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Devo Ir Agora

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Por:  Memória de PeixeCompletado
Idioma: Portuguese
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Juan Shaw era o chefe de cirurgia cardíaca mais jovem de Cidade Harbor. Todos diziam que seu coração era o mais frio. Mas eu sabia que ele não era incapaz de ter gentileza. É que a gentileza dele simplesmente nunca foi para mim. No dia seguinte ao nosso noivado, meu pai sofreu um derrame e foi levado às pressas à emergência. A enfermeira disse que precisavam da assinatura de dois familiares diretos no termo de consentimento. Liguei para Juan. O telefone tocou por um tempo antes de ele atender, e ouvi o choro fraco de uma mulher do outro lado. Era a ex dele, Whitney Jackson. Juan disse em voz baixa. — Whitney está tendo um ataque de pânico e estou acompanhando ela. Peça para o hospital iniciar o atendimento de emergência primeiro. Apertei a caneta até que meus nós dos dedos ficassem brancos. — O médico disse que precisavam da assinatura de dois familiares. Minha mãe morreu. Eu só tenho você. Ele ficou em silêncio por um instante, mas sua voz continuou firme. — Não faça parecer tão sério. Mesmo com as regras do hospital, não vão se recusar a salvá-lo. Whitney se engasgou em um soluço do outro lado. — Juan, não deixe que eu atrase nada. Você deve ir. Consigo me virar sozinha. Juan respondeu imediatamente. — Não se force. Eu não vou. Quando a ligação terminou, a enfermeira voltou a me pressionar. Baixei a cabeça e olhei para o anel de noivado. Juan o escolheu pessoalmente. Ele disse que o porto vivia coberto por um nevoeiro espesso e que me encontraria de imediato se o anel brilhasse o bastante. Naquele dia, as luzes brancas do lado de fora da emergência eram de cegar. Eu estava parada no nevoeiro. Não podia esperar por ele. Quando meu pai já não corria perigo, eu já tinha passado a noite inteira do lado de fora da ala médica. A luz do dia veio. Juan finalmente enviou uma mensagem. [JUAN: A Whitney dormiu agora. Como está seu pai?] Olhei para a balsa atracada no píer do lado de fora da janela. O nevoeiro tinha sumido. Eu devia ir agora.

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Capítulo 1

Capítulo 1

[JUAN: Como está seu pai?]

A mensagem de Juan Shaw estava na tela, um pouco tarde demais.

Sentei-me no banco do lado de fora da sala de emergência, ainda segurando a caneta para o formulário de consentimento. Eu já tinha quebrado a tampa, e um pequeno pedaço afiado de plástico cravava na minha palma.

A enfermeira abriu a porta e saiu, com a voz baixa.

— Senhorita Thomas, o paciente está estável por enquanto, mas precisaremos mantê-lo sob observação depois disso.

Assenti.

Meu celular vibrou de novo. Era Juan. Ele enviou uma segunda mensagem.

[JUAN: A Whitney está estável agora. Estou indo para aí.]

Fiquei encarando aquela linha por um longo tempo, e depois respondi com duas palavras.

[VIVIAN: Tudo bem.]

Ele me ligou quase no mesmo instante, mas eu não atendi. Quando meu pai foi levado para a UTI, já era de manhã. Através do vidro, vi-o deitado na cama do hospital, com o rosto coberto por uma máscara de oxigênio.

De repente, lembrei-me da noite da nossa festa de noivado.

Quando Juan colocou o anel em mim, seu dedo roçou no meu nó do dedo.

— Vivian, de agora em diante, venha até mim sempre que algo acontecer.

Os aplausos abaixo do palco tinham sido tão altos naquela hora…

E pensar que eu realmente tinha acreditado nele.

Às oito da manhã, Juan finalmente chegou ao hospital. Ele vestia o casaco cinza-escuro da noite anterior, com o colarinho levemente amassado, e cheirava a desinfetante misturado com perfume feminino.

Quando me viu, ele parou.

— Por que você não atendeu minhas ligações?

Encostei-me na parede. Minha voz estava um pouco rouca.

— Fiquei com medo de atrapalhar o sono da Whitney.

A testa dele se franziu levemente.

— Vivian, você precisa falar desse jeito?

Não ergui a cabeça.

— Então como eu deveria falar? Deveria agradecer por você arrumar um tempo na sua agenda lotada para vir ver meu pai?

Juan ficou em silêncio por um momento antes de alcançar meu pulso. Seu toque era gentil, como o de um médico consolando um paciente.

— A noite passada foi uma emergência. A Whitney tem ansiedade grave. Ela não consegue lidar com nenhuma agitação.

Puxei minha mão.

— Meu pai estava sendo reanimado.

— Eu sei — disse Juan com a voz mais suave —, mas seu pai já estava no hospital. Havia médicos e procedimentos. A Whitney só tinha a mim.

Só tinha a ele.

Ria ao ouvir aquelas palavras.

Juan olhou para mim, e um incômodo piscou em seus olhos.

— Pare de fazer tempestade em copo d'água. Eu estou aqui agora.

Ele sempre achou que aparecer contava como compensar o erro. Um abraço que vinha tarde demais, uma explicação que vinha tarde demais, uma preocupação que vinha tarde demais. Desde que ele estivesse disposto a dar, eu deveria simplesmente aceitar.

O médico saiu do consultório e me entregou uma pilha de faturas de cobrança e o plano de tratamento contínuo.

Eu mal tinha esticado a mão para pegá-los quando Juan os pegou primeiro.

— Eu cuido disso. — As pontas dos dedos dele passaram pelas páginas, profissional e calmo. — Vou pedir a alguém para reavaliar o plano cirúrgico. Não fique tão nervosa.

Se isso tivesse acontecido antes, teria sido o suficiente para me fazer chorar. Mas agora, tudo o que eu conseguia sentir era o frio.

Então o celular dele tocou.

Juan olhou para baixo, e sua expressão suavizou. A identificação da chamada dizia Whitney. Ele não atendeu e simplesmente recusou a ligação. Um segundo depois, a mensagem de Whitney apareceu assim mesmo.

[WHITNEY: Juan, acordei. O quarto está tão vazio. Estou com um pouco de medo.]

Juan segurou os formulários de cobrança com força.

Eu vi.

Ele também sabia que eu tinha visto.

Tudo pareceu ficar em silêncio por alguns segundos.

Ele olhou para cima, com a voz ainda firme.

— Vou pagar as contas do seu pai primeiro, depois vou dar uma olhada nela.

Olhei para os formulários na mão dele e disse:

— Tudo bem.

Juan franziu a testa.

— Vivian, este não é o momento para agir por impulso ou raiva.

Peguei os formulários de volta e os alinhei um por um.

— Não estou agindo por raiva. Eu mesma vou cuidar dos cuidados com o meu pai.

Ele me encarou, como se estivesse tentando descobrir se meu silêncio era outra forma de forçá-lo a ceder. Apenas me virei e caminhei em direção ao guichê de cobrança.

Atrás de mim, Whitney ligou de novo enquanto o telefone tocava.

Desta vez, Juan atendeu e respondeu com a voz baixa:

— Não tenha medo. Eu volto logo.

Não parei de andar. Havia muitas pessoas na fila, e a luz no guichê piscava. Baixei a cabeça e olhei para o anel no meu dedo.

O diamante ainda era brilhante.

E, no entanto, de repente senti que ele não conseguiria mais me encontrar.

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