تسجيل الدخولIsabella Marcel O reflexo no vidro fosco do laboratório me mostrava uma mulher exausta, mas de pé. Durante duas semanas, eu havia erguido um muro invisível ao redor de mim mesma, silenciando notificações, recusando ligações e canalizando toda a minha energia frustrada para as fórmulas e testes que mantinham a minha mente ocupada. Eu havia cortado o cordão umbilical daquela ilusão confortável, escolhendo a dor da abstinência à humildade de ser apenas mais uma opção no cardápio de conveniências de Paul.Mas Paul nunca foi o tipo de homem que aceitava ser sumariamente ignorado, essa não era a sua natureza.O som familiar dos passos firmes ecoando pelo corredor estéril do centro de pesquisa me avisou antes mesmo de a porta se abrir. Quando levantei os olhos do microscópio, ele estava ali, ocupando o batente da porta com aquele terno impecável e a expressão de quem não entendia como o mundo ousava girar fora da sua órbita.— Porque você anda me evitando? — Paul me perguntou depois de dua
Isabella Marcel As semanas que se seguiram àquela noite inesquecível no auditório foram, na superfície, um período de trégua forçada. O escândalo provocado por Arthur e Maya havia atingido a alta sociedade paulista como uma bomba de efeito moral, deixando nossos pais atordoados, tentando conter os danos à imagem corporativa e redesenhar estratégias em gabinetes fechados. Para todos os efeitos públicos, o noivado forçado havia ficado pausado na cabeça deles.Ou era o que eu acreditava.Livre momentaneamente das garras de um casamento arranjado, eu decidi mergulhar de cabeça no único refúgio que me restava: a "relação" com Paul.Nos primeiros tempos após o colapso da farsa do evento, Paul pareceu assumir um papel diferente na minha rotina. Ele me buscava nos laboratórios provisórios onde eu tentava manter meus projetos de pesquisa ativos, levava-me para jantar nos restaurantes mais reservados da cidade e me envolvendo numa atmosfera de aparente devoção. Com ele, eu tentava preencher o
Isabella Marcel A rotina da opressão tem o som exato de passos calculados sobre o mármore polido e a voz cortante que descarta décadas de afeto em troca de um saldo bancário. — Amanhã é o grande evento da nossa empresa, Isabella. E amanhã todos vão saber que você e Arthur estão juntos. Sabe que se não fizer isso, vou tirar tudo de você. Aquela frase não era mais uma novidade; com o passar das semanas, ela havia se transformado em um refrão sádico, o nosso "bom dia" particular antes que eu engolisse o café amargo na mesa de jantar da mansão. Cada palavra era desferida com a precisão mecânica de quem manipula engrenagens. Meu pai já não se dava ao trabalho de fingir preocupação com os meus sentimentos, com as minhas pesquisas ou com o vazio que a morte da minha mãe havia deixado em nossa casa anos atrás. Ele havia me despojado de qualquer humanidade, reduzindo a um ativo contabilizável em um balancete de fusão internacional. Ele não me tratava como antes. Agora eu era uma peça em
Isabella Marcel O quarto de Paul era o exato oposto das paredes de mogno e do mármore gélido da mansão do meu pai. Ali, os lençóis de linho amassados, a luz difusa da tarde cortando as persianas e o cheiro sutil de sândalo e café criavam um refúgio onde o tempo parecia perder a urgência corporativa. Eu estava em pé diante da janela, vestindo a pressa e a frustração nas minhas próprias roupas, enquanto o reflexo de Paul no espelho me acompanhava com aquele olhar analítico, calmo e perigosamente sedutor." Ele fez o quê?" Paul me analisou quando me levantei da cama, e comecei a me arrumar.A pergunta dele continha o peso exato do absurdo que eu acabara de despejar sobre os lençóis. Para Paul, que vivia à margem dos grandes conglomerados e dos acordos de bastidores que movimentavam a alta sociedade, a imposição do meu pai parecia o roteiro de uma peça tragicamente ultrapassada. Ele era um bilionário, não queria compromisso. Sempre me deixou claro, mas eu ainda achava que se cedesse, s
Isabella MarcelO cheiro de papel envelhecido, café forte e tinta de impressora sempre foi o perfume da minha liberdade. Enquanto as garotas da minha idade frequentavam os clubes mais exclusivos de São Paulo discutindo as últimas tendências da alta-costura ou planejavam festas de debutantes faraônicas, eu passava as tardes trancada no laboratório de química do meu pai ou devorando compêndios grossos de farmacologia orgânica e biotecnologia.Meu pai, um dos magnates mais temidos e respeitados da indústria farmacêutica nacional, nunca escondeu o orgulho que sentia da minha inteligência — ou pelo menos, era o que eu acreditava até o dia em que completei vinte e seis anos e já acumulava duas graduações, um mestrado em andamento e dezenas de patentes preliminares registradas no meu nome dentro do conglomerado da nossa família. Ele me incentivou a estudar. Pagou as melhores universidades do mundo, financiou minhas pesquisas mais ambiciosas e me deu acesso ilimitado aos centros de desenvolvi
Bia Bernoulli O sol da tarde entrava pelas grandes janelas da nossa sala de estar, desenhando formas douradas e quentes sobre o piso de madeira clara, enquanto a brisa suave da manhã trazia o perfume inconfundível do aroma fresco de café recém-coado. O nosso apartamento — um refúgio que planejamos centavo por centavo, sonho por sonho, longe das sombras gélidas e sufocantes de Genebra — parecia transbordar uma vida vibrante, daquelas que a gente só consegue acreditar que existem quando finalmente para de sobreviver e decide, de fato, viver.Arthur e Maya vieram nos visitar.A visita deles era daquelas que transformavam qualquer dia comum em uma data festiva, mas a atmosfera daquele domingo carregava uma magia ainda mais profunda. O pequeno Lian ficou em casa com a mãe da Maya, aproveitando um momento mais tranquilo, já que ele era pequenininho e exigia cuidados redobrados. Lian tinha nascido dois meses antes — as nossas barrigas conjunta que tanto planejamos rendeu frutos com pouca di







