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Capítulo 3

작가: Doce de Nori
Carreguei meu filho no ventre por nove meses e, ao longo dos últimos cinco anos, perdi as contas das madrugadas em claro para amamentá-lo. O estômago dele sempre foi sensível. Um simples sorvete era o bastante para causar uma virose seguida de febre alta. Passei noites em claro cuidando dele com todo o zelo do mundo, mas todo esse sacrifício parecia ser invisível aos seus olhos.

Bastou encontrar Viviana algumas poucas vezes para que o nome da mulher não saísse mais de sua boca.

Leonardo acendeu a luz do teto com um estalo áspero. Seu olhar transbordava um orgulho evidente pelo garoto.

— Escuta o que o seu filho tá falando. Você acha que ainda tem postura de mãe? — Ele cruzou os braços, assumindo um tom de superioridade. — Fazer todo esse escândalo por causa da Viviana... não acha um exagero sem tamanho? Já cansei de repetir que a minha relação com ela é limpa, que parte disso você não entende? Quem traz o dinheiro grosso para casa é quem dita as regras. Você trabalha naquele escritório de arquitetura, mas o seu salário não banca nem o básico. Já que você depende do meu sustento, vê se coloca uma coisa na cabeça. A única pessoa aqui que não sobrevive longe de mim e do menino é você.

Sem forças para suportar mais uma rodada de julgamentos, levantei do sofá com a intenção de me refugiar no quarto.

— Você tem razão em tudo. — Murmurei, de costas para ele.

Leonardo puxou o ar com força, a voz rouca pelo desgaste da discussão:

— Sandra, por que você age como se estivesse morta por dentro em toda briga nossa? Você liga ao menos um pouco para os meus sentimentos?

A tontura da bebida embaralhou a minha visão por um instante. Em um passo em falso, minha panturrilha bateu com força na quina da mesa de centro e o meu corpo cedeu para trás em queda livre. Leonardo avançou num solavanco rápido, a tempo de espalmar a mão entre a minha nuca e o piso duro.

— Sandra! Por que você não quebra a cabeça de uma vez? — Praguejou ele, arfando pelo susto.

Apoiei as mãos em seu peito para afastá-lo e sentei no chão devagar, o encarando com uma frieza absoluta.

— Tira as mãos de mim.

A surpresa tomou conta do rosto dele. Ele não esperava uma reação tão gélida da minha parte e, sem saber o que dizer, acabou me soltando. Fui para o quarto e desabei na cama num sono profundo.

Quando abri os olhos de novo, o relógio marcava cinco da manhã. A ressaca da noite anterior castigava o meu corpo, mas o meu relógio biológico não costumava falhar.

Leonardo fazia questão de comer massa fresca feita na hora no café da manhã, enquanto o menino só aceitava ravióli de carne preparado no dia. O paladar dos dois era exigente demais para a comida da babá e orgulhoso demais para os lanches da padaria da esquina.

Por causa disso, eu precisava acordar duas horas mais cedo todos os dias, em um esforço diário para garantir que os dois tivessem comida quente e fresca na mesa às sete em ponto.

Mas hoje, fechei os olhos e me forcei a voltar a dormir.

Não sei quanto tempo se passou até que o barulho insistente de batidas na porta me despertasse. Puxei a maçaneta com o cabelo desgrenhado e encontrei Thomas parado no corredor.

— Mãe chata! Mãe ruim! — Gritou o garoto, com os punhos cerrados. — Por que você ainda não levantou para fazer o café da manhã pra mim e pro papai? Eu tô com fome!

— Hoje é a minha folga. — Respondi, segurando um bocejo.

— Não pode! — Ele avançou e começou a esmurrar a minha camisola. — A Sra. Viviana disse que uma mãe de verdade faz comida até quando tá doente!

— Eu não sou a sua mãe de verdade, então. Se quiser comer, pede para a babá.

Thomas pareceu um bichinho encurralado. Ele se jogou no chão de supetão e abriu o berreiro, chorando a plenos pulmões.

— A comida da babá é horrível! Papai, já que a mamãe não quer fazer comida, chama a Sra. Viviana! O café da manhã dela é uma delícia e ela gosta de cozinhar pra mim!

Leonardo estava sentado à mesa de jantar, com olheiras profundas marcando o rosto, com a aparência de quem não havia pregado o olho.

— Sandra, não desconta a sua raiva na criança. Se você tá cansada e não quer cozinhar, eu posso chamar a Viviana.

Não me dei ao trabalho de responder. Bati a porta do quarto com força, tomei um banho demorado, fiz uma maquiagem impecável e vesti o meu melhor blazer. Peguei as chaves do carro e segui em direção à saída.

De longe, ouvi a voz de Leonardo conversando com Viviana no celular. Ao passar por ele, o homem agarrou o meu pulso com força.

— Vai sair? Deixei um chá para curar ressaca na mesa para você. Bebe antes de ir.

— Não precisa, obrigada. — Disse, puxando o braço em um solavanco para me soltar.

Assim que bati a porta da rua, ouvi o barulho de louça estilhaçando contra a parede lá dentro. Leonardo havia perdido a cabeça. Parei de andar por um segundo, mas não olhei para trás e segui com passos firmes até o carro.

Dirigi até o escritório de arquitetura.

Anos atrás, eu havia mudado para essa cidade seguindo os passos de Leonardo, cheia de ambição e vontade de construir uma grande carreira.

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