Inicio / Romance / Depois Daquela Noite / Capítulo 5: Quem Manda Aqui

Compartir

Capítulo 5: Quem Manda Aqui

last update Fecha de publicación: 2026-08-11 21:27:42

Uma semana depois, Charles Durdday atravessou as portas do escritório com a mente já focada nos relatórios da manhã. Mas, ao erguer os olhos, parou no meio da sala.

Uma mulher loira, de meia-idade, estava sentada na mesa da secretária.

— Bom dia, senhor Durdday — ela disse, com um sotaque local carregado. — Sou a nova secretária. A Sra. Campbell fez a transferência esta manhã.

Charles piscou. Uma vez. Duas vezes.

— Onde está a Srta. Madison? — a voz saiu mais cortante do que ele pretendia.

— Ela foi realocada para o setor de arquivos, senhor. A Sra. Campbell achou que...

Ele não esperou o fim da frase. Virou-se e marchou para o escritório, os passos ecoando no mármore. A porta bateu atrás dele com um estrondo que fez o quadro na parede tremer.

O telefone foi arrancado do gancho antes que ele pensasse duas vezes:

— Recursos Humanos — a voz do outro lado atendeu.

— Aqui é Charles Durdday. Quero saber quem autorizou a transferência da Srta. Madison sem minha aprovação.

— Senhor Durdday, a Sra. Campbell...

— Não me importa o que a Sra. Campbell fez. A Srta. Madison é minha secretária. Ela foi contratada para trabalhar comigo. E quero ela de volta na minha sala ainda hoje.

— Mas, senhor, a documentação já foi...

— Escute bem — Charles baixou a voz, mas o gelo nela era cortante. — Se a Srta. Madison não estiver sentada na mesa dela em uma hora, demito todo o setor de RH. Todos. Começando por você.

Silêncio do outro lado.

— Sim, senhor. Vou resolver imediatamente.

— E mais — Charles acrescentou, os dedos apertando o fone. — Quero um aumento salarial para ela. Plano de saúde completo. E um bônus de compensação pelo transtorno. Coloque isso na carta de retorno.

— Senhor, o orçamento...

— O orçamento sou eu. Faça.

Desligou sem esperar resposta.

Passou a mão no rosto, sentindo a tensão nos ombros. Mariana. Sempre Mariana. Ela nunca blefava, nunca recuava. Mas desta vez tinha ido longe demais.

Quarenta e cinco minutos depois, a porta do escritório se abriu.

Anne Madison entrou, o cabelo negro escapando do coque, os olhos azuis-cristalinos arregalados de surpresa. Ela segurava uma pasta contra o peito, como se fosse um escudo.

— Senhor Durdday? — a voz dela estava hesitante. — Disseram que o senhor pediu meu retorno.

Charles endireitou-se na cadeira, ajustando a gravata. O nó estava torto.

— Sente-se, Srta. Madison. Temos muito trabalho a fazer.

Ela hesitou por um segundo; depois, um sorriso lento brotou nos lábios dela.

— E a gravata, senhor? — ela perguntou, aproximando-se. — Está uma bagunça.

Antes que ele pudesse responder, os dedos dela já estavam no nó, ajustando-o com a precisão de quem já conhecia aquele gesto de cor. O toque foi rápido, mas Charles sentiu o calor subir pelo rosto.

— Pronto — ela disse, os olhos encontrando os dele. — Agora está apresentável.

— O café está na sua mesa — ele respondeu, a voz mais rouca do que gostaria. — E, Srta. Madison?

— Sim?

— Não desapareça de novo.

O sorriso dela se alargou:

— Não pretendo, senhor.

A tarde já se arrastava quando Mariana apareceu na porta do escritório, os olhos azuis brilhando com uma mistura de curiosidade e determinação. Ela vestia um vestido azul-claro que contrastava com o cinza sóbrio do ambiente corporativo e trazia nas mãos uma bolsa de couro que apertava contra o corpo como se carregasse um troféu.

— Charles — ela disse, entrando sem cerimônia. — Ouvi dizer que você causou um alvoroço hoje.

Charles ergueu os olhos do relatório, os dedos ainda apoiados sobre a mesa. O nó da gravata estava impecável, graças a Anne.

— Mariana. Que surpresa desagradável.

— Desagradável? — Ela sentou-se na cadeira diante dele com uma elegância que desafiava a idade. — Vim ver com meus próprios olhos o irmão que quase demitiu o RH inteiro por causa de uma secretária.

— Por causa de uma transferência não autorizada — ele corrigiu, a voz fria. — Você sabe muito bem do que estou falando.

— Sei — Mariana inclinou a cabeça, um sorriso provocador nos lábios. — E adorei cada segundo.

— Você quer ser demitida do cargo de irmã?

— Você não teria coragem — ela respondeu, rindo baixinho. — Quem cuidaria de você?

