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Capítulo 4

Author: Lua e Ramos
Na noite do aniversário de Mateus, fui ao hotel com o diário encadernado.

Era o sétimo aniversário que eu passava ao lado dele. Seria também o último.

O salão privativo de eventos do hotel estava lotado.

Érica usava um vestido longo azul e estava sentada à esquerda de Mateus.

Eu tinha experimentado aquele vestido quinze dias antes.

Diante do espelho, perguntei, corando:

— Vai me dar de presente?

Mateus estava encostado na porta do provador. Passou os olhos da minha cintura até a barra do vestido e soltou apenas um murmúrio distraído em resposta.

Agora, Érica deu uma volta na minha frente usando o mesmo vestido.

— Mateus disse que a gente tem medidas parecidas. Por isso pediu para você experimentar no meu lugar. Você acha que vai ficar bom em mim?

Então ele só tinha respondido daquele jeito porque estava com preguiça de explicar.

Mateus afastou a bolsa que Érica tinha deixado ao lado dela e puxou a cadeira para mim.

— Vem.

Alguém começou a provocar:

— À esquerda, quem você nunca tirou da cabeça. À direita, a garota que cresceu com você. Que sorte a sua, hein, Mateus!

Ele não negou.

Me serviu um copo de água e afastou o doce de amendoim.

— Esse aí você não pode comer.

O sorriso de Érica diminuiu um pouco.

— Desde quando você lembra do que ela não pode comer?

Mateus baixou o olhar para mim, com um sorriso discreto.

— Ela dá trabalho. Fica difícil esquecer.

Antes, aquele cuidado especial, por menor que fosse, me deixava feliz por muito tempo.

Agora, só me cansava.

Érica logo foi para o terraço.

O celular de Mateus tocou em seguida.

Assim que leu o nome na tela, ele pousou a taça.

— Vou ver como ela está.

Ao passar por mim, apertou minha nuca de leve.

— Não sai daqui. Espera eu voltar para abrir o presente.

— Quando o caderno foi destruído, você não ficou preocupado assim.

Ele deu uma risada baixa.

— Ainda está com ciúme?

— Não.

Mateus se aproximou do meu ouvido.

— E ainda não admite. Espera eu voltar. Eu dou um jeito de te agradar.

Para ele, toda a minha resistência era só uma tentativa de chamar sua atenção.

Bastava me agradar um pouco, e eu não iria embora.

De repente, ouvi um copo se quebrar no terraço.

Érica estava descontrolada lá fora.

Mateus saiu às pressas, deixando a porta da sala de descanso entreaberta.

Entrei com a caixa do presente nas mãos.

O notebook sobre a mesa continuava ligado.

Uma notificação surgiu no canto inferior direito: [Bloqueio automático após 58 segundos de inatividade.]

O fórum anônimo da universidade estava aberto.

A foto de perfil mostrava um poste de rua com uma luz fraca e amarelada.

O nome de usuário era Daniel.

No histórico da conversa, no canto superior direito, reconheci a mensagem que tinha enviado meia hora antes: [Já cheguei à festa de aniversário dele.]

Daniel tinha respondido: [Entrega o último presente para ele e vai embora. Não volta atrás.]

Ao lado, havia outra janela de conversa aberta.

Um amigo perguntava: [Ela anda muito estranha. Ainda dá para segurar ela com essas duas contas?]

Mateus tinha respondido: [Ela não vai embora. Uso uma conta para convencer ela a desistir. Depois, com a outra identidade, trato ela um pouco melhor. Só assim ela faz tudo o que eu mando. Vou fazer ela ir embora por vontade própria quando Érica voltar ao país.]

O amigo insistiu: [Ela já está evitando você. Até perguntou, pela conta anônima, se você toparia encontrar ela.]

A resposta de Mateus veio em duas mensagens: [É só enrolar até passar o aniversário.]

[É só ignorar ela por uma noite quando a gente estiver junto e depois mandar umas mensagens de consolo pela conta anônima. No dia seguinte, ela volta.]

Fui subindo no histórico.

Eu sabia a que dia cada mensagem se referia.

No dia em que tive dor de estômago, ele deixou os remédios comigo e saiu para ficar com Érica.

Assim que voltou para o carro, trocou de conta e perguntou se Mateus tinha me abandonado outra vez.

No dia do ensaio, me acusou em público de reter os dados e, por meio de uma conta anônima, me ensinou a proteger meu trabalho.

Depois da destruição do caderno, escreveu as mensagens de consolo com antecedência e pediu a um amigo que programasse o envio.

Assim, parecia que Mateus e Daniel estavam presentes ao mesmo tempo.

Quem eu acreditava que mais me entendia também era quem melhor sabia como me machucar.

Ouvi passos atrás de mim.

Mateus parou na porta.

Ao ver a tela do notebook, perdeu o sorriso na mesma hora.

— Paula.

Veio até mim depressa.

Sua primeira reação foi fechar o notebook, sem sequer pedir desculpas.

— Hoje é meu aniversário. Não faz uma cena aqui.

Olhei para ele.

— Daniel?

Mateus engoliu em seco.

— Encontrei sua postagem por acaso. Foi assim que começou. Eu disse para você se afastar porque não podia te dar o que você queria.

— Mas, quando eu me afastei de verdade, por que tentou me impedir?

Ele ficou em silêncio.

Érica estava do lado de fora, também com uma expressão péssima.

— Você não disse que aquela conta só servia para convencer ela a desistir e que ela nunca ia descobrir?

Mateus se virou de uma vez.

— Érica, cala a boca.

Mas eu sorri.

Érica sabia da existência da conta.

Via Mateus me convencer a desistir e esperava que eu fosse embora, sem sentir culpa nenhuma.

Mateus pegou minha mão.

— Ela não sabe o que a gente conversava. As noites que passei acordado com você foram reais. Eu lembro, sim, do que você não pode comer. Cuido de você pessoalmente e te faço companhia na internet. Sou eu dos dois lados. Por que você só lembra que eu menti?

Mesmo àquela altura, ele ainda achava que eu devia agradecer.

Tirei a corrente de prata que usava havia seis anos e joguei na taça sobre a mesa.

A corrente afundou, e a bebida respingou no dorso da mão dele.

— Você queria que eu fosse embora por vontade própria, não queria? Não precisa mais esperar.

Virei as costas e entrei no elevador.

Só então Mateus entrou em pânico.

Veio correndo e enfiou a mão entre as portas.

— Paula, tenta ir embora para você ver.

As portas tentavam se fechar repetidas vezes, prensando a mão dele, enquanto o alarme soava estridente.

Antes, qualquer arranhão nele me deixava aflita por muito tempo.

Naquele instante, meus dedos se mexeram por reflexo.

Mesmo assim, não apertei o botão de abrir.

Só olhei para ele.

— Foi Daniel quem me ensinou. Ficar correndo atrás de alguém que não vale a pena só faz a gente passar vergonha.

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