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Capítulo 4

Author: Fumaça Azul
— Sou Pedro, assistente do senhor Nathan. — O homem que liderava o grupo tirou um cartão do bolso e o entregou, fazendo um gesto discreto para os que aguardavam atrás dele. — Deixem que nós cuidamos deste sujeito.

Os guarda-costas avançaram sem hesitação, ergueram o agressor e o atiraram para fora com violência. O baque surdo e pesado do corpo contra o chão fez com que Cecília se desse conta, num choque de realidade, de que aquilo estava realmente acontecendo. Os homens de Nathan a haviam salvado.

A tensão que mantinha seus nervos à flor da pele se dissipou tão abruptamente que seu corpo não aguentou. Cecília abriu a boca, tentando articular um agradecimento, mas sua visão escureceu repentinamente. A última coisa que ouviu antes de a inconsciência tomá-la por completo foi a voz do assistente ordenando, com urgência, que a levassem para o hospital.

Ao despertar, Cecília percebeu que a pessoa que velava seu sono à beira da cama era sua própria assistente.

— Senhora Cecília, graças a Deus você acordou! — Exclamou Vanda, com os olhos vermelhos de preocupação.

Vanda Lima era bolsista patrocinada por Cecília na universidade e, devido à sua competência excepcional, permaneceu ao lado dela após a graduação. Em seu coração, a jovem considerava a patroa como uma irmã mais velha. Ao saber do acidente, ficava tão desesperada que quase bateu o carro a caminho do hospital.

Ao cruzar o olhar com a aflição estampada no rosto de Vanda, a expressão de Cecília se suavizou.

— Estou bem. — Murmurou ela, com a voz fraca.

Mas como poderia estar? Vanda recordou as palavras graves do médico sobre costelas fraturadas e lesões cardiopulmonares. Se tivesse chegado um pouco mais tarde, Cecília correria risco de morte. O olhar que a assistente dirigiu à chefe transbordava dor e compaixão.

Cecília tossiu levemente e, após beber alguns goles de água para aliviar a garganta seca, retomou o foco.

— Você mencionou algo sobre o conselho administrativo antes. — Disse ela, forçando-se a parecer firme. — Qual é a situação atual?

— Senhora Cecília, você precisa fazer o senhor Noah cair na real. — Suplicou Vanda, incapaz de conter sua indignação pela injustiça. — Ele quer transferir trinta por cento das ações da empresa para a senhorita Júlia! Como isso é possível? A empresa foi fundada por você e por ele, construída do zero pelas suas mãos, e nem mesmo a senhora possui uma porcentagem tão alta assim.

Cecília hesitou por um instante, atônita, e um brilho de escárnio surgiu no fundo de seus olhos. No início, Noah alegara que o risco do empreendimento era alto demais para justificar reduzir a participação dela ao mínimo, alegando protegê-la. Contudo, agora ele parecia disposto a entregar trinta por cento de mão beijada a outra pessoa. Era como se uma mão invisível esmagasse seu coração, causando uma dor tão aguda que respirar se tornava um calvário. Ela sentia o gosto metálico de sangue na boca.

— Mande alguém contatar os membros do conselho. — Ordenou Cecília, cravando as unhas na palma da mão para forçar a própria calma diante da traição. — Diga a eles que eu não concordo e não autorizo essa transferência.

Em seguida, ela explicou detalhadamente a Vanda seu plano de contra-ataque, instruindo-a a seguir cada passo à risca para bloquear a ação de Noah. Antes de sair para cumprir as ordens, Vanda transmitiu o recado deixado pelo assistente de Nathan.

— Senhora Cecília, aquele homem disse que eles ficarão na região por um tempo. Pediu para avisar que, se precisar de qualquer ajuda, pode ligar para o número dele a qualquer hora.

Cecília piscou, atordoada, lembrando-se tardiamente de que fora salva por ordem de Nathan. Ela assentiu em silêncio. Assim que ficou sozinha no quarto, pegou o celular para enviar uma mensagem sincera de agradecimento.

...

Cecília permaneceu internada por um mês. Com Vanda atuando firmemente na empresa, a tentativa de Noah de transferir as ações para o nome de Júlia foi barrada pelo conselho. Para piorar a situação dele, vários parceiros comerciais antigos cancelaram contratos, deixando-o em uma situação desesperadora e estressante.

No dia da alta, Cecília ignorou deliberadamente a presença de Noah na entrada do hospital, com uma expressão tão sombria que parecia capaz de gotejar tinta preta, e caminhou direto para onde Vanda estacionara o carro.

— Cecília!

O grito veio acompanhado de um puxão violento em seu braço, fazendo seu corpo girar para trás. O movimento brusco quase reabriu as fraturas recém-cicatrizadas de suas costelas, e Cecília não conseguiu conter um gemido de dor.

Ao ver que a expressão de sofrimento dela não parecia fingida, Noah franziu a testa, prestes a perguntar onde doía.

No entanto, Vanda se interpôs bruscamente entre os dois, vindo da frente para proteger Cecília com o próprio corpo e fuzilando o chefe com um olhar feroz.

— Quem te deu permissão para tocar nela? — Disparou a assistente, sem se importar com a hierarquia ou as consequências. — A Senhora Cecília está ferida! Se os pontos abrirem por sua causa, você...

