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Capítulo 4 — Você Não Tem Direito Sobre Eles

Autor: I aguiar
last update Data de publicação: 2026-08-19 00:42:51

CAPÍTULO 4 — TRÊS ANOS DEPOIS

— Mamãe, o Brasil fica muito longe?

Helena Duarte sorriu enquanto fechava a última mala.

— Bastante.

— Mais longe que a casa da tia Laura?

— Muito mais.

O menino pareceu considerar a informação por alguns segundos.

— Então o avião vai ter comida?

Helena riu.

— Essa é a sua preocupação?

— É importante.

Do outro lado do quarto, o irmão gêmeo levantou a cabeça.

— Eu quero chocolate.

— Vocês dois querem tudo.

— Porque somos dois — ele respondeu, muito sério.

Helena não conseguiu evitar a risada.

Três anos.

Às vezes parecia uma vida inteira.

Em outras, parecia que havia sido ontem.

Três anos desde que chegara a Lisboa carregando duas pequenas vidas e um coração destruído.

Três anos desde que decidira que jamais voltaria a depender de Valente Ferraz.

E conseguira.

Não fora fácil.

Houve noites em que chorou escondida no banheiro para que ninguém a ouvisse.

Meses em que o medo de não dar conta parecia maior que ela.

A gravidez.

O nascimento dos meninos.

As primeiras febres.

As primeiras noites sem dormir.

Os primeiros passos.

As primeiras palavras.

Helena viveu tudo.

Sozinha.

Ou quase.

Laura esteve ao seu lado sempre que pôde.

Mas havia momentos em que nenhuma irmã, amiga ou pessoa no mundo conseguia ocupar o espaço deixado por alguém que deveria estar ali.

Valente deveria ter visto tudo.

E não viu.

Helena respirou fundo.

Não.

Não pensaria nisso.

— Mamãe?

Ela voltou à realidade.

Um dos meninos estava diante dela.

— O que foi?

— Você ficou triste.

Helena se abaixou.

— Não fiquei.

Ele estreitou os olhos.

Aquele olhar.

Helena sentiu o coração apertar.

Era assustador.

Quanto mais cresciam, mais difícil se tornava ignorar certas semelhanças.

O formato dos olhos.

A maneira séria de observar as pessoas.

Até aquele pequeno franzir de testa quando alguma coisa não fazia sentido.

Valente fazia exatamente aquilo.

— Ficou, sim — o menino insistiu.

Helena beijou sua testa.

— Mamãe só estava pensando.

— No Brasil?

Ela hesitou.

— No Brasil.

O outro se aproximou.

— Nosso pai mora lá?

Helena congelou.

A pergunta não era nova.

Mas nunca ficava mais fácil.

— Mora.

— Ele sabe que a gente existe?

Dessa vez, ela não conseguiu responder imediatamente.

Os dois esperaram.

Helena sentiu a culpa apertar seu peito.

— É uma história complicada.

— Por quê?

Porque ele não confiou em mim.

Porque eu estava destruída.

Porque tive medo.

Porque quando descobri vocês, eu já não reconhecia o homem com quem havia me casado.

Nenhuma dessas respostas cabia em uma conversa com duas crianças de três anos.

— Porque algumas histórias de adultos são difíceis de explicar.

Um deles fez uma careta.

— Adulto complica tudo.

Helena sorriu.

— Isso é verdade.

— A gente vai conhecer ele?

A pergunta atingiu exatamente onde ela temia.

Helena passou a mão pelos cabelos do filho.

— Agora vamos terminar as malas.

Não era uma resposta.

Os meninos perceberam.

Mas, para sua sorte, três anos também significavam que a atenção deles podia ser desviada facilmente.

— Quem guardar os brinquedos primeiro escolhe o filme no avião.

Os dois correram imediatamente.

Helena permaneceu ajoelhada.

Seu sorriso desapareceu.

Voltar para São Paulo parecia uma boa ideia quando estava a milhares de quilômetros de distância.

Agora já não tinha tanta certeza.

***

Valente Ferraz observava São Paulo através das paredes de vidro do escritório.

Três anos.

Mil e noventa e cinco dias.

Ele não precisava fazer a conta.

Já fizera vezes demais.

Nos primeiros meses, procurara Helena obsessivamente.

Investigadores.

Contatos.

Empresas.

Endereços.

Sabia que ela chegara a Lisboa.

Depois disso, Helena Duarte simplesmente desaparecera.

Sem cartões em seu nome.

Sem endereço facilmente rastreável.

Sem redes sociais.

Nada que a levasse de volta até ele.

Em algum momento, Valente entendeu.

Helena não estava perdida.

Ela estava escondida.

Dele.

E ele não podia culpá-la.

Sobre a mesa havia uma pasta que Valente nunca guardava.

Dentro dela estavam as provas da falsificação das mensagens.

Três anos depois, ainda as conservava.

Talvez como punição.

Talvez porque precisasse lembrar todos os dias do preço que pagara por não confiar na própria esposa.

Carolina não fazia mais parte de sua vida.

Depois daquela noite, a relação entre os irmãos nunca voltou a ser a mesma.

Ela continuara insistindo que agira sozinha.

Valente nunca acreditou.

Principalmente por causa da mensagem que recebera no aeroporto.

“Algumas mulheres precisam desaparecer para que tudo permaneça no lugar.”

Nunca descobriram quem enviou.

A porta se abriu.

— Senhor Ferraz.

Valente não se virou.

— Fale.

— Encontramos Helena.

O mundo parou.

Ele virou lentamente.

— O quê?

O investigador colocou uma pasta sobre a mesa.

— Helena Duarte entrou no Brasil hoje pela manhã.

Valente ficou imóvel.

Por três anos, imaginara aquele momento.

Agora que havia chegado, não sabia o que sentir.

— Onde ela está?

— São Paulo.

Valente fechou os olhos por um instante.

Na mesma cidade.

Helena estava na mesma cidade.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Onde está hospedada?

— Temos um endereço.

Valente abriu a pasta.

Havia uma fotografia.

Helena.

Seu coração bateu forte.

Ela estava diferente.

Os cabelos estavam um pouco mais longos.

A postura, mais segura.

Havia alguma coisa no olhar que não existia antes.

A mulher daquela fotografia não parecia a Helena que chorara enquanto assinava o divórcio.

Ela parecia...

forte.

Linda.

Valente passou os olhos pela imagem.

E parou.

Havia duas crianças ao lado dela.

Dois meninos.

Ele franziu a testa.

— Quem são?

— Ainda não conseguimos confirmar.

Valente continuou olhando.

Os dois pareciam ter aproximadamente a mesma idade.

Gêmeos, talvez.

— São filhos dela?

— Provavelmente.

Alguma coisa apertou o peito de Valente.

Helena tinha filhos.

Durante três anos, ele imaginara inúmeras vezes como seria encontrá-la.

Nunca imaginara aquilo.

— Descubra quem é o pai.

O investigador assentiu.

— E não se aproxime dela.

O homem pareceu surpreso.

— Senhor?

— Eu mesmo vou fazer isso.

***

Helena entrou no restaurante segurando uma mãozinha de cada lado.

— Sem correr.

— Eu não estou correndo.

— Está quase.

— Qu

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