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    Desejos e traição
Desejos e traição
Author: Luana

Capítulo 1

Author: Luana
last update publish date: 2026-07-16 20:50:42

Meu nome é Priscila.

Tenho dezenove anos e, até onde eu sabia, minha vida era igual à de qualquer outra garota da minha idade.

Acordava cedo, ajudava minha mãe quando precisava, fazia meus planos para o futuro e passava boa parte do tempo na casa da minha melhor amiga.

Se alguém me perguntasse naquela época qual era o maior problema da minha vida, eu provavelmente responderia que era acordar cedo demais.

Mal sabia eu que o destino tinha um jeito curioso de rir dos nossos planos.

— Priscila!

A voz da minha mãe atravessou a porta do quarto.

Virei para o outro lado da cama.

— Só mais cinco minutos...

— Você disse isso faz vinte.

Sorri de olhos fechados.

— Agora é sério.

Ela riu do outro lado.

— Você fala isso todo dia.

Ouvi seus passos se afastando pelo corredor.

Abri um dos olhos e olhei para o relógio.

Oito horas.

— Meu Deus...

Sentei na cama bagunçando ainda mais meu cabelo.

Peguei o celular.

Nenhuma novidade.

Nem mensagem.

Nem ligação.

Joguei o aparelho na cama outra vez.

Levantei devagar e fui até a janela.

O morro já estava completamente acordado.

Uma criança corria atrás de uma bola.

Uma senhora varria a calçada.

Dois rapazes descarregavam caixas de um caminhão.

Era uma manhã comum.

Como tantas outras.

Às vezes eu ficava imaginando como seria morar em outro lugar.

Depois desistia da ideia.

Eu gostava dali.

Conhecia cada rua, cada escadaria, cada vizinho.

Todo mundo conhecia todo mundo.

E isso tinha suas vantagens.

Também tinha seus perigos.

Porque naquele morro existia alguém que mandava em tudo.

Não era segredo para ninguém.

Carlos.

Bastava ouvir esse nome para qualquer conversa mudar de tom.

Ninguém falava dele rindo.

Ninguém fazia brincadeira.

Era respeito.

Ou medo.

Talvez os dois.

Nunca procurei saber exatamente tudo o que ele fazia.

Sempre ouvi comentários.

Uns diziam que era envolvido com coisas erradas.

Outros diziam que ele ajudava mais gente do que muito político.

Eu nunca soube onde terminava a verdade e começavam as histórias inventadas.

Só sabia de uma coisa.

Quando Carlos passava, ninguém fingia que ele não existia.

Todo mundo abaixava a cabeça em sinal de respeito.

Ou simplesmente saía do caminho.

Engraçado...

Mesmo sendo amiga da Fernanda há tantos anos, eu nunca consegui me acostumar com isso.

A primeira vez que entrei na casa dela eu devia ter uns treze anos.

Lembro que vi Carlos apenas de longe.

Ele entrou, falou alguma coisa com Amanda e saiu poucos minutos depois.

Nem olhou para mim.

Na época achei até engraçado.

Pensei:

"Nossa... que homem antipático."

Com o tempo percebi que não era implicância comigo.

Ele era assim com todo mundo.

Falava pouco.

Sorria menos ainda.

E parecia carregar um peso enorme nas costas.

Nunca o vi conversando à toa na rua.

Nunca o vi sentado em bar.

Nunca o vi cercado de mulheres, como acontecia com tantos homens bonitos.

Na verdade...

Nunca vi Carlos dando confiança para mulher nenhuma.

Nem para mim.

E, sendo sincera, eu também nunca dei motivo para isso.

Sempre fui apenas a amiga da Fernanda.

Nada além.

Meu celular vibrou sobre a cama.

Sorri antes mesmo de olhar.

Fernanda.

Fernanda: Tá viva?

Comecei a rir sozinha.

Eu: Infelizmente.

A resposta veio na mesma hora.

Fernanda: Cinco minutos.

Arregalei os olhos.

Eu: Cinco minutos pra quê?

Ela mandou um áudio.

— Tô indo pra sua casa. Levanta.