A porta se abriu antes que Charles pudesse responder. Anne entrou com uma bandeja, os passos firmes sobre o carpete. Ela colocou uma xícara de chá diante de Mariana e uma xícara de café preto na frente de Charles, tudo com a precisão de quem já conhecia os gostos de ambos.

— Srta. Madison — Mariana agradeceu, pegando a xícara. — Você é um anjo.

— É um prazer, Sra. Campbell — Anne respondeu, com um sorriso genuíno.

Charles tomou um gole do café, os olhos fixos na irmã:

— Tudo isso é culpa sua, Mariana. Se não tivesse metido o nariz onde não foi chamada...

— Culpa minha? — Mariana arqueou uma sobrancelha. — Eu só sugeri uma realocação.

— Exatamente.

Anne pigarreou, e ambos se viraram para ela. A secretária ainda estava ao lado da mesa, os braços cruzados sobre a bandeja vazia.

— Com todo o respeito, senhor Durdday — ela disse, a voz calma, mas firme. — Acho que o senhor está sendo injusto.

Charles piscou:

— Como disse?

— A Sra. Campbell não fez nada além de uma sugestão. A transferência foi aprovada pelo RH, a documentação estava correta. Se alguém deve ter autorizado, foi o senhor. — Ela sustentou o olhar dele sem hesitar. — O senhor já tem idade suficiente para assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas, em vez de colocar a culpa na sua irmã.

Mariana soltou uma risada alta, quase musical; estava surpresa.

— Charles! Ela é perfeita. Absolutamente perfeita.

O magnata franziu o cenho, mas não havia raiva em seus olhos. Apenas surpresa.

— A empresa inteira tem medo de você, Mariana. Você sabe disso.

— Medo de mim? — Mariana riu de novo. — Não seja ridículo.

— É verdade — Charles insistiu. — Todos sabem que você é a verdadeira força por trás do império.

Anne balançou a cabeça, um sorriso contido nos lábios:

— Não é possível que tenham medo de uma pessoa tão doce como a Sra. Campbell.

Mariana lançou um olhar triunfante para o irmão:

— Viu? Até sua secretária discorda de você.

Charles suspirou, passando a mão no rosto:

— Mariana, vá para casa. Você já causou problemas suficientes por hoje.

— Não posso — ela respondeu, com um sorriso inocente. — Vim visitar meu marido.

— Como o Márcio aguenta você? — Charles franziu o cenho.

— Por que você não pergunta a ele? — Mariana deu um gole no chá, os olhos brilhando.

Anne mordeu o lábio, tentando conter o riso. A cena era absurda: o magnata todo-poderoso sendo desmontado pela própria irmã, e ela ali, servindo chá, testemunhando tudo.

— Srta. Madison — Charles disse, sem olhar para ela. — Tem algo a acrescentar?

— Não, senhor — ela respondeu, a voz trêmula do esforço para não rir. — Acho que a Sra. Campbell já disse tudo.

Mariana ergueu a xícara em um brinde silencioso para Anne, e as duas trocaram um olhar cúmplice.

Charles respirou fundo, os dedos apertando a xícara de café:

— Isso vai ser um longo dia.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 91: Sem Códigos de Honra

    Mais tarde, o ar frio da manhã tocou o rosto de Vicente assim que ele cruzou a porta do velho sobrado. Ele respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e grama cortada, um alívio imediato depois do cheiro de mofo e suor que impregnava a velha casa de infância há muito tempo abandonada. Havia acabado de conversar com os sequestradores que ele mesmo havia contratado; até agora, tudo estava correndo conforme o planejado e logo teria o dinheiro do resgate em suas mãos.Lá dentro, porém, os três homens que Vicente havia contratado para o sequestro não compartilhavam da mesma sensação de alívio. Eles estavam amontoados na sala empoeirada, as cortinas cerradas, a única luz vindo de um abajur de mesa que projetava sombras distorcidas nas paredes descascadas:— Esse filhinho de papai acha que manda em tudo, hein? — Bruno rosnou, cuspindo no chão de madeira. — Chega aqui, dá ordens, fala em soltar a ruiva antes do combinado...— Ele está nervoso — Sérgio ponderou, os dedos tamborilando na

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 90: O Fio da Meada

    O dia seguinte amanheceu cinzento sobre Londres, mas Vitória já estava de pé desde cedo, colocando água para ferver na cozinha iluminada. Ela vestia um avental sobre uma blusa de linho clara, os cabelos loiros presos de qualquer jeito, e preparava chá de hortelã quando a campainha tocou:— Vicente? Meu querido — ela exclamou ao abrir a porta, surpresa. — Não esperava visitas hoje.O filho de Vitória entrou com um sorriso rápido, os olhos um pouco inquietos sob a luz da manhã. Ele beijou o rosto da mãe com afeto, as bochechas rosadas pelo vento frio da rua:— Estava passando por perto, resolvi aparecer — ele disse, os dedos tamborilando na chave do carro.Vitória o conduziu até a cozinha, onde o chá já começava a soltar vapor:— Sente-se, vou pegar uma xícara para você. Prove estes biscoitos de aveia que fiz ontem.Vicente sentou-se à mesa, mas seus olhos vagavam pela sala, sem se fixar em nada:— Como estão as crianças? — Vitória perguntou, despejando água na xícara. — O pequeno Bruno

