LOGINA chuva já havia transformado as ruas em um verdadeiro espelho de luzes.
Os faróis dos carros refletiam no asfalto molhado, enquanto o som das buzinas se misturava ao barulho da tempestade. Helena caminhava lentamente. Seu corpo seguia em frente. Sua alma parecia ter ficado naquele apartamento. O vento frio fazia seus cabelos grudarem no rosto, mas ela sequer percebia. Seu celular voltou a tocar. Pela décima... talvez vigésima vez. Ela o tirou da bolsa. Na tela, o nome de Ricardo piscava insistentemente. Helena observou o visor durante alguns segundos. Então, sem hesitar, desligou o aparelho. — Você não faz mais parte da minha vida... — murmurou. Guardou o celular novamente. Precisava respirar. Precisava encontrar forças para voltar para casa e explicar tudo à mãe. Mas ainda não conseguia. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. Foi então que um grito cortou o barulho da chuva. — Cuidado! Helena levantou a cabeça. Do outro lado da avenida, um pequeno menino corria desesperado. Ele segurava um ursinho de pelúcia contra o peito. Os cabelos claros estavam encharcados. O rosto estava coberto de lágrimas. Ele olhava para trás como se estivesse fugindo de alguém. Não percebeu o semáforo abrir. Um carro surgiu em alta velocidade. O motorista buzinou. Os pneus deslizaram sobre o asfalto molhado. Tudo aconteceu em questão de segundos. — Meu Deus! Helena largou a bolsa no chão. Sem pensar. Sem medir o perigo. Correu. O coração disparado. A chuva dificultava cada passo. Ela alcançou o menino exatamente quando ele entrou na frente do carro. Segurou-o pela cintura. Com toda a força que tinha, lançou os dois para o outro lado da pista. O automóvel passou a poucos centímetros deles. O som da freada ecoou por toda a avenida. Por um instante... O mundo ficou em silêncio. Helena permaneceu abraçada ao menino. Seu coração batia descontrolado. Ela respirava com dificuldade. As mãos tremiam. Devagar, afastou o rosto. — Você está bem? O menino ainda não conseguia falar. Apenas assentiu com a cabeça. Os olhos azuis estavam arregalados de susto. Helena sorriu, apesar do próprio desespero. — Está tudo bem... Você está seguro agora. Foi então que percebeu um pequeno machucado no joelho dele. Nada grave. Mas suficiente para fazê-lo sentir dor. Ela rasgou delicadamente um pedaço da barra de sua própria blusa e improvisou um curativo. — Pronto... Vai melhorar. O menino a observava em silêncio. Como se tentasse entender por que aquela desconhecida estava cuidando dele. Depois de alguns segundos, perguntou baixinho: — Você é um anjo? Helena não conseguiu conter um sorriso. Fazia horas que não sorria. — Não. Sou só uma moça muito preocupada. Ele apertou o ursinho contra o peito. — Todo mundo vai embora... Você também vai? A pergunta atravessou Helena. Ela conhecia aquela sensação. Naquele mesmo dia... As duas pessoas em quem mais confiava haviam ido embora de sua vida. Ela acariciou delicadamente os cabelos do menino. — Não enquanto você precisar de mim. Os olhos dele se encheram de lágrimas novamente. Sem pedir permissão... Abraçou Helena com toda a força de seus pequenos braços. Ela fechou os olhos. Retribuiu o abraço. Por alguns segundos, duas pessoas completamente desconhecidas encontraram conforto uma na outra. Enquanto isso... Na Mansão Castellani... Lorenzo terminava de assinar alguns documentos. Olhou o relógio. Oito e quarenta da noite. Franziu a testa. Era estranho. Enzo sempre aparecia para lhe dar boa-noite. — Carlos. Chamou um dos seguranças. — Você viu o Enzo? O homem pareceu confuso. — Achei que ele estivesse com o senhor. Lorenzo levantou imediatamente. Seu coração apertou. Subiu as escadas rapidamente. Entrou no quarto do filho. Vazio. Banheiro. Vazio. Sala de brinquedos. Nada. Seu rosto perdeu completamente a cor. — ENZO! Sua voz ecoou pela mansão. Os empregados começaram a correr pelos corredores. Sabrina saiu do quarto fingindo preocupação. — O que aconteceu? Lorenzo