Nem tive tempo de responder.

Ouvi uma buzina lá fora.

Balancei a cabeça.

— Essa menina é maluca...

Troquei de roupa às pressas.

Passei um perfume.

Prendi o cabelo em um rabo de cavalo.

Nem terminei de calçar o tênis quando ouvi a voz dela lá na rua.

— Pri!

Respirei fundo.

— Nem parece que mora a cinco minutos daqui...

Desci correndo.

Assim que abri o portão, Fernanda cruzou os braços.

— Demorou.

— Eu?

— Claro.

— Você me avisou faz dois minutos.

Ela deu de ombros.

— Foi tempo suficiente.

Comecei a rir.

Fernanda era completamente diferente de mim.

Enquanto eu pensava antes de falar, ela falava antes de pensar.

Enquanto eu gostava de calma, ela vivia na correria.

Talvez fosse exatamente por isso que nossa amizade dava tão certo.

Ela segurou meu braço.

— Bora.

— Pra onde?

— Pra casa.

— Acabei de sair da minha.

Ela revirou os olhos.

— Pra minha casa.

— Ah...

— Minha mãe pediu pra você ir lá.

— Ela pediu mesmo ou foi você?

Fernanda abriu um sorriso daqueles que entregavam qualquer mentira.

— Talvez tenha sido eu.

Empurrei seu ombro.

— Eu sabia.

Começamos a subir a rua conversando.

Ela falava de tudo.

Da vizinha.

Da faculdade.

Do rapaz que estava tentando chamar a atenção dela.

Eu só ria.

Às vezes nem respondia.

Gostava mais de ouvir do que falar.

Quando dobramos a esquina, alguns homens parados perto de uma caminhonete endireitaram a postura.

Olharam para baixo da rua.

Não precisei perguntar o motivo.

Um carro preto subia lentamente.

A conversa ao nosso redor simplesmente desapareceu.

Fernanda também percebeu.

— O Carlos tá chegando...

Sem perceber, acompanhei o olhar dela.

O carro parou alguns metros à frente.

A porta se abriu.

Carlos desceu.

Não olhou para os lados.

Um dos rapazes caminhou imediatamente até ele para falar alguma coisa.

Carlos ouviu tudo em silêncio.

Fez apenas uma pergunta.

O rapaz respondeu abaixando a cabeça.

Mesmo de longe, dava para perceber quem mandava ali.

Não era preciso levantar a voz.

Não era preciso ameaçar ninguém.

A presença dele já dizia tudo.

Eu continuei olhando por alguns segundos.

Mais do que devia.

Ele estava de camisa preta, mangas dobradas até o cotovelo. Os braços cruzados enquanto ouvia o rapaz. O maxilar travado. Os olhos escuros, sérios, sem pressa nenhuma.

Engoli seco.

Fernanda puxou meu braço.

— Vem, Pri.

Desviei os olhos rápido.

— Hã?

Ela deu uma risadinha.

— Tava viajando?

— Não... só distraída.

Ela balançou a cabeça.

— Bonito ele é, né? Até eu admito. Mas é meu padrasto, então é estranho demais pensar nisso.

Soltou uma gargalhada e voltou a andar puxando meu braço.

— Enfim. Sábado a gente vai naquela festa que eu te falei. Sem discussão.

— Que festa?

— A da Jéssica. Já falei três vezes.

— Não lembro de nenhuma.

— Porque você nunca presta atenção.

Comecei a rir.

Ela continuou falando.

Da festa.

De pintar o cabelo.

De um vestido que tinha visto numa loja.

Eu respondia no automático.

Porque minha cabeça ainda estava ali.

Na camisa preta.

Nos braços cruzados.

No maxilar travado.

Nos olhos que não olharam pra mim nenhuma vez.

Nenhuma.

E mesmo assim eu não conseguia parar de pensar nele.

Balancei a cabeça tentando espantar aquilo.

Não adiantou.

Carlos era o tipo de homem que ficava na sua cabeça depois que passava.

E o pior...

Ele era o padrasto da minha melhor amiga.

E ela não fazia a menor ideia do que eu sentia cada vez que ele passava.

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