LOGINCapítulo 78 Ravi Darke Ela entrou no carro sem dizer quase nada. O cheiro de Lavinia estava diferente, não de raiva aberta, mas de magoa residual, daquelas que grudam no peito e demoram a soltar. Eu dirigi até a Darke Pharma em silêncio, a mão no volante, o laço negro entre nós latejando com um cansaço emocional que não era meu. Era dela. E eu sentia cada onda. — Se quiser voltar — eu disse, sem tirar os olhos da estrada —, a gente volta. — Não. — A voz saiu baixa. — Eu preciso trabalhar. Se eu ficar em casa, eu só fico revivendo. Assenti. Não pressioni. O prédio me recebeu com o ritmo de sempre. Funcionários baixaram a cabeça quando passamos juntos. Eu levei Lavinia até o escritório, puxei a cadeira dela e deixei os relatórios do dia organizados sobre a mesa. Ela se sentou, ligou o computador e entrou no sistema com uma concentração forçada demais. Eu reconhecia aquele modo: ocupar a cabeça para não deixar a dor respirar. Passei a manhã resolvendo o que precisava, mas
Capítulo 77 Orion Valek A mesa estava posta quando descemos.A luz do jantar era mais baixa, amarelada, o tipo que costumava tornar a mansão aconchegante. Naquela noite, só tornava o silêncio mais evidente. Lavinia sentou na cadeira do meio. Ravi ficou à direita dela. Eu ocupei o lugar à esquerda, mantendo a distância que ela tinha pedido horas antes. Não tocar. Não beijar. Só coexistir. Eu conseguia conviver com isso. O que eu não conseguia era ignorar o peso no laço. A empregada entrou com a primeira travessa. O cheiro de carne assada e ervas se espalhou pela sala de jantar. Ela serviu Lavinia primeiro, depois Ravi, depois mim. Movimentos treinos, discretos. Nenhuma das funcionárias ousou fazer pergunta. O clima entre os três já bastava para qualquer um com nariz de lobo entender que a noite pedia cautela. — Obrigada — Lavinia murmurou, a voz ainda um pouco rouca de tanto chorar. A mulher assentiu e saiu. O silêncio voltou a se instalar entre o tilintar dos talheres. E
Capítulo 76 Lavinia Marke O sol já tinha baixado quando eu finalmente saí da cama. Os olhos ainda ardiam. O peito, também. Ravi tinha ficado comigo a tarde inteira, em silêncio na maior parte do tempo, só a presença firme o suficiente para eu não desmoronar de novo. Quando me levantei, ele ergueu o olhar. — Você vai falar com ele? — Vou ouvir — eu respondi. A voz saiu rouca. — Só isso. Ravi assentiu, sem tentar me convencer de mais nada. Abriu a porta do quarto e desceu na minha frente. No corredor do andar de baixo, Orion estava sentado no sofá da sala, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos juntas. Quando nos ouviu, levantou a cabeça de uma vez. O rosto dele estava cansado. Os olhos escuros, presos em mim. Eu parei a alguns metros de distância. — Pode falar — eu disse. — Eu escuto. Ravi ficou de pé perto da escada, o suficiente para intervir se precisasse, o suficiente para me dar espaço. Orion se levantou devagar, como se qualquer movimento brusco fosse me faze
Capítulo 75 Lavinia Marke Eu não lembro de metade do caminho. Só do vento cortando o rosto, das pernas queimando, do laço roxo latejando como uma ferida aberta. Usei a velocidade da loba sem pensar. Atravessei a estrada, os portões, o jardim. O coração batia tão forte que doía no peito. A imagem não saía da cabeça: a mulher loira, o sorriso descarado, a boca dela colada na de Orion. Na frente de todo mundo. Na frente de mim. A mansão apareceu como um refúgio. Entrei quase correndo, ignorei os guardas, subi as escadas dois degraus por vez e bati a porta do quarto com força. Trancei. Me encostei na madeira e só então as pernas fraquejaram. Escorreguei até o chão, os braços ao redor dos joelhos, a respiração falhando. A garganta ardia. Os olhos queimavam. Eu não queria chorar. Chorei mesmo assim. O beijo. O jeito como ela o tocou como se tivesse esse direito. E Orion… parado. Surpreso. Mas parado. Alguém bateu na porta minutos depois. A voz de uma das empregadas, cuidadosa: — S
Capítulo 74 Orion Valek Eu ainda sentia o residual da reunião com Damian quando entrei no carro com Lavinia na manhã seguinte.A aliança estava feita, provisória, monitorada, frágil o suficiente para eu não baixar a guarda. Mas o corpo pedia rotina. Trabalho. O cheiro dela no banco do passageiro. A normalidade possível depois de dias demais de tensão. — Hoje é meu dia — eu disse, ligando o motor. — Eu sei. — Ela ajeitou a bolsa no colo. — Sem sumir. Sem sacola preta. — Bom. O caminho até a Valek Cosmetics foi silencioso, mas confortável. Eu dirigia com uma mão no volante e a outra ocasionalmente na coxa dela, o polegar fazendo um movimento distraído. Lavinia olhava a estrada, o perfil calmo, o laço roxo entre nós latejando estável. Depois da ofensa na cozinha da Darke Pharma e da reunião com Damian, aquele silêncio parecia quase um luxo. O prédio me recebeu com o cheiro familiar de essências e limpeza. Subimos juntos. Eu a deixei na mesa ao lado da minha, o computador já ligado
Capítulo 73 Lavinia Marke A reunião foi marcada para o final da tarde, em território neutro.Um salão antigo entre as duas fronteiras, vigiado por lobos dos Negros e dos Brancos. Eu cheguei com Ravi e Orion, o corpo ainda carregando o residual da manhã na Darke Pharma, a cozinheira demitida, o prato que eu quase fiz ela engolir, a fúria contida. Ravi tinha ficado mais protetor o dia inteiro. Orion, quando soube, apenas assentiu com aquele silêncio perigoso que eu já reconhecia. Damian já estava lá.Ele era mais alto que o irmão, o cabelo escuro puxado para trás, a postura reta sem a arrogância doentia que Damien carregava. Quando nos viu entrar, fez uma pequena inclinação de cabeça. Não era submissão. Era respeito calculado. — Alfas. Luna. Obrigado por aceitarem. — Fale o que veio fazer — Orion disse, sem rodeios. Damian não se ofendeu. Ficou de pé, as mãos à vista, e falou com a voz firme: — Vim agradecer. E pedir aliança. Damien tirou meu lugar à força. Usou a alcateia para