olhou para ela. — O Enzo sumiu! Ela arregalou os olhos teatralmente. — Como assim? — Eu estou perguntando isso para você! Sabrina levou a mão à boca. — Eu... eu achei que ele estivesse dormindo... Lorenzo já não a escutava. Pegou o celular. Ligou para o chefe da segurança. — Fechem todos os portões! Procurem em cada metro dessa propriedade! Agora! Os homens começaram a correr. Cães farejadores foram acionados. Carros deixaram a mansão em alta velocidade. Lorenzo sentiu um medo que nunca havia experimentado. O mesmo medo que sentiu no dia em que perdeu a esposa. A ideia de perder também o filho era insuportável. Ele fechou os olhos por um instante. — Aguenta firme, campeão... O papai vai encontrar você. Nem que eu precise procurar a cidade inteira. De volta à avenida... Helena olhou ao redor. Não havia nenhum adulto procurando pelo menino. Nenhuma família. Nenhum responsável. Apenas chuva. Carros. E aquele pequeno garoto completamente sozinho. Ela sorriu com delicadeza. — Qual é o seu nome? O menino demorou alguns segundos para responder. Depois sorriu timidamente. — Enzo. — Eu me chamo Helena. Ele repetiu baixinho. — Helena... Como se estivesse guardando aquele nome dentro do coração. Naquele exato instante... Faróis muito fortes iluminaram os dois. Vários carros pretos pararam bruscamente na calçada. Homens de terno desceram rapidamente. E, logo atrás deles, outro veículo freou com violência. A porta se abriu. Um homem alto, elegante e de olhar intenso saiu praticamente correndo sob a chuva. Assim que seus olhos encontraram o menino nos braços daquela desconhecida, ele parou por um instante. O alívio tomou conta de seu rosto. — Enzo! O garoto virou imediatamente. Seu rosto se iluminou. — Papai! Sem pensar duas vezes, correu na direção daquele homem. Helena observou a cena em silêncio. Ainda não sabia quem ele era. Mas bastou um único olhar para perceber que aquele homem carregava uma dor tão profunda quanto a sua. E nenhum dos dois imaginava que aquele encontro mudaria suas vidas para sempre."Algumas pessoas desaparecem da nossa vida. Outras desaparecem apenas para que possam retornar no momento em que mais precisamos da verdade."Helena ficou imóvel diante da janela.A silhueta permanecia parada na porta da casa do outro lado da estrada.Seu coração começou a bater acelerado.Ela conhecia aquele rosto.Conhecia aquele olhar.Conhecia aquela pessoa.— Não... — murmurou.Lorenzo percebeu a mudança em sua expressão.— Helena, quem é?Ela não respondeu.Apenas continuou olhando.Beatriz aproximou-se da janela.Quando viu a pessoa, levou a mão à boca.— Meu Deus...Isabela olhou para ela.— Você também conhece?Beatriz começou a chorar.— Sim.Valentina franziu a testa.— Quem é?Helena finalmente conseguiu falar:— Meu avô.O silêncio tomou conta da sala.Lorenzo olhou novamente para a casa.— Henrique?Helena assentiu.— Ele está vivo.Clara começou a chorar.— Eu disse que vocês não estavam preparadas.Helena se virou.— Há quanto tempo você sabe?— Desde que ele reaparece
"Existem verdades que, quando descobertas, não libertam imediatamente. Primeiro, elas destroem tudo aquilo que acreditávamos ser real."Helena continuava olhando para o celular.A ligação havia terminado.Mas as últimas palavras de Samuel continuavam ecoando em sua mente.“O homem que vocês estão procurando não é meu chefe.”“É seu verdadeiro pai.”Ela sentia o coração bater descompassadamente.Lorenzo aproximou-se.— Helena...Ela ergueu os olhos.— Samuel disse que o homem que está por trás de tudo é nosso pai.Isabela ficou imóvel.Valentina também.— Mas como isso é possível? — perguntou Isabela.Helena balançou a cabeça.— Eu não sei.Beatriz aproximou-se lentamente.— Talvez seja hora de vocês conhecerem toda a verdade.As três irmãs olharam para ela.— Toda? — perguntou Valentina.Beatriz respirou fundo.— Sim.Eles voltaram para a casa onde estavam escondidos.Beatriz fechou todas as portas e janelas.Depois colocou sobre a mesa uma antiga caixa de madeira.Helena reconheceu i