— Cecília, você ainda vai continuar com esse teatro? — Noah cortou a fala de Vanda, olhando para a namorada com uma mistura tóxica de decepção e repulsa. — Pare de usar esses truques baratos de autopiedade. Você passou esse tempo todo no hospital fingindo estar doente só para impedir que eu transferisse as ações para a Juju, não foi? Você a odeia tanto assim? Você é minha namorada, e o pai da Juju salvou minha vida. Não poderia ser mais tolerante por causa disso? Além do mais, quando soube que ela era órfã, você mesma me pediu para cuidar dela.

Cecília soltou uma risada incrédula, carregada de amargura ao ouvir aquelas acusações. De fato, quando soube que Júlia era uma órfã desamparada adotada pela família Freitas após a morte do pai, sentira compaixão e pedira a Noah que a ajudasse. Mas as atitudes que eles tomaram... aquilo não merecia compaixão alguma, apenas desprezo.

O olhar dela esfriou completamente, perfurando Noah.

— Eu pedi para você cuidar dela, Noah, não para levá-la para a cama.

— Eu e a Juju não temos nada, somos inocentes! — Gritou Noah, furioso com a insinuação. — Por que você tem que ser tão desconfiada? Desde quando você se tornou tão...

O som estalado de uma bofetada cortou o ar, silenciando-o.

Noah virou o rosto com o impacto, e seus olhos escuros se arregalaram, tomados por uma incredulidade absoluta. Ela ousara bater nele!

Cecília recolheu a mão, seu belo rosto agora tomado por uma frieza inabalável.

— Noah, já que você quer tanto cuidar da Júlia, vá ficar com ela. A partir de hoje, os assuntos de vocês não me dizem respeito.

— O que você quer dizer com isso? — Noah franziu o cenho, sentindo uma irritação inexplicável crescer no peito. — Está querendo terminar comigo?

— Sim. — Respondeu Cecília, afastando uma mecha de cabelo atrás da orelha com um gesto decidido. — Vou tirar minhas coisas da mansão o mais rápido possível. E, por favor, não apareça mais na minha frente. Tenho nojo de olhar para você.

Dito isso, ela puxou Vanda pelo braço e caminhou apressadamente em direção ao carro. Noah levou alguns segundos para processar a informação. Quando seu rosto escureceu de raiva e ele fez menção de persegui-la, o veículo de Cecília já arrancava, deixando-o para trás na calçada.

O humor do homem piorou drasticamente. Ele tinha certeza de que Cecília estava apenas fazendo birra para chamar atenção; depois de tantos anos de relacionamento e sabendo o quanto ela o amava, jamais terminaria tudo tão facilmente.

O toque do celular interrompeu seus pensamentos turbulentos. Ao ver o apelido na tela, o olhar de Noah se suavizou instantaneamente, e ele atendeu com a voz mansa:

— Juju, o que houve?

— Noah, a Cecília concordou em ir ao banquete? — A voz tímida e chorosa de Júlia ecoou do outro lado da linha, tremendo de medo. — Se ela não quiser pedir desculpas em meu lugar, a família Moura nunca vai me perdoar, eles vão acabar comigo...

Meio mês antes, Júlia havia entrado em conflito com alguém em uma festa e, num impeto de raiva, empurrava a garota na piscina. Só depois descobrira que a vítima era Daniela Moura, uma jovem de saúde frágil, superprotegida pela poderosa família Moura e que raramente saía de casa. Felizmente para Júlia, a outra parte não sabia quem a empurrava, o que abriu a brecha perfeita para usar Cecília como bode expiatório.

Um brilho frio atravessou os olhos de Noah. A ardência em seu rosto era um lembrete constante do tapa que acabara de receber. Ele nem sequer tinha tempo de mencionar o banquete para Cecília, mas mesmo assim confortou Júlia com firmeza.

— Não se preocupe, eu vou resolver isso. Fique tranquila, não deixarei que nada de mal te aconteça.

— Noah, eu sabia que você era o melhor. — Celebrou Júlia, mudando o tom para alegria instantânea. — Então eu quero ir ao banquete com você! Vou escolher um vestido lindo para te acompanhar.

Noah concordou com tudo, prometendo buscá-la. Ao encerrar a chamada, sua expressão se tornou severa novamente e ele discou para seu assistente pessoal.

— Dê a ordem, corte imediatamente o financiamento do orfanato.

O assistente não escondeu o espanto do outro lado da linha.

— Senhor Noah, aquele orfanato foi onde o senhor e a senhora Cecília firmaram o compromisso de namoro. O senhor disse que, independentemente da situação, nunca deveríamos suspender a ajuda financeira a eles. Como pode...

— Faça o que eu mandei. — Noah pressionou a língua contra a parte interna da bochecha, onde fora golpeado, e seu olhar gelou ainda mais.

Ele só concordava em ajudar aquelas pessoas ano após ano porque investigava o passado de Cecília e descobria que ela crescia naquele orfanato. Era um favor exclusivo a ela.

Mas agora, Cecília tinha a audácia de levantar a mão contra ele. Claramente, ele a mimava demais todos esses anos. Estava na hora de ela aprender uma lição e entender, da maneira mais difícil, qual era o jeito certo de se comportar.
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