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Capítulo 3

Author: Lua e Ramos
Quando cheguei ao laboratório, Érica estava revisando o material da apresentação oficial do projeto.

Assim que me viu, fechou o notebook.

— Paula, eu não sei como Mateus conseguiu os dados.

— Apaga.

— O projeto não pode parar. Vou explicar ao orientador que foi você quem criou o modelo.

— E vai continuar com seu nome em primeiro?

Érica empalideceu.

Mateus entrou e colocou sobre a mesa o documento para retirar meu pedido de revisão.

— Assina.

— Você entrou na minha conta na nuvem?

— O modelo faz parte de um projeto conjunto. Só recuperei a parte de que a equipe precisava.

— A senha também faz parte do projeto?

— Foi você que me passou.

— Porque eu confiava em você.

— É por isso que não quero ver você acabar com seu futuro por birra.

Ele tinha se aproveitado da minha confiança e agora falava como se estivesse me ajudando a corrigir um erro.

Chegava a parecer decepcionado.

— Paula, você não era assim. Érica só precisa dessa oportunidade. Por que não consegue ser compreensiva?

— E quem pensa em mim?

Ele apertou minha nuca de leve.

— Eu. Quando ela conseguir a vaga de pesquisadora na universidade, eu te dou um projeto só seu.

— Eu quero o que já é meu.

— Para de insistir nesse assunto.

Afastei a mão dele e só então reparei no caderno azul que Érica segurava contra o peito.

Era o caderno de campo deixado pela avó de Mateus.

A avó dele tinha percorrido comigo as ruas do centro histórico, desenhando no caderno, uma por uma, aquelas casas antigas.

Pouco antes de morrer, ela me entregou o caderno.

Na primeira página, tinha escrito: [Para Paula. Que você deixe seu nome em tudo o que fizer.]

Quinze dias antes, Mateus tinha pedido o caderno emprestado.

Disse que precisava conferir as fontes históricas para a apresentação do projeto.

Agora, a página com a dedicatória tinha desaparecido.

Érica pretendia levar o caderno à reunião com os investidores para apresentar como registro da própria pesquisa preliminar de campo.

A página que dizia [Para Paula], claro, não podia ficar.

Estendi a mão.

— Devolve.

Érica apertou o caderno contra o peito.

— Mateus disse que era só emprestado, para eu completar minha inscrição.

— E a página com a dedicatória?

Ela entreabriu os lábios.

Mateus se colocou na frente de Érica.

— Aquela página não tem relação com o conteúdo do projeto.

— Por isso você arrancou?

— Eu guardei para você. Depois da apresentação, coloco de volta.

Ele sabia o valor daquela frase para mim.

Mesmo assim, tinha certeza de que poderia consertar o caderno depois e de que eu acabaria perdoando ele.

Avancei para pegar o caderno.

Érica se recusou a soltar.

Mateus puxou o caderno de uma vez e o largou na beirada da mesa, mantendo a mão sobre ele.

— Chega. Os investidores estão chegando. Para de fazer todo mundo passar vergonha.

— Sou eu que deveria ter vergonha?

Quando fui pegar o caderno, Mateus virou o corpo para me impedir.

O cotovelo dele derrubou o café ao lado.

O líquido marrom-escuro escorreu pela mesa e encharcou as páginas num instante.

Ele tentou salvar o caderno na mesma hora, mas a página com a dedicatória, guardada entre os documentos, escorregou direto para o café.

A tinta da dedicatória que começava com [Para Paula] logo começou a borrar.

Meu nome foi perdendo a forma, até restarem apenas alguns traços quase irreconhecíveis.

Me agachei para pegar o caderno.

A linha da encadernação, amolecida pelo café, arrebentou entre meus dedos.

As páginas com os desenhos feitos à mão se espalharam pelo chão.

Mateus agarrou minha mão.

— Não mexe. Dá para restaurar.

— Me solta.

— Vou mandar fazer outro igual.

Ergui o rosto para ele.

O original estava destruído. A solução dele era fazer outro.

Como se imitar a letra pudesse reparar tudo aquilo.

Como se fosse possível trazer de volta alguém que já tinha morrido para escrever aquelas palavras outra vez, com as próprias mãos.

Érica ficou com os olhos marejados.

— Desculpa. Eu não sabia que isso ia acontecer.

Mateus se virou por reflexo.

— A culpa não é sua.

Eu estava de joelhos entre as folhas molhadas espalhadas pelo chão.

Mais uma vez, era Érica que ele consolava primeiro.

Mateus logo percebeu meu olhar e se agachou na minha frente.

— Paula, não foi isso que eu quis dizer. O caderno tem conserto. E seu nome vai voltar para o primeiro lugar.

Ele estendeu a mão para enxugar minhas lágrimas.

Virei o rosto e segurei a página com a dedicatória borrada entre as mãos.

— Mateus, você acha que tudo tem conserto?

— Se ainda existe, tem conserto.

— E se não existir mais?

A mão dele parou no ar.

Saí do laboratório com os restos do caderno nos braços.

Pouco depois, o assistente do projeto mandou um aviso no grupo: [A documentação da candidatura de Érica ficou encharcada. A reunião com os investidores marcada para esta noite foi adiada.]

A foto mostrava apenas um canto do caderno encharcado.

Logo em seguida, chegou uma mensagem de Daniel.

[Por enquanto, não toca nas folhas molhadas. Pega papel absorvente e coloca as páginas abertas por cima.]

Parei de andar.

Na outra ponta do corredor, Mateus estava com as duas mãos ocupadas, ajudando Érica a organizar os documentos.

O celular dele estava sobre a mesa, com a tela apagada.

Talvez fosse só uma coincidência.

Foi o que disse a mim mesma.

À noite, Daniel enviou um áudio com a voz alterada.

— Paula, não chora. Você não precisa esperar que a pessoa que machucou você venha reparar o que fez.

Depois de ouvir o áudio muitas vezes, finalmente perguntei:

— Você topa me encontrar pessoalmente?

Daniel demorou muito para responder.

Quando respondeu, desviou da pergunta.

— Depois do aniversário de Mateus, te conto uma coisa sobre ele.

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