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Capítulo 154 — A Despedida na Estação

last update publish date: 2026-11-01 22:07:39

POV Thomas

O vento gelado de dezembro cortava a fachada de vidro da estação central de Bristol, misturando-se à fumaça cinzenta que escapava das caldeiras das locomotivas regionais. O relógio de ferro afixado na parede principal marcava três e quarenta da tarde. Faltavam exatamente vinte minutos para o embarque do trem com destino a Dorchester.

Eu estava parado na plataforma de embarque, vestindo o sobretudo de lona com a gola erguida contra a garoa miúda que insistia em cair. Nas mãos, segu
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    POV Thomas O beijo na plataforma da estação de Bristol não tinha nada de cauteloso ou polido. Era bruto, urgente e carregado de uma eletricidade desgovernada que ignorava completamente os olhares de centenas de passageiros que corriam para o embarque. Minhas mãos apertavam a cintura de Maíra com força suficiente para deixar marcas sob o casaco de alfaiataria, e ela respondia com a mesma fome feroz, as unhas cravadas na gola do meu sobretudo, puxando-me para mais perto como se quisesse dissolver qualquer vestígio de distância acumulada nos últimos dez anos. Mas, bem no ápice daquele torvelinho, um reflexo prateado e cortante cruzou o canto da minha visão periférica. Não era o brilho da garoa miúda batendo contra o metal dos trilhos. Era o clarão rápido, mecânico e indiscreto de uma lente de alta precisão disparando um flash a menos de vinte metros de distância, na extremidade coberta da plataforma. O meu instinto de sobrevivência, forjado por anos de discrição rigorosa e pelo esfo

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    POV Thomas O vento gelado de dezembro cortava a fachada de vidro da estação central de Bristol, misturando-se à fumaça cinzenta que escapava das caldeiras das locomotivas regionais. O relógio de ferro afixado na parede principal marcava três e quarenta da tarde. Faltavam exatamente vinte minutos para o embarque do trem com destino a Dorchester. Eu estava parado na plataforma de embarque, vestindo o sobretudo de lona com a gola erguida contra a garoa miúda que insistia em cair. Nas mãos, segurava a alça da pasta de couro pesada com os projetos originais do Severn. A vitória no tribunal havia sido limpa, definitiva e implacável. O laudo da Thorne fora anulado, a tentativa de golpe financeiro do meu pai desmoronara e a carta de demissão de Julian assinara o fim de uma era de ressentimentos corporativos. O estuário estava a salvo. A carpintaria em Port Regis continuava intocada. Tudo o que eu precisava fazer era subir no vagão, sentar na poltrona da janela e deixar Bristol para trás

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    POV Thomas O relógio de parede do plenário marcava exatamente onze horas e cinco minutos quando as portas laterais se abriram e os cinco membros da comissão reguladora retornaram aos seus assentos. O burburinho de conversas paralelas que tomava conta do salão cessou de imediato. Os advogados da Thorne reassumiram seus lugares com expressões rígidas, enquanto Julian Reed, sentado na segunda fileira, nos encarava com um ódio que parecia faiscar sob as luzes fluorescentes do teto. Eu permaneci de pé diante da bancada, com os braços apoiados na madeira escura e os documentos organizados milimetricamente à minha frente. A minha bochecha ainda latejava levemente onde Julian me atingira no saguão, mas a dor física havia sido completamente soterrada pela adrenalina fria que travava os meus músculos em um estado de alerta absoluto. O presidente da comissão ajustou os papéis sobre a mesa, pigarreou para limpar a garganta e ergueu os olhos cinzentos para o plenário. — Após analisar os anex

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    POV Thomas O eco da minha voz ainda reverberava pelas paredes de carvalho esculpido do plenário quando o presidente da comissão ajustou os óculos na ponta do nariz e bateu o martelo de madeira contra a base de apoio. — Silêncio no recinto! — ordenou o magistrado, a voz seca cortando o murmúrio de espanto que havia tomado conta dos advogados e consultores da primeira fileira. Ele inclinou o tronco para a frente, cravando os olhos em mim com uma severidade implacável. — O senhor Sterling-Vance tem a palavra para fundamentar a acusação de que o laudo técnico da Thorne Logistics é uma farsa. Proceda com os fatos, engenheiro. Sem rodeios. Senti o peso de dezenas de olhares concentrados nas minhas costas, mas mantive os ombros perfeitamente erguidos. Abri a pasta de couro e estendi sobre a mesa de mogno as cartas batimétricas originais do estuário do Severn, aquelas mesmas que eu desenhara a nanquim uma década atrás, complementadas pelas anotações e cálculos recentes que fizera nas mad

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    POV Thomas As batidas violentas de Julian continuavam a ecoar contra a madeira maciça da porta do banheiro como o martelo de uma sentença irrevogável, mas o som parecia vir de outro mundo. A centímetros de mim, Maíra ajeitava a gola do blazer cinza-chumbo com uma calma assustadora, os lábios ainda levemente inchados e úmidos pelo beijo que acabáramos de compartilhar. Havia um brilho de triunfo absoluto nos olhos castanhos dela — o olhar de quem acabara de encurralar a própria presa no centro do labirinto e sabia perfeitamente que não havia mais saída. Passei a mão pelos cabelos, respirando fundo para forçar o ritmo caótico do meu coração a desacelerar, e ajeitei a lapela do sobretudo de lona. — Se você continuar sorrindo desse jeito, Maíra, o conselho inteiro vai achar que fomos nós que aprovamos a falência da Thorne — falei em um tom ríspido, contendo a tensão que ainda vibrava em cada músculo do meu corpo. Maíra soltou uma risada baixa, rouca e perigosa, aproximando-se o sufici

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    POV Thomas O corredor do tribunal de Bristol mantinha a mesma arquitetura gótica e sufocante de décadas atrás: pilares de granito cinzento, piso de ladrilhos xadrez que ecoavam o som de cada passo apressado e um cheiro persistente de cera de assoalho misturado à umidade da garoa que caía lá fora. Faltavam poucos minutos para a abertura oficial da sessão da junta hidrográfica, e os corredores começavam a ser tomados por assessores jurídicos, engenheiros com pastas debaixo do braço e diretores corporativos trocando sussurros tensos. Entrei no banheiro masculino localizado no final do corredor leste, buscando um segundo de trégua antes de enfrentar o plenário. O ambiente estava vazio, silencioso e iluminado apenas por arandelas amareladas dispostas nas paredes de mármore falso. Caminhei até a pia de louça branca, abri a torneira e joguei uma concha de água fria direto no rosto. O choque térmico estalou na pele, ajudando a dissipar o calor persistente que ainda latejava nas minhas t

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