Dionísia apertou os lábios, rangendo os dentes:
— Pode ir.
Durante toda a noite, Dionísia permaneceu no hospital com a filha, cuidando do filho, sem se afastar um só instante.
Quanto a Ibsen e Inês, que haviam dito que retornariam logo, não deram mais sinal.
O amargor tomava conta do coração de Dionísia.
Naquele momento, as fotos e mensagens de WhatsApp enviadas por Ibsen e Inês mostravam-no em casa, pegando alguns pertences, e para cada item perguntava a Inês se estava correto.
Aquilo já não era mais o tratamento dado a uma convidada, nem tampouco à simples mãe dos filhos.
Será que, no fundo, ele ainda amava Inês?
No início, ela pensara apenas que Ibsen queria compensar Inês, afinal, ela lhe dera um casal de filhos, e o próprio Ibsen dissera isso.
Mas agora, diante da atitude dele com Inês, e especialmente após a frase dita hoje, "madrasta, afinal, é madrasta", Dionísia sentia que aqueles seis anos de casamento pareciam cada vez mais uma relação de trabalho.
Parecia que tudo de bom ou ruim que fizesse dependia dos filhos, e sua única responsabilidade era cuidar deles.
Se as crianças estavam bem, ela era a esposa virtuosa. Se se machucavam, era a madrasta que fugia da responsabilidade.
Não importava o quanto se esforçasse ou fizesse tudo perfeitamente, nunca seria párea para o título de mãe biológica de Inês.
Mesmo que Inês não tivesse feito absolutamente nada.
Nove e meia da noite.
— Mamãe, já estou bem, vamos pra casa? — Carlos, tendo terminado o soro, não queria mais ficar no hospital.
Dionísia ponderou:
— Está bem, vou providenciar sua alta. Você e sua irmã não saiam do quarto, entenderam?
— Uhum!
Dionísia saiu do quarto relutante, olhando para trás a cada passo.
Sem ninguém para ajudá-la, e sem que Ibsen tivesse enviado uma babá, temia que as crianças se perdessem no hospital.
Assim que saiu, pediu a uma enfermeira que cuidasse dos pequenos por um momento.
Após concluir os trâmites da alta, levou as duas crianças de volta para casa de táxi.
-
Naquele momento, a casa da família Pinto estava intensamente iluminada, com vários carros de luxo estacionados à porta.
Dionísia lembrou-se de que Ibsen havia marcado um encontro com alguns amigos, provavelmente em casa.
— Mamãe, esse carro é caro, né? — Carlos apontou para um deles.
Dionísia lançou um olhar:
— Nem tanto.
Aos olhos dela, realmente não era grande coisa.
Antes, qualquer carro que escolhesse de olhos fechados era mais caro do que todos aqueles juntos.
Ao entrar em casa com os filhos, Dionísia parou, atônita diante da cena diante de si, um estrondo subiu do peito à cabeça!
A casa não apenas estava cheia, como havia uma animada confraternização.
A porta era bem isolada, então só ao entrar pôde ouvir as vozes festivas e as brincadeiras.
— Beija! Beija!
— Sr. Ibsen, não seja tímido!
— Inês, seus filhos já estão grandes, ainda vai ficar com vergonha?
Todos se divertiam tanto que nem notaram a entrada.
Mas os empregados viram. Queriam avisar, mas temiam a expressão da senhora naquele instante.
Do outro lado do grupo, Ibsen e Inês estavam frente a frente.
Sorrindo, Inês repreendeu os amigos:
— Não exagerem, gente. Antes eu e Ibsen éramos noivos, agora não mais.
— Mas foi só por azar! Se não fossem aqueles acontecimentos, vocês estariam tão felizes agora. Vamos, por que não celebrar a empresa do Sr. Ibsen na bolsa e o reencontro com Inês? Beija! — Disse Sávio, amigo de Ibsen.
Ao falar do passado, Ibsen olhou para Inês, que o ajudava a sair da situação embaraçosa, parecia sempre pensar nele.
