LOGINMariana voltou ao perceber que havia esquecido a bolsa; o silêncio entre elas se estendeu por um longo momento. Cecília ainda estava sentada no tapete rosa, os dedos entrelaçados sobre a barriga, o olhar perdido no chão de madeira. Mariana permanecia de pé, a toalha pendurada no ombro, sentindo o suor esfriar sobre a pele: — Você esqueceu sua bolsa — Cecília disse finalmente, a voz baixa. — No vestiário. Peguei para você. Ela estendeu a bolsa que Mariana havia deixado para trás. Mariana a pegou com um movimento automático, os dedos roçando os de Cecília: — Obrigada. Cecília ergueu os olhos, e havia algo diferente neles. Algo que Mariana não sabia nomear: — Não somos amigas — Cecília disse, a voz firme, sem hesitação. — E nunca vamos ser. Mariana não respondeu. Apenas esperou: — Eu sei que já passei de todos os limites — Cecília continuou, as palavras saindo devagar, como se cada uma custasse um esforço. — Sei que fiz coisas terríveis. Coisas que não têm perdão. Mas esta gestaç
Um mês depois, Londres respirava aquela luz cinzenta de outono que se filtravá pelas paredes de vidro do estúdio de pilates. O espaço era amplo, com máquinas reformer alinhadas sob a claridade suave, e um silêncio de concentração quebrado apenas pelo som das molas e pela voz paciente do instrutor.Mariana ajustou os pés na barra do reformer, as mãos segurando as alças de couro. Ela vestia uma calça preta de compressão e um top esportivo azul-marinho, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo baixo que escapava em fios finos sobre a nuca. O movimento era lento, controlado, cada alongamento exigindo dela uma concentração que ia além do físico.O tratamento contra o câncer a deixava exausta. Mas ela não deixaria transparecer.A porta de vidro deslizou com um suave chiado. Mariana não precisou levantar os olhos para saber quem era. Sentiu a presença antes de ver, uma irritação instantânea que tensionou seus ombros.Cecília entrou com a barriga já evidente sob um vestido floral justo,
Duas semanas depois, a manhã no chalé amanhecera coberta por uma névoa fina que se dissolvia lentamente sobre o lago. O ar frio das montanhas trazido pelo vento carregava o cheiro de pinho e terra molhada, e os primeiros raios de sol começavam a aquecer a varanda de madeira onde Mariana estava sentada, uma cesta de crochê apoiada no colo.Ela movia as agulhas com uma dedicação paciente, o fio azul-claro se transformando em pequenos quadrados perfeitos sob seus dedos. Ao lado, Cecília observava com uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo desleixado:— Tenta de novo — Mariana disse, a voz suave, sem o tom de julgamento que costumava marcar suas conversas.Cecília suspirou, pegando as agulhas com a mesma graça de quem segura um ouriço. Tentou repetir o movimento que Mariana lhe ensinara, mas o fio escapou das hastes, formando um nó confuso:— Não sei como você faz isso parecer tão fácil — Cecília resmungou, os dedos lutando contr
Uma semana se passou desde que chegaram ao chalé. O tempo, que antes parecia suspenso entre a neblina das montanhas e o reflexo do lago, agora se arrastava em uma rotina tensa de pequenos conflitos e tréguas forçadas.Mariana estava deitada na cama do quarto de hóspedes, o corpo pesado como chumbo. A luz da manhã filtrava-se pelas cortinas de linho, mas ela não tinha forças para se levantar. Há dias, uma fadiga inexplicável a consumia, uma exaustão profunda que o sono não curava. As dores nas costas pioravam à noite, um incômodo surdo que a fazia revirar na cama até o amanhecer.A porta se abriu sem batida. Cecília entrou, os cabelos ruivos desgrenhados, a expressão carregada de irritação mal disfarçada:— Anne mandou perguntar se você está bem — Cecília disse, a voz seca, os braços cruzados sobre o peito.Mariana suspirou, os olhos fixos no teto de madeira:— Estou bem.— Claro — Cecília torceu o nariz, os olhos percorrendo o quarto com desdém. — Você não desceu para o café da manhã.
O carro preto subiu a estrada sinuosa por quase quarenta minutos antes de finalmente desacelerar diante de um portão de ferro forjado que se abriu silenciosamente. A cabana surgiu entre as árvores como uma visão saída de um sonho alpino: vidro e madeira de carvalho escuro se fundindo com a paisagem, uma arquitetura moderna que parecia abraçar o lago cristalino aos seus pés. Montanhas verde-escuras se erguiam ao redor, cobertas por uma neblina matinal que dava ao lugar uma atmosfera de isolamento absoluto.Cecília saltou do carro antes mesmo que Márcio desligasse o motor. Seus olhos percorreram a fachada de vidro, a lareira gigante de pedra que se avistava através das janelas, o deque de madeira que se estendia sobre a água parada. Ela quase deu pulinhos de felicidade, o vermelho das bochechas por conta do frio contrastando com o brilho nos olhos:— Isto é... — ela murmurou, virando-se para Márcio com um sorriso que ele não via há dias. — Isto é incrível.Márcio pegou uma das malas del
Duas semana depois o apartamento de Cecília em Edimburgo estava uma bagunça controlada. A mala aberta sobre a cama acumulava peças de roupa que ela dobrava com pressa, os movimentos bruscos contrastando com a barriga que já começava a pesar. Um funcionário uniformizado esperava no corredor, as mãos cruzadas à frente do corpo, pronto para levar as malas até o carro. — Só mais um minuto — Cecília disse, sem olhar para ele, os dedos percorrendo as dobras de uma blusa que ela insistia em alisar. Ela terminou de fechar o zíper da mala com um puxão seco e, por um momento, ficou parada, as mãos apoiadas na cintura. O corpo pedia um alongamento depois de tanto tempo curvada sobre as roupas. Ela ergueu os braços acima da cabeça, sentindo os músculos das costas se esticarem, e então, distraidamente, deixou a mão direita descer até a barriga. Os dedos tocaram o tecido esticado da blusa, e ela fez um movimento circular, quase inconsciente, sobre o volume onde o bebê crescia. Márcio andava de







