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Capítulo 4

Author: Romênia
last update publish date: 2026-09-21 11:39:37

No sábado à noite, estavam sentados no sofá, com taças de vinho na mão. Brenon mexia no celular, distraído. Nadira observava o reflexo deles no vidro da janela.

— A gente quase não conversa mais Bre. — ela disse, de repente.

— Poxa, você folgou hoje e estamos aqui.

Ele levantou o olhar, surpreso.

— Como assim vida?

— Conversa de verdade. — ela explicou, sem rodeios.

— Não sobre contas, agenda, quem vai fazer o quê. Conversa… nossa. Sei lá.

Brenon pensou um pouco.

— A rotina tá pesada, amor. Você sabe. Tô caindo de sono. Desculpa.

— Eu sei — ela suspirou.

— Eu só sinto falta. Da nossa liberdade.

Ele largou o celular, se aproximou e beijou a boca dela. Apertando seus se.ios.

— A gente se ama. Isso não mudou. A velhice tá batendo, na porta.

Ela sorriu, mas não respondeu, afastou a mão dele, se deitou e mudou o canal da televisão. Fingiu estar com sono. Não quis tran.sar e dormiu cedo.

Naquela noite, Nadira foi dormir com uma sensação estranha no peito. Não era tristeza. Não era raiva. Era uma inquietação silenciosa, como se algo estivesse fora do lugar, mesmo sem saber exatamente o quê.

Ela não imaginava, nem de longe, que aquele desconforto seria o início de algo que mudaria tudo. Não só o casamento, mas a forma como ela se via, se desejava e se permitia sentir.

O aniversário de casamento estava chegando e, apesar da rotina corrida, aquele era mais um ano cheio de planos. Brenon sempre valorizou datas. Para ele, marcar o tempo era uma forma de reafirmar o amor. Nunca foi um homem econômico em gestos, gostava de surpreender, de criar momentos, de fazer barulho quando sentia que algo precisava ser lembrado.

E ele sentia, que nos últimos dias, Nadira estava diferente. Não era exatamente tristeza. Era inquietação. Um olhar mais distante, um silêncio mais longo, um sorriso que demorava a chegar. Brenon percebeu. Ele sempre percebeu. Só não sabia a razão exata. Imaginou que fosse ansiedade, idade, hormônios, talvez uma fase. Nadira estava chegando aos quarenta e ele sabia que isso pesava, ainda mais para uma mulher tão consciente do próprio corpo.

Então decidiu fazer algo simples. Fechou o restaurante no meio da semana. Inventou uma folga geral, dispensou a equipe, decorou tudo sozinho. Colocou velas, flores, música baixa. Um jantar romântico completo. Ele mesmo ia cozinhar. Fez questão de ligar para ela a tarde.

— Vida. Se arruma e vem pro restaurante hoje à noite. — disse, com um tom misterioso.

— Hoje? — Nadira riu do outro lado da linha.

— O que foi agora? Tem comida, em casa.

— Confia em mim. Teimosa. — Ele disse rindo. — Vai se arrumar e vem.

Ela achou que iam jantar como sempre, talvez comemorar com alguns conhecidos, beber um bom vinho. Gostava de encontrá-lo ali. Era o território dele. O lugar onde ele brilhava e ela o exaltava.

Nadira se arrumou com calma. Foi ao salão, fez as unhas, cuidou do cabelo. Era uma mulher negra de corpo lindo, saudável, disciplinada. Fazia academia, pilates, ioga. O cuidado com o corpo sempre foi também uma forma de lidar com a falta que sentia, da família que não veio, os filhos que não existiriam. Se não podia viver aquela maternidade idealizada, viveria a vida real com intensidade.

Naquele dia, estava especialmente bonita. Comprou um vestido vermelho de um ombro só, justo ao corpo, na altura do joelho. Elegante, sem exageros. Colocou salto alto. Fez a maquiagem bem elaborada, no salão de beleza: olhos dourados esfumados, delineado gatinho marcante, batom vermelho intenso. O cabelo preto, liso e comprido, ganhou uma ondulação larga, suave, que a deixava mais segura de si.

Quando entrou no restaurante, já sentiu o impacto. Ele estava vazio. Iluminado apenas por velas. Música romântica tocando ao fundo.

— Bre? — chamou, surpresa. — Cadê todo mundo?

Ele apareceu do nada, com o celular na mão, a filmando.

— Você é a minha convidada, de honra. — disse, aproximando-se. Beijou-a sutilmente na boca, a abraçou forte.

— Parabéns para nós, vida. Gostou?

— Eu tô muito feliz. Por nós. — Disse ela surpresa.

— O que é isso tudo? — ela riu, olhando ao redor.

— Calma. Ainda não é meia-noite. — Ele disse, a levando se sentar.

— Presente com hora marcada agora? — Nadira brincou.

— Gostei.

Ele começou a encher as taças. Falou com charme.

— Assim que der meia-noite eu te entrego. Afinal, o aniversário é amanhã.

Ela sorriu, admirando tudo, fotografando.

— É ótimo. Eu adoro ganhar presentes. Confesso que estou ansiosa. Será um upgrade, no carro? Viagem?

— Eu também pensei nisso. — ele respondeu, com aquele sorriso que ela conhecia tão bem.

— Mas você errou.

Brenon serviu um vinho caro, gostoso. Começou a cozinhar para ela, como fazia nos primeiros anos. Conversavam enquanto ele preparava os pratos, falando sobre viagens, possibilidades, datas.

— A gente podia sair do país dessa vez. — Nadira comentou, distraída.

— Eu tava pensando nisso — ele respondeu.

— Talvez México. Ou algo completamente fora do óbvio, simples, confortável.

Ele sempre foi assim. Imediatista. Do nada chegava em casa e dizia que no dia seguinte não trabalharia. Mandava ela desmarcar a agenda e partiam, viajar. Às vezes acordava num domingo dizendo que ia trocar de carro. Ou comprar uma moto. E realmente fazia. Valorizava a liberdade acima de tudo. Era por isso, também, que nunca quis filhos.

"Eu gosto de poder ir e vir!" — ele já tinha dito uma vez.

"Se eu quiser trabalhar, eu trabalho. Se não quiser, não vou. Se eu quiser viajar amanhã, eu viajo. Se eu quiser tomar um porre numa segunda-feira de manhã… eu tomo."

Nadira gostava disso nele. Sempre gostou.

Mas naquele último ano, Brenon tinha se dedicado demais ao restaurante. Eles estavam curtindo mais o dia a dia do que planos longos. Pequenas escapadas, feriados, noites rápidas. A vida estava boa… mas contida, limitada.

Sentaram-se para jantar. À luz de velas. Ouvindo música animada, salsa. A conversa estava leve, tiraram fotos. E, de repente, deu meia-noite.

Nadira nem estava esperando que ele fosse levar aquilo tão a sério. Brenon se abaixou atrás do balcão e voltou com uma caixinha de papelão bonita, dourada, com listras vermelhas e uma fita de cetim preta.

— Feliz aniversário de casamento, gostosa. — disse com malícia.

Ela riu, pegando a caixa.

— Mais uma joia? Hummmm.

— Abre. — Ele disse e piscou exalando charme.

Dentro, tinha uma lingerie preta e vermelha, fina, provocante. Nadira sorriu, segurando a peça nas mãos.

— Uau, é linda amor… — comentou.

Brenon a observava com um sorriso diferente. Saffado. Expectante.

— Meu amor. — ele começou a olhando nos olhos.

— Eu tenho uma proposta pra te fazer.

Ela levantou o olhar, curiosa.

— Proposta? — Perguntou curiosa.

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