Mas ele, por outro lado, nunca lhe dera nada.
Inês sorriu suavemente:
— Não vamos falar do passado, Ibsen está tão bem agora, já estou muito satisfeita.
As palavras de Inês despertaram uma onda de culpa no peito de Ibsen, tão forte que ele se inclinou involuntariamente em direção ao rosto dela.
— Beija! Beija! — Continuavam os amigos, especialmente Sávio, o mais entusiasmado.
Um outro amigo de infância, porém, franziu o cenho, permanecendo calado o tempo todo.
Todos esperavam o beijo, até o som das brincadeiras cessou e os olhares se voltaram atentos, deixando o ambiente repentinamente silencioso.
Nesse silêncio, a voz de Dionísia soou límpida e clara:
— Está divertido?
A calma e serenidade das palavras fizeram com que todos ali presentes sentissem um calafrio.
Ibsen despertou subitamente, recuando dois passos e afastando-se de Inês, que também ficou constrangida.
Ninguém esperava que Dionísia pudesse retornar de repente.
O coração de Dionísia sangrava lentamente.
Se não tivesse aparecido, provavelmente eles já estariam se beijando.
Com Ibsen, nada adiantava forçar, se havia se aproximado de Inês, era porque, no íntimo, queria.
Então, ele realmente ainda sentia algo por Inês.
Essa constatação quase a sufocou.
Enquanto ela cuidava sozinha das crianças, eles, que disseram que logo voltariam, estavam ali, entre risos e carinhos, em uma animada festa!
Os amigos de Ibsen conheciam Dionísia, mas não muito bem.
A maioria achava que Dionísia tirava vantagem, ganhando de graça um casal de filhos gêmeos, sendo de família comum, sem trabalho, apenas uma dona de casa, embora bonita e elegante.
Caso contrário, como poderia ter se casado com o antigo príncipe da Capital, Ibsen?
No entanto, Dionísia agora era Sra. Pinto, e perceberam que aquele comportamento era um exagero.
Sávio brincou:
— Dionísia, voltou? Não estava no hospital?
Dionísia sorriu de leve, olhando para Ibsen e Inês:
— Sim, estava no hospital com Carlos, que estava doente. Então, o que estão fazendo aqui?
Diante disso, os convidados perderam ainda mais a coragem.
Norah, indignada:
— Papai, o senhor não disse que só ia receber os amigos e voltava logo para o hospital?
Carlos também resmungou:
— Papai não liga pra mim, quase morri de alergia, mas você ficou aqui se divertindo com quem me levou ao hospital. Não gosto mais de você!
Os amigos se entreolharam, surpresos.
Não sabiam de nada disso.
As palavras das crianças soaram como bofetadas para Ibsen.
No início, ele realmente pretendia ir ao hospital ver os filhos, mas acabou recebendo os amigos em casa para facilitar na hora de levar roupas limpas para as crianças mais tarde.
Mas os amigos insistiram para que ficasse, Sávio chamou Inês para voltar, e assim foi se prolongando.
Dionísia olhou para todos na sala:
— Vocês são amigos do Ibsen. Fico feliz em recebê-los em nossa casa. Mas espero que saibam se portar. Srta. Inês é nossa convidada, espero que a tratem com respeito.
Nas entrelinhas, acusava-os de falta de decoro e respeito.
Todos perceberam.
Mas ninguém ousou reagir!
De repente, Dionísia se voltou para Inês:
— Srta. Inês, por acaso esqueceu que Ibsen é casado?
Ninguém esperava que a sempre gentil Dionísia, que nunca fazia escândalos, pudesse ser tão incisiva em público.
Sim, incisiva.
Especialmente para Sávio, que crescera com Ibsen e Inês, Inês era a frágil, a que precisava de proteção.
Dionísia era a mulher forte e opressora.
Inês ficou sem saber o que fazer:
— Me desculpe, eu não...
Ibsen interveio:
— Dionísia, não exagere.
