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Capítulo 4

Penulis: Doce de Nori
Tudo mudou quando ele disse que "mulher casada precisa de estabilidade". Por causa dessa frase, abri mão de um convite para estudar no exterior e enterrei os meus sonhos. Depois que o nosso filho nasceu, fiquei presa nas amarras do lar. Qualquer imprevisto da casa exigia o sacrifício do meu tempo de trabalho e das minhas horas de descanso.

Ainda assim, toda a minha dedicação nunca teve valor. Pelo contrário, fui alvo do desprezo diário daqueles dois. O golpe final foi eles usarem outra mulher para pisotear a pouca dignidade que me restava.

Respirei fundo ao entrar na sala do diretor e entreguei a minha carta de demissão. O homem arregalou os olhos, mas logo balançou a cabeça em sinal de compreensão.

— O seu talento sempre foi grande demais para ficar preso aqui. Já sabe para onde vai? E quando?

Acariciei o envelope grosso dentro da bolsa. Era a carta de aprovação do departamento de arquitetura da Universidade de Cambridge.

— Inglaterra. Meu voo sai depois de amanhã.

Enquanto eu esvaziava as gavetas da minha mesa, a minha colega Linda se aproximou a passos curtos.

— Sandra, o pessoal tá comentando que você vai embora do país. Mas e o Leonardo e o Thomas? Como eles ficam?

Peguei o porta-retratos de cima da mesa e o virei de cabeça para baixo. A imagem da nossa família feliz sumiu na escuridão da gaveta.

— Vamos assinar o divórcio. Em breve eles terão uma nova esposa e uma nova mãe para cuidar da casa.

Linda abriu a boca para falar algo, mas pensou melhor e ficou em silêncio.

Quando saí do escritório, a noite já havia caído. Ao pisar em casa, a luz do sensor de presença clareou a sala. A primeira coisa que vi foi uma mala grande escancarada no chão. Leonardo enfiava um casaco do menino lá dentro, enquanto Thomas aguardava ao lado, agarrado a uma mochila nova de dinossauro, com os olhos brilhando de expectativa.

No aparador da entrada, repousava a sacola de uma grife caríssima. Era justo a bolsa de luxo que Viviana havia postado nas redes sociais desejando dias atrás.

Ao perceber a minha chegada, Leonardo nem se deu ao trabalho de levantar os olhos e disse:

— Surgiu uma viagem de negócios de última hora. Vou levar o Thomas comigo.

O toque do celular cortou o silêncio da sala. Ele atendeu com pressa. A risada doce de Viviana vazou pelo alto-falante e os olhos dele se fecharam numa expressão de puro prazer, como um gato recebendo carinho.

Eu conhecia muito bem aquele rosto. Era a exata mesma expressão que ele usava há cinco anos, quando tentava me conquistar.

Ao notar o meu olhar fixo nele, o sorriso desapareceu do seu rosto e ele desligou a chamada na mesma hora.

— Já que você não tá com vontade de cuidar do menino esses dias, vou levar ele comigo. Algum problema?

Mantive a boca fechada. Não havia energia para brigas, nem vontade de justificar nada.

"Ele pode levar o menino para onde quiser", pensei comigo.

Ele amarrou os sapatos com agilidade e puxou o menino pela mão para fora. O estrondo da porta de ferro batendo fez o nosso quadro de casamento despencar da parede da sala. O som do vidro estilhaçando no chão ecoou pelo corredor vazio, com um tom cristalino e agradável aos meus ouvidos. Me abaixei para recolher os cacos, um por um. E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma paz inexplicável no peito.

Antes de dormir, uma notificação das redes sociais de Viviana pulou na tela do meu celular.

A legenda dizia: [Quem te ama de verdade, guarda os seus desejos na memória.]

Na foto, Thomas aparecia no meio dos dois, com um sorriso largo. A cabeça de Viviana repousava no ombro de Leonardo num gesto de intimidade profunda. Pareciam a família perfeita de comercial de margarina. E lá estava ela, no canto da mesa, a bolsa de edição limitada que ele havia levado de casa no dia anterior.

A caixa de comentários estava mais agitada que festa de casamento. Heitor, o melhor amigo de Leonardo, puxava o coro das brincadeiras: [Essa bolsa custa um milhão! O Leonardo não poupa dinheiro para ver a gata sorrir, hein!]

Na mesma hora, lembrei do meu último aniversário, quando ganhei um lenço comprado na arara de liquidação do shopping. Heitor também estava presente naquele dia e fez questão de debochar:

— Um lençozinho de mil reais, Leonardo? É assim que você valoriza a Sandra?

Leonardo não alterou a voz para responder:

— Ela gosta dessas coisas baratas de promoção.

Naquele dia, apertei o tecido entre os dedos e engoli seco. Nenhum deles fazia ideia de que eu só frequentava as seções de queima de estoque para economizar dinheiro e poder comprar roupas de marca para o meu marido e o meu filho.

Mas a verdade é que os amigos de Leonardo nunca me trataram com o menor pingo de respeito ao longo de todos esses anos. Eles não apenas me olhavam de cima para baixo, como viviam fofocando pelas minhas costas. As palavras deles sempre chegavam aos meus ouvidos: "A Viviana é mais nova, tem diploma de universidade de ponta e sabe lidar com as pessoas. A Sandra é neurótica o tempo todo, dá preguiça só de olhar."

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