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Desta Vez, Estou Abrindo Mão de Vocês

Desta Vez, Estou Abrindo Mão de Vocês

By:  Doce de NoriCompleted
Language: Portuguese
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No Dia das Crianças, a fofoca mais quente que circulava no Instagram envolvia o meu nome. A legenda da foto perguntava em tom de deboche: [O Leonardo levou o filho para comemorar o aniversário da sua eterna paixão. Será que ele finalmente vai pedir o divórcio para a Sandra?] Curti a publicação em silêncio. Quando o meu celular tocou, eu estava no meio da sala, estourando um por um os balões que havia comprado para comemorar o nosso aniversário de casamento. — Meu amor... — A voz do meu marido soava afobada do outro lado da linha, tentando armar uma desculpa esfarrapada para a sua atitude. — O nosso filho começou a chorar do nada, implorando para ir ao parque de diversões, por isso acabei... Ao fundo da ligação, consegui ouvir a risada cristalina do menino: — Papai, a Sra. Viviana disse que posso dormir na casa dela hoje! Encarei a bagunça ao meu redor. Os enfeites murchos pelo chão e a cobertura do bolo já endurecida pareciam zombar da minha cara. — Não precisa se explicar. — Respondi, com uma frieza que até a mim assustou. — Entendo tudo. "Pode ficar tranquilo, Leonardo", pensei, respirando fundo e aceitando a realidade. "Porque desta vez, estou abrindo mão tanto de você quanto do nosso filho."

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Chapter 1

Capítulo 1

Quando Leonardo Gomes finalmente pisou em casa com o menino, eu continuava encolhida no sofá, com os olhos fixos na televisão. Em qualquer outro dia, eu teria corrido para a porta, entregue os chinelos nas mãos dele e enchido o rosto do nosso filho de beijos. Hoje, no entanto, eu não movi um músculo.

— Mamãe, por que você não veio me dar um abraço hoje? — O garoto reclamou, cruzando os bracinhos com indignação.

— Sandra, cadê os meus chinelos? Vai me deixar procurando pelo chão? — Leonardo emendou, visivelmente incomodado com a falta de recepção calorosa de sempre.

Apenas aumentei o volume da TV e respondi sem desviar o olhar da tela:

— Estou ocupada.

Ele tirou os sapatos com calma, empurrou o menino de leve para dentro da sala e parou na minha frente, cruzando os braços com ar de superioridade.

— Você não vai me dizer que ainda está fazendo birra por causa daquela bobagem, Sandra? Hoje é o Dia das Crianças, o Thomas cismou de última hora que queria ir ao parque e eu não podia estragar a alegria dele. Sabe muito bem que não dou conta de cuidar de uma criança agitada sozinho, então chamei a Viviana para ajudar. Quantas vezes vou precisar repetir a mesma história para você parar com o ciúme cego?

O Thomas fez um bico enorme e bateu o pé no chão da sala.

— Você sempre fica brava por nada, mamãe! A Sra. Viviana nunca fica com essa cara feia para a gente!

Leonardo acariciou os cabelos do filho com uma ternura que me embrulhou o estômago. Depois, voltou a atenção para mim, com um tom de forte repreensão.

— Escutou isso? Até a criança já percebeu o seu descontrole. Quando é que você vai crescer, Sandra? Estou aqui tentando conversar porque tenho consideração por você, mas essa sua mania de fazer drama por qualquer coisa precisa ter um limite.

Mudei de canal, mantendo a voz monótona e vazia de qualquer sentimento.

— Eu não estou brava. Já disse que entendo.

"E como eu entendo. Nunca tive tanta clareza das coisas como agora", pensei em silêncio.

A cena do ano passado passou como um filme pela minha cabeça. Aquela vez em que sofri um acidente de carro e comecei a perder muito sangue. Liguei para ele em pânico, implorando por ajuda, mas a única coisa que recebi foi uma resposta ríspida ao telefone.

— Estou no meio de uma urgência aqui, passo no hospital mais tarde! Chama o SAMU e resolve isso!

Pelo telefone, ouvi a voz animada do Thomas no fundo da ligação:

— Papai, vem logo ver! A gente achou o gatinho da Sra. Viviana, vem dar um abraço nela para ela parar de chorar!

Enquanto aquela mulher chorava por um gato desaparecido, eu sangrava no asfalto frio, ligando sozinha para a ambulância. Horas depois, no hospital, preenchi a lacuna de assinatura do responsável no termo de consentimento da cirurgia com as minhas próprias mãos trêmulas. Escrevi apenas uma frase que definiu o meu casamento: paciente sem acompanhante.

Leonardo analisou o meu rosto por alguns segundos, procurando algum traço da esposa submissa de sempre, e soltou um suspiro exausto de quem perdeu a paciência.

— Você precisa mesmo agir desse jeito infantil?

Virei o rosto e encarei os olhos dele, sustentando o olhar com uma firmeza inédita.

— Desse jeito como?

O silêncio tomou conta da sala, denso e pesado. Sem paciência para lidar com o meu comportamento, ele abriu a pasta de trabalho, tirou uma caixinha de veludo escuro e jogou de qualquer jeito sobre a mesa de centro.

— Pega. Feliz aniversário de casamento.

Abri a tampa e olhei para a corrente de ouro brilhante. O pingente, no entanto, revelava tudo o que eu precisava saber, trazia as iniciais 'VL' cravadas no metal, uma abreviação de Viviana Lima.

Um sorriso amargo escapou dos meus lábios. Até o presente para celebrar a nossa união era uma sobra, um descarte que não serviu para a amante.

"Que ironia!", pensei comigo mesma. "No aniversário da Viviana, ele e o Thomas passaram a tarde inteira em uma confeitaria badalada, de avental, assando um bolo artesanal só para ela."

— Obrigada. — Sussurrei, com a voz sem sobressaltos, passando o dedo pelas letras pontiagudas que feriam os meus olhos.

O meu tom apático o tirou do sério. Ele levantou do sofá de um salto, gesticulando com força na minha direção.

— Fomos nós dois que escolhemos isso para você com o maior cuidado! Não vai dar nem um sorriso de agradecimento? Ficou insatisfeita com o presente?

— Adorei. Obrigada mesmo. — Repeti, fechando a caixinha com um estalo seco.

Ele congelou no lugar, como se tivesse levado um soco no estômago. Afinal, eu o havia acostumado muito mal. Em todos os nossos anos juntos, qualquer brinde barato de festa da empresa que ele me trouxesse era recebido com festa, beijos apaixonados e declarações de amor gratuitas. Era a primeira vez na vida que a sua esposa não pulava de alegria por receber as suas migalhas de atenção.

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