"Quando tudo parece perdido, é preciso descobrir quem realmente está ao nosso lado. Porque, no momento decisivo, até um aliado pode se tornar a maior ameaça."Helena ficou paralisada.Ricardo segurava a arma apontada diretamente para Lorenzo.Samuel permanecia atrás dele, com um sorriso frio.No chão, Valentina lutava para respirar.— Não! — Helena gritou. — Ricardo, abaixe essa arma!Ele não se moveu.Lorenzo permaneceu imóvel.— Ricardo, se quer alguma coisa, fale comigo.Samuel soltou uma risada.— Ainda tentando negociar?Lorenzo ignorou-o.Seus olhos continuavam fixos em Ricardo.— Você não precisa fazer isso.Ricardo apertou a arma.— Eu sei.Helena sentiu o coração apertar.— Então abaixe.Ricardo olhou para ela.Por um instante, seus olhos revelaram dor.— Eu sinto muito.Samuel ordenou:— Atire.Helena se colocou diante de Lorenzo.— Não!Ricardo arregalou os olhos.— Saia da frente, Helena.— Não vou.— Ele vai morrer.— Então você terá que passar por mim primeiro.Samuel fi
"Às vezes, a pessoa que mais desejamos encontrar é justamente aquela que passou a vida acreditando que somos seu maior inimigo."Helena não conseguia tirar os olhos da mensagem.“Isabela acredita que foi você quem matou o pai dela.”As palavras pareciam não fazer sentido.— Meu pai? — perguntou Helena, quase sem voz. — O pai dela?Beatriz assentiu lentamente.— Sim.— Mas eu nunca matei ninguém!— Eu sei.— Então quem contou isso a ela?Beatriz abaixou os olhos.— Samuel.Helena sentiu o peito apertar.— Ele destruiu nossas vidas...Lorenzo aproximou-se e segurou sua mão.— E agora quer usar Isabela contra você.— Mas ela é minha irmã.— Exatamente.Helena respirou fundo.— Onde ela está?Beatriz respondeu:— Em uma casa antiga, nas montanhas. Foi para lá depois que desapareceu.Lorenzo pegou as chaves do carro.— Então vamos.Beatriz segurou seu braço.— Não será tão simples.— Por quê?— Porque Isabela não sabe que você é irmã dela.Helena ficou imóvel.— Ela não sabe?— Não.— Entã
"Algumas histórias começam no instante em que nascemos. Outras começam antes mesmo de abrirmos os olhos para o mundo. E, às vezes, para descobrir quem somos, precisamos voltar exatamente ao lugar onde tudo começou."Helena permaneceu parada diante do papel.“No hospital onde sua história realmente começou.”Ela releu a frase.Depois olhou para Beatriz.— Mãe... o que aconteceu naquele hospital?Beatriz demorou a responder.— Foi naquela noite que tudo mudou.Lorenzo aproximou-se.— E Augusto?— Samuel o levou para lá porque sabe que é o único lugar onde Helena pode descobrir toda a verdade.Helena apertou os punhos.— Então vamos.Beatriz segurou seu braço.— Você precisa estar preparada.— Para quê?— Para descobrir que talvez algumas das coisas que você acredita sobre o seu nascimento nunca tenham acontecido da maneira que contaram.Helena sentiu um arrepio.— Eu quero saber.Lorenzo segurou sua mão.— Então nós vamos descobrir juntos.O hospital estava abandonado havia anos.A fach
"Quando o passado abre suas portas, não há como voltar a ser quem éramos antes de conhecer a verdade."A mensagem de Samuel continuava aberta na tela do celular.“Venha sozinha à casa de Henrique. Se trouxer Lorenzo, Augusto morre.”Helena sentia o coração apertado.— Eu vou.Lorenzo imediatamente balançou a cabeça.— Não.— Lorenzo...— Não vou permitir que você entre naquela casa sozinha.— Ele está com meu pai.— E é exatamente por isso que não podemos fazer o que ele quer.Beatriz permaneceu em silêncio, observando os dois.Então falou:— Samuel espera que você vá sozinha.Helena olhou para ela.— E o que você sugere?— Que façamos exatamente o contrário.Lorenzo sorriu.— Finalmente concordamos em alguma coisa.Helena respirou fundo.— Então qual é o plano?Beatriz se aproximou do mapa que estava sobre a mesa.— A casa de Henrique tem três entradas.Ela apontou para uma delas.— A principal estará vigiada.Depois apontou para os fundos.— Aqui existe uma passagem subterrânea.Lor







