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Capítulo 2

Autor: Memória de Peixe
No dia em que meu pai foi transferido para um quarto comum, Juan trouxe um plano de cuidados.

Estava escrito em grandes detalhes. Os horários dos remédios do meu pai, horários de reabilitação, restrições alimentares, até os turnos do cuidador estavam todos listados ali.

Juan colocou a pasta na mesinha de cabeceira.

— Pedi a alguém para contatar o diretor de reabilitação. Ele virá para uma consulta amanhã.

Meu pai tinha acabado de acordar. O canto de sua boca ainda estava um pouco torto, e suas palavras saíam enroladas.

— Juan... Obrigado. Muito trabalho... para você...

Juan se curvou levemente.

— Não se preocupe com nada e descanse.

Ele era impecável. Era correto e atencioso, exatamente como um bom futuro genro.

…Se Whitney não existisse.

Ao meio-dia, Whitney veio com uma cesta de frutas. Ela vestia um vestido cor de creme. Seu rosto estava pálido, e uma pulseira do hospital ainda estava ao redor do seu pulso.

No momento em que entrou, ela olhou para Juan primeiro.

— Eu cheguei em uma má hora?

Juan colocou o copo de água que estava em sua mão na mesa.

— Você ainda não se recuperou. Por que está aqui?

Whitney baixou a cabeça, com a voz ainda mais baixa.

— Ouvi dizer que ele finalmente acordou, e me senti culpada. Se não fosse por mim naquele dia, você não teria...

Ela parou pela metade, com os olhos vermelhos.

Meu pai não sabia o que tinha acontecido e apressadamente acenou com a mão.

— Tudo bem. Não chore.

Fiquei perto da janela e a observei colocar a cesta de frutas sobre a mesa. Dentro havia uma caixa de mirtilos.

Meu pai não podia comê-los.

Juan olhou para a cesta e explicou em nome dela.

— A Whitney simplesmente teve uma boa intenção.

Peguei a cesta de frutas e a entreguei ao cuidador perto da porta.

— Por favor, compartilhe isso com as enfermeiras no posto delas.

A expressão de Whitney congelou por um segundo.

— Vivian, você ainda está brava comigo?

Juan olhou para mim. O olhar não passou de um vislumbre, mas também era um aviso.

— Não a envergonhe.

Eu costumava temer aquele olhar mais do que qualquer coisa. Ficava preocupada que ele achasse que eu era imatura e que estava fazendo tempestade em copo d'água. Eu tinha suportado aquilo tantas vezes.

Quando Whitney teve febre no meio da noite, ele abandonou nosso jantar de aniversário.

Quando Whitney disse que tinha medo de trovões, ele dirigiu por metade de Cidade Harbor para lhe fazer companhia.

Quando Whitney disse: "Não estou acostumada com médicos desconhecidos", ele organizou pessoalmente a terapia para ela.

Mas quando eu estava na emergência tomando soro por causa de dores no estômago, ele apenas respondeu:

[JUAN: Siga o conselho médico.]

Olhei para Whitney e disse calmamente:

— Eu não estou brava com você.

Ela paralisou.

Juan também ergueu os olhos.

Continuei:

— É escolha sua recorrer a ele quando algo acontece. É escolha dele ir todas as vezes.

O quarto ficou em silêncio.

Whitney mordeu o lábio.

— Vivian, eu me sinto péssima quando você fala desse jeito.

Juan finalmente falou.

— Chega, Vivian.

A voz dele não foi dura, mas foi o suficiente para fazer meu pai olhar para mim.

— A Whitney não está com a saúde boa. Não a machuque com suas palavras. — Ele franziu a testa fracamente. — Vivian, não seja teimosa.

As pontas dos meus dedos se curvaram levemente.

Então até meu pai achava que eu estava sendo teimosa.

Depois disso, Juan me puxou para o corredor. Seus dedos se fecharam ao redor do meu pulso. Não era forte, mas eu não conseguia me soltar da mesma forma.

— Seu pai acabou de acordar. Você precisava arrumar confusão no quarto?

Olhei nos olhos dele.

— O que eu fiz?

— A Whitney já pediu desculpas — disse Juan.

— Ela pediu desculpas para que todos soubessem que ela é quem merece pena — eu disse.

O rosto de Juan escureceu.

— Vivian, você não era tão dura antes.

Claro que eu não era.

No passado, eu encontrava desculpas para ele. Dizia a mim mesma que ele só estava sendo responsável demais, que ele simplesmente não suportava ver Whitney desmoronar.

E, no entanto, a luz do lado de fora da sala de emergência tinha brilhado a noite toda. Algumas coisas se tornaram evidentes demais sob ela.

Whitney saiu do quarto, encostando-se na parede como se pudesse desabar a qualquer momento.

— Juan, minha cabeça está um pouco tonta.

Juan imediatamente me soltou e caminhou até ela. Ele passou o braço pelos ombros dela, e sua voz baixou.

— Eu vou te levar para o quarto.

Então ele olhou para trás, para mim.

— Fique aqui e cuide do seu pai. Ligue-me se acontecer alguma coisa.

Olhei para a mão dele no ombro de Whitney, e depois perguntei:

— Se eu ligar, você vai atender?

A testa de Juan se apertou.

Whitney se encostou no braço dele e disse suavemente:

— Vivian, não dificulte as coisas para ele.

Assenti.

— Claro.

Juan pareceu aliviado enquanto ajudava Whitney e saíam juntos.

Quando as portas do elevador se fecharam no final do corredor, baixei a cabeça e vi as marcas vermelhas que o aperto dele tinha deixado no meu pulso.

Eram muito suaves.

Elas desapareceriam logo, assim como a dor que carreguei por anos.

Ninguém viu, e ninguém se importou.

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