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Capítulo 2

Author: Lua e Ramos
— Deixa Érica assinar como primeira autora.

Faltavam três dias para a apresentação oficial do projeto, e a faculdade tinha organizado um ensaio geral.

Mateus empurrou a nova lista na minha direção.

Meu nome, que antes aparecia em primeiro lugar, agora estava no fim da lista.

Trabalhávamos num projeto de preservação digital do centro histórico.

As anotações de campo deixadas pela avó de Mateus eram nossa referência histórica.

O modelo de reconhecimento que eu tinha desenvolvido reconstituía os dados dos quarteirões.

Mateus orientava o projeto e coordenava o laboratório, mantido por uma parceria entre a universidade e uma empresa.

Bastou a lista passar pelas mãos dele para Érica virar a primeira autora.

Eu tinha virado noites durante quatro meses para concluir aquela proposta.

Pus a mão sobre a lista.

— Por quê?

— Érica precisa desse prêmio para se candidatar a uma vaga de pesquisadora na universidade.

— E eu não preciso?

— Você ainda está no terceiro ano da faculdade. No ano que vem vai ter outra chance.

— Por que eu tenho que perder a minha chance para ajudar ela?

Mateus franziu a testa, como se não entendesse por que aquilo me incomodava tanto.

— Érica acabou de voltar para o país. Ainda não conseguiu um orientador nem tem projeto. Você tem bolsa de estudos, o fundo que minha avó deixou para seus estudos e ainda conta comigo se alguma coisa der errado.

— Então você pode dar o que é meu para ela quando bem entender?

— É só a ordem dos nomes.

A porta se abriu.

Do lado de fora, Érica segurava uma pilha de documentos contra o peito.

Ao ouvir a conversa, ela ficou com os olhos marejados.

— Mateus, eu não sabia que Paula era a primeira autora. Coloca o nome dela de volta.

Ela estendeu a lista para mim, mas não soltou o papel.

Olhei para Érica.

— Então vem comigo agora à secretaria da faculdade explicar o que aconteceu.

A expressão dela ficou tensa. Por reflexo, ela olhou para Mateus.

Ele puxou a lista de volta.

— Já foi enviada. Não complica.

— Não foi ela que disse que não queria?

— Ela só está com medo de que você fique chateada. Vai mesmo obrigar Érica a sair?

— Ela fica com o crédito pelo meu trabalho e ainda dizem que sou eu que estou pressionando ela?

Mateus fechou a expressão.

— Paula, você pode até ter razão, mas não precisa ficar encurralando Érica.

Desconectei o HD com os dados, que estava sobre a mesa.

— Então também não usem os dados principais.

Mateus segurou minha mão.

— Faltam três dias para a apresentação oficial. Como fica a equipe se você retirar os dados agora?

— A primeira autora é Érica. Deixa ela fazer.

— Ela acabou de assumir o projeto. Como vai dar conta a tempo?

— Então por que o nome dela está em primeiro?

Mateus ficou sem resposta.

Depois de um instante, pegou uma bala de goma sabor limão, desembrulhou e levou até meus lábios.

— Não faz birra. Depois da apresentação, levo você à praia.

Antes, ele sempre conseguia me acalmar desse jeito depois de me deixar com raiva.

Bastava me dar uma bala e prometer que ia compensar tudo depois para eu esquecer por que estava triste.

A bala encostou no canto da minha boca, e cheguei a abrir os lábios por reflexo.

Antes de morder, porém, lembrei das palavras de Daniel e virei o rosto.

— Não quero.

Mateus ficou com a mão no ar.

— Quem andou ensinando você a falar assim comigo?

— Ninguém.

— Então me dá o HD.

— Não.

Ele amassou a bala na palma da mão, deixando a mão toda grudenta.

Pegou um lenço de papel, limpou os dedos e voltou a falar num tom frio:

— Certo. Quero ver quanto tempo você aguenta sem a minha ajuda.

Segui para a saída com o HD na mão.

Ouvi a voz dele atrás de mim:

— Se sair por essa porta hoje, depois não vem me procurar implorando ajuda.

Quando eu tinha dezessete anos, ele me deixou sozinha numa montanha e disse a mesma coisa.

Naquele dia, caía um temporal.

Corri dois quilômetros atrás dele e perdi um dos sapatos.

No fim, ainda abracei sua cintura e implorei, chorando, para que ele não me ignorasse.

Mateus sabia muito bem que aquela frase funcionava comigo.

Por isso, nunca duvidava de que eu voltaria.

Dessa vez, não parei.

— Tudo bem.

......

Durante o ensaio, quando Érica começou a explicar o modelo central, a tela exibiu um aviso de dados ausentes.

Vieram várias perguntas da banca, uma atrás da outra, e ela não soube responder a nenhuma.

Henrique, sentado à mesa da banca, folheou a primeira versão do projeto e, de repente, olhou para mim.

— No ano passado, foi Paula quem me trouxe o protótipo desse modelo para eu revisar. Só acrescentaram o módulo de reconstrução do centro histórico. Por que ela não está como primeira autora?

A sala ficou em silêncio.

Mateus pegou o microfone e respondeu, calmo:

— Porque ela não aceitou as mudanças na equipe e reteve, de última hora, os dados compartilhados.

Todos os olhares se voltaram para mim.

Não bastava tirar meu nome do primeiro lugar.

Ele ainda me acusava, diante de todos, de sabotar o projeto por ressentimento pessoal.

Me levantei.

— Desenvolvi o modelo sozinha. A equipe alterou a ordem dos autores sem minha autorização. Já pedi uma revisão da autoria do trabalho.

Só então a expressão de Mateus mudou.

Quando o ensaio terminou, ele bloqueou a saída e estendeu a mão para ajeitar meu cabelo.

A voz voltou a ficar mansa.

— Retira o pedido de revisão que eu devolvo seu lugar de primeira autora.

— E Érica?

— Ela só precisa conseguir a vaga de pesquisadora na universidade.

— Então ainda vão usar meu trabalho.

— Paula, você tem a mim.

Ele baixou a cabeça para me olhar, como se aquilo bastasse.

— Faz o que estou pedindo. No futuro, posso conseguir projetos melhores para você.

Mateus se apropriava do meu trabalho e prometia me dar projetos melhores depois.

Como se meu esforço não tivesse valor e o que eu pudesse conquistar da próxima vez ainda dependesse da vontade dele.

Naquela noite, o HD continuou trancado no armário.

Mas, às três da manhã, surgiu um novo registro de download na minha conta de armazenamento em nuvem da universidade.

Dez minutos depois, um backup completo apareceu na caixa de e-mail compartilhada do projeto.

O dispositivo usado no acesso pertencia ao laboratório mantido em parceria pela universidade e pelo Grupo Valença.

Certa vez, quando fiquei internada, pedi a Mateus que enviasse um trabalho por mim.

Só ele sabia a senha.

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