— Exagero eu? — Os olhos de Dionísia se encheram de lágrimas. — Eu estava no hospital com nossos filhos, enquanto vocês aqui, como se nada fosse, queriam se beijar? Não sentem vergonha?
Ibsen reprimiu:
— Cale-se!
O silêncio caiu imediatamente.
Dionísia ficou paralisada diante do grito dele.
À frente, o rosto irado de Ibsen, ao lado, olhares curiosos dos presentes, ao fundo, as vozes dos filhos chamando-a.
Mas, na mente dela, só via o dia do casamento, quando Ibsen segurou sua mão e disse: "Eu aceito Dionísia".
Seis anos de dedicação, e o que recebeu em troca?
Repreensão de Ibsen, desprezo dos outros.
Tentou todos os papéis, menos o de Dionísia diante dos sentimentos dele.
Algo parecia se partir silenciosamente dentro dela.
Seis anos...
Talvez fosse hora de abandonar os papéis de madrasta e Sra. Pinto, e voltar a ser Dionísia.
As lágrimas de Dionísia eram cortantes, mas ela sorriu:
— Continuem, por favor.
O coração de Ibsen parecia apertado em um punho. Instintivamente tentou segurar Dionísia, mas ela se esquivou.
A mão dele ficou suspensa no ar.
Norah, aflita, segurou-a:
— Mamãe, pra onde vai? Leva a gente junto, leva eu e o mano!
Ibsen, voltando a si, também se emocionou.
Aproximou-se, pegou Carlos no colo e segurou Norah:
— Papai vai com vocês.
Inês também se aproximou dos filhos, acalentando-os com suavidade:
— Mamãe está aqui também.
A sintonia deles deixou claro para Dionísia: mesmo sem ela, aquela família não se desmancharia.
Eles eram a família de verdade.
Ela era o excesso.
Na sala, o único amigo que não dissera nada, Kléber, levantou-se apressado:
— Me desculpe, Dionísia, Sávio bebeu demais e realmente passou dos limites. Não se aborreça.
Sávio quis retrucar, mas Kléber o olhou severamente.
Queria causar mais confusão?
— Vamos indo. — Kléber puxou Sávio para fora, os demais seguiram.
No carro, Sávio não se conteve:
— O que te deu? Por que acusou Inês? Ainda foi pedir desculpas àquela mulher? Ela é só a madrasta, merece respeito?
Kléber ordenou ao motorista que partisse:
— Se você continuar assim, nossa amizade termina aqui.
Sávio não entendeu:
— Qual é o seu problema...
Kléber o cortou:
— Não importa o que acha de Dionísia, ela é a esposa legal de Ibsen! Que história é essa de Inês morar na casa, e você incentivando beijo? Enlouqueceu?
Sávio não viu erro:
— Uma mulher comum casar com Ibsen já é sorte demais! Ganhou dois filhos maravilhosos, cuidar deles é obrigação. Por que se irritar?
— Só pelo fato de ela ter criado as duas crianças como se fossem dela! Se fosse sua irmã, acha que ela conseguiria?
Sávio respondeu:
— Se minha irmã fosse madrasta, eu matava ela...
No meio da frase, Sávio se calou.
Naquele momento, diante da casa da família Pinto.
Dionísia estava prestes a sair, quando ao passar pelo hall, viu por acaso um celular esquecido sobre o sapateiro.
A tela exibia uma foto antiga em grupo, e Ibsen parecia ainda estar no ensino médio.
Chamava atenção a camisa que ele usava, idêntica à de Inês na foto, claramente um par de casal.
Ibsen guardava aquela camisa até hoje, embora já não servisse, sempre estava passada e pendurada no closet, sem permitir que ninguém tocasse.
Dionísia sabia que aquela camisa era importante para ele, pensava que talvez fosse presente da mãe. Jamais imaginara...
Era, na verdade, um par de casal com Inês.
A revelação repentina a atingiu em cheio.
