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Capítulo 2

مؤلف: Doce de Nori
Para as nossas datas especiais, eu costumava planejar tudo com meses de antecedência. Encomendava álbuns de fotos exclusivos, passava dias editando vídeos com os nossos melhores momentos e até pegava voos de madrugada para enfeitar o quarto de hotel na cidade onde ele estivesse trabalhando.

Mas a magia havia acabado. Sem pensar duas vezes, joguei a caixa de veludo na lixeira da cozinha. Fui até o quarto, peguei a minha bolsa de couro, calcei as botas e caminhei em direção à porta da rua.

Leonardo correu atrás de mim e agarrou o meu braço, com as sobrancelhas franzidas em pura indignação pelo meu atrevimento.

— Onde você pensa que vai a uma hora dessas, Sandra? O Thomas está deitado esperando você contar história para ele dormir.

Olhei para a mão dele apertando o meu pulso e soltei uma risada debochada.

— Chega a ser cômico você me cobrar isso agora, Leonardo. Quando você saía no meio da madrugada e eu perguntava o seu destino, a sua desculpa era sempre a mesma. Dizia que eu era invasiva e não respeitava o seu espaço. Hoje, quando decido cuidar da minha própria vida sem te dar satisfação, você resolve bancar o marido controlador?

Puxei o meu braço com força e saí, sem olhar para trás. No momento em que bati a pesada porta de madeira, a voz dele ecoou pelo corredor do prédio, carregada de fúria e soberba.

— Continua com esse chilique! Se você passar daquela porta hoje, pode fazer as malas e esquecer de voltar para esta casa!

A ameaça dele transbordava a certeza absoluta de que eu correria de volta para os seus braços, aterrorizada com a ideia do abandono. Pura ilusão. Desci as escadas do prédio com passos firmes, exibindo um sorriso carregado de desdém por toda a situação.

Na cabeça daquele homem prepotente, eu era apenas a palhaça submissa do nosso circo particular, que dependia dele para respirar e jamais teria coragem de romper a bolha. O que ele ignorava é que todo palhaço cansa de pintar um sorriso falso no rosto. A nossa relação havia virado um triângulo amoroso insuportável, e eu estava decidida a desocupar o meu espaço.

Uma hora depois, o barulho da música alta invadia os meus ouvidos no barzinho. A minha prima Marina ergueu o copo de cerveja e me cutucou com um sorriso travesso.

— Que milagre é esse? A típica 'Amélia' da família resolveu abandonar as obrigações de casa e deixou o marido e filho sozinhos em casa? O mundo está acabando e ninguém me avisou?

— Deixa de ser fofoqueira, garota. — Brinquei, dando um empurrãozinho de leve no ombro dela. — A partir de hoje, pode me incluir em todos os seus planos para o final de semana.

Marina estalou a língua e revirou os olhos com descrença.

— Conta outra, Sandra. Quero ver se você consegue passar um dia inteiro longe daquele seu marido sem entrar em desespero e correr de volta.

Eu não podia culpar a minha prima pelo ceticismo. Ao longo dos últimos cinco anos de casamento, construí muros altíssimos ao meu redor e me transformei em uma ilha isolada. Recusei centenas de convites das minhas amigas com a clássica desculpa do "vamos marcar qualquer dia". As minhas telas de pintura acumularam camadas grossas de poeira em um canto escuro da sala, e até a livraria de bairro que eu tanto amava frequentar virou uma lembrança apagada.

Virei a dose de bebida de uma vez só, sentindo o líquido queimar a garganta de forma libertadora.

— Pode apostar que consigo. — Afirmei, batendo o copo vazio no balcão.

"Se eles conseguiram me descartar com tanta facilidade por outra pessoa, sou perfeitamente capaz de retribuir o favor e cortar os laços", declarei no meu íntimo.

O relógio marcava quase três da manhã quando abri a porta de casa, exalando o cheiro inconfundível de álcool e noitada. Encontrei Leonardo sentado no sofá, no escuro, com olheiras profundas marcando o rosto desgastado. O paletó caro estava todo amarrotado e a gravata pendia torta no colarinho. Era a primeira vez, em meia década de convivência, que eu o via em um estado de tamanho abandono.

Assim que a luz acendeu e ele me viu, soltou um suspiro de alívio que tentou disfarçar assumindo uma postura arrogante.

— Decidiu voltar para o seu lugar? Bateu o arrependimento de ficar longe de mim e do Thomas? Por um minuto eu quase acreditei na sua pose de mulher destemida fugindo de casa. Já que percebeu que não consegue viver sem mim, vê se toma jeito e abaixa a cabeça de uma vez por todas!

Caminhei a passos lentos, me joguei no estofado ao lado dele e soltei um pequeno soluço alcoolizado. O sorriso triunfante no rosto do meu marido desapareceu em instantes, dando lugar a uma expressão de choque.

— Sandra, você passou a madrugada inteira bebendo na rua? Com quem você estava até agora? — Ele exigiu saber, fechando os punhos ao lado do corpo.

A ironia da situação era maravilhosa e cruel. Lembrei das incontáveis noites em claro, aguardando ele retornar dos seus jantares de negócios, exalando perfume de terceiros e uísque. Sempre que eu ousava perguntar sobre a sua noite com preocupação, a resposta vinha carregada de desprezo:

— Eu estava trabalhando em um jantar importante, dá para parar de me encher de perguntas imbecis toda santa vez?

Agora, o jogo havia virado por completo, e o réu vestia a capa de juiz moralista.

A gritaria ríspida do meu marido ecoou pelo corredor e acordou o nosso filho. Thomas apareceu na sala descalço, esfregando os olhinhos de sono com a mão. Ao se aproximar de mim, prendeu a respiração em desagrado e correu para abraçar as pernas de Leonardo como refúgio.

— Mamãe, você está fedendo! A Sra. Viviana não tem esse cheiro ruim! O perfume dela é doce, igual ao de uma princesa da Disney! E ela sempre faz bolo de chocolate e sorvete de morango para mim. Você não faz nada direito, só sabe gritar e me obrigar a sentar na mesa para fazer o dever de escola. Fica o tempo todo dizendo que eu não posso comer doce antes do jantar, anda toda mal-arrumada pela casa e hoje ainda chegou com bafo!

Fiquei ali parada, observando os dois homens da minha vida com uma clareza dolorosa. Tudo o que restou dentro de mim ao ouvir aquelas palavras foi uma exaustão profunda, silenciosa e totalmente apática.

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