa, por favor, não!

Um grito agudo cortou a ligação, e a chamada caiu, deixando a tela escura. Atordoado por uma fração de segundo, Noah reagiu imediatamente, ligando para seus contatos para rastrear Júlia.

— Cecília! Onde a Juju está? — Gritou ele após desligar com o assistente, virando-se para ela com um ódio mortal, como se quisesse reduzi-la a pó. — Você pode descontar sua raiva em mim, mas a Juju nunca te fez nada! Quão podre é seu coração para armar uma coisa dessas contra ela?

Diante daquelas palavras, qualquer resquício de sentimento que Cecília ainda pudesse ter congelou completamente. Ela o encarou, a expressão vazia, e respondeu com uma calma assustadora:

— Isso não tem nada a ver comigo.
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