As lágrimas de Dionísia transbordaram dos olhos, o coração rasgou-se em dor, e sem palavra alguma, saiu de casa.
Ibsen a viu sair e disse a Inês:
— Vá descansar.
— Mamãe! — Norah e Carlos correram atrás de Dionísia.
A poucos passos da porta, Norah a segurou. Dionísia abaixou-se, lágrimas no rosto:
— Hoje a mamãe vai dormir na casa de uma amiga. Vocês fiquem em casa e se comportem.
— Não! — Protestou Carlos de imediato.
Norah defendeu Dionísia:
— Quem tem que ir embora é ela, não você! Você é nossa mãe, a dona da casa!
Dionísia se surpreendeu.
Sim, ela era a dona da casa.
Mas Ibsen nunca a reconhecera como tal.
Ibsen, que ouvira as palavras da filha, finalmente percebeu a rejeição dos filhos a Inês, e o quanto gostavam de Dionísia.
Lembrou-se de como Dionísia cuidava dos pequenos, noites sem dormir.
Todos viam o esforço dela.
— Dionísia.
Ela não levantou a cabeça.
A voz dele fez-lhe lembrar do dia em que se conheceram no curso de treinamento.
As lágrimas dela aumentaram:
— Você ainda a ama?
Ibsen silenciou.
Dionísia sorriu amargamente.
Ele disse:
— Amando ou não, você é minha esposa, somos marido e mulher.
O olhar de Dionísia tremeu:
— Para você, eu sou apenas um dever de esposa? Você...
Criada como uma filha privilegiada, Dionísia estava prestes a ser esmagada pela verdade.
Descobriu que, no fundo do desamparo, a voz realmente não saía.
Queria perguntar: então você só se casou comigo para eu cuidar de seus filhos?
Como se despertasse de um sonho, percebeu que havia errado.
Errou por não ouvir os pais e o irmão.
Errou por girar sua vida em torno dele e das crianças.
Errou ao abandonar a carreira, perder o próprio valor, tornando-se apenas "responsável pelos filhos".
Cada passo, um erro.
Achava que os pais eram um fardo, mas por ele, rompeu todos os laços.
A realidade, porém, lhe mostrou: os pais eram proteção e dignidade.
As lágrimas escorriam incontroláveis.
Ibsen franziu o cenho:
— Dionísia, você...
Ela nunca chorara assim, nem uma vez em seis anos de casamento.
Ibsen sentiu o peito apertar, quis abraçá-la.
Nesse momento, ouviu a voz de Inês:
— Dionísia, deixa eu te explicar, não vá... ah—!
Inês, que subira para descansar, voltou às pressas e torceu o tornozelo ao descer as escadas.
O grito assustado chamou a atenção.
Ibsen girou rapidamente:
— Inês?!
Pelo visto, Inês se machucou sério, suando de dor:
— Não consigo mexer, está doendo...
Ibsen a pegou nos braços e saiu apressadamente, dirigindo-se ao hospital sem demora.
O motor do carro rugiu ao longe.
Dionísia, parada à porta, sentia o peito entorpecido de tanta dor.
Toda expectativa e autoconforto estavam despedaçados.
-
Alta madrugada.
Com apenas empregados em casa, Dionísia não podia simplesmente ir embora, então cuidou dos filhos até que adormecessem exaustos.
Ao lado da cama, Dionísia segurava a mão de Norah. Sempre que a filha a defendia, sentia que todos os anos de dedicação não tinham sido em vão.
Mas também compreendia o quanto era difícil se desprender das crianças.
A porta se abriu de repente.
Ibsen voltou.
Dionísia olhou para ele, mas não disse nada.
— As crianças já dormiram?
— Sim. — Dionísia levantou-se e saiu do quarto infantil.
Virou-se para Ibsen:
— Vamos conversar.
Ibsen apertou os lábios, em silêncio.
No quarto principal.
Dionísia sentou-se, direta e decidida:
— Vamos nos divorciar.