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 89: Sem Saída

    A noite inteira passou como um borrão de escuridão e metal frio. Mariana não conseguira pregar o olho. Passara horas tateando as paredes do porão, os dedos percorrendo cada fenda, cada parafuso, cada centímetro de concreto úmido. Nada. A porta era maciça, sem fechadura visível do lado de dentro. A única luz vinha de uma fresta estreita perto do teto, por onde a claridade cinzenta do dia seguinte começava a se infiltrar.Ninguém aparecera desde que as trancaram. Nenhuma voz, nenhum passo, nenhuma explicação. Apenas o silêncio pesado e o cheiro de mofo e terra batida.Mariana estava sentada no chão, as costas apoiadas na parede de tijolos, quando ouviu o gemido. Baixo, abafado, mas inconfundível.— Cecília?Silêncio. Depois outro gemido, mais longo.— Cecília, você está bem?— Não — a voz saiu rouca, trêmula. — Não estou.Mariana se levantou com dificuldade, as pernas dormentes, e caminhou até o canto onde Cecília estava sentada sobre uma manta fina que encontraram jogada no chão. Ela e

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 88: Pequenas Concessões

    Mariana voltou ao perceber que havia esquecido a bolsa; o silêncio entre elas se estendeu por um longo momento. Cecília ainda estava sentada no tapete rosa, os dedos entrelaçados sobre a barriga, o olhar perdido no chão de madeira. Mariana permanecia de pé, a toalha pendurada no ombro, sentindo o suor esfriar sobre a pele: — Você esqueceu sua bolsa — Cecília disse finalmente, a voz baixa. — No vestiário. Peguei para você. Ela estendeu a bolsa que Mariana havia deixado para trás. Mariana a pegou com um movimento automático, os dedos roçando os de Cecília: — Obrigada. Cecília ergueu os olhos, e havia algo diferente neles. Algo que Mariana não sabia nomear: — Não somos amigas — Cecília disse, a voz firme, sem hesitação. — E nunca vamos ser. Mariana não respondeu. Apenas esperou: — Eu sei que já passei de todos os limites — Cecília continuou, as palavras saindo devagar, como se cada uma custasse um esforço. — Sei que fiz coisas terríveis. Coisas que não têm perdão. Mas esta gestaç

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 87: O Segredo sob a Pele

    Um mês depois, Londres respirava aquela luz cinzenta de outono que se filtravá pelas paredes de vidro do estúdio de pilates. O espaço era amplo, com máquinas reformer alinhadas sob a claridade suave, e um silêncio de concentração quebrado apenas pelo som das molas e pela voz paciente do instrutor.Mariana ajustou os pés na barra do reformer, as mãos segurando as alças de couro. Ela vestia uma calça preta de compressão e um top esportivo azul-marinho, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo baixo que escapava em fios finos sobre a nuca. O movimento era lento, controlado, cada alongamento exigindo dela uma concentração que ia além do físico.O tratamento contra o câncer a deixava exausta. Mas ela não deixaria transparecer.A porta de vidro deslizou com um suave chiado. Mariana não precisou levantar os olhos para saber quem era. Sentiu a presença antes de ver, uma irritação instantânea que tensionou seus ombros.Cecília entrou com a barriga já evidente sob um vestido floral justo,

  • Depois Daquela Noite   Capítulo 86: Entre Fios

    Duas semanas depois, a manhã no chalé amanhecera coberta por uma névoa fina que se dissolvia lentamente sobre o lago. O ar frio das montanhas trazido pelo vento carregava o cheiro de pinho e terra molhada, e os primeiros raios de sol começavam a aquecer a varanda de madeira onde Mariana estava sentada, uma cesta de crochê apoiada no colo.Ela movia as agulhas com uma dedicação paciente, o fio azul-claro se transformando em pequenos quadrados perfeitos sob seus dedos. Ao lado, Cecília observava com uma expressão que misturava curiosidade e ceticismo, os cabelos ruivos presos em um rabo de cavalo desleixado:— Tenta de novo — Mariana disse, a voz suave, sem o tom de julgamento que costumava marcar suas conversas.Cecília suspirou, pegando as agulhas com a mesma graça de quem segura um ouriço. Tentou repetir o movimento que Mariana lhe ensinara, mas o fio escapou das hastes, formando um nó confuso:— Não sei como você faz isso parecer tão fácil — Cecília resmungou, os dedos lutando contr

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status