FAZER LOGINLaylaJá a ONG… ah, a ONG floresceu. Com a força de Kaleo, vieram patrocinadores grandes, responsáveis e discretos, com a minha insistência, vieram reformas, ambulatórios novos, equipe triplicada. A Terra & Vida ganhou duas filiais em bairros diferentes, e as crianças agora têm um espaço de leitura com janelas enormes. Quando inauguramos a segunda unidade, Kaleo me segurou a mão por trás do palco e cochichou:— Você é mais perigosa que eu. — E sorriu com orgulho.Sarah, minha Sarah, se apaixonou. Por um vizinho meu. É claro. Morar perto virou projeto coletivo. O nome dele é Daniel, ele tem um sorriso que lembra casa aberta e mãos de quem conserta o que os outros quebram. Vi quando os olhos deles se encontraram na portaria, e o mundo segurou a vida nas mãos por um segundo.— Eu tô ferrada, Lay. — ela me disse naquela noite, na minha cozinha — E feliz.— Quer dizer que vai morar no prédio?— Em breve. — Ela piscou — Quero participar do condomínio dos loucos felizes e ricos.— O vilão a
LaylaTrês anos de casada com o vilão que o mundo aprendeu a temer e eu aprendi a amar. Engraçado como as pessoas chamam isso de fase. Para mim, parece mais uma vida inteira que começou no instante em que decidi que paz, para mim, tinha olhos azuis e humor perigoso. E um detalhe que eu não contava: ele é insaciável. Não é metáfora, é boletim de ocorrência do meu corpo. Kaleo acorda com fome, passa o dia faminto, e à noite... à noite meu nome vira religião. Resultado? Estou grávida. De gêmeos. Um casal. E hoje é o nosso aniversário de casamento.Passei a manhã preparando a surpresa. Uma caixa de madeira preta, simples por fora, terremoto por dentro: dois sapatinhos minúsculos, um branco com cadarços dourados, outro vermelho com cadarços prateados, duas roupinhas dobradas com cintas de seda e, por baixo, a ultrassonografia com os dois perfis pequeninos apontados para o futuro. Sim, dois. Quando vi a tela, chorei, ri e abracei a médica como se ela tivesse me dado a senha para o paraíso.
KaleoMeses se passaram desde que Bart desapareceu do nosso caminho algemado e sem glória. Meses em que aprendi que silêncio também pode ser paz, que rotina pode ser um refúgio, e que até monstros conseguem respirar sem sangue na boca.Casei-me com Layla sem pompas de realeza. Nada de castelo de cristal, nada de véus intermináveis. Apenas nós dois, as pessoas que realmente importavam e uma aliança simples, que no meu dedo pareceu uma algema doce, e no dela, uma chave. A sociedade, claro, não engoliu fácil.As manchetes chamaram-na de interesseira, de "a santa que virou diabinha vendida ao magnata". As mulheres nos jantares a olhavam de cima a baixo, como se pudessem farejar ouro na pele dela. Os homens a observavam como se fosse troféu, e alguns ainda cochichavam que eu perdi a sanidade ao escolher uma "filantropa sem fortuna".Eu ouvia. Eu sabia. Mas não me importava.Layla era a minha prioridade. O resto, apenas estática.— Eles falam. — ela me disse uma noite, tirando os brincos di
LaylaO beijo começou de pé, deslizou pela sala, encostou no piano, bateu no vidro da varanda com a cidade por testemunha. As mãos dele sabiam de mim como quem já amou este mapa noutras vidas, as minhas reconheciam nele o alívio de estar de volta.— Dói? — perguntei, roçando os lábios perto do ombro, mas com a ponta dos dedos no curativo.— Só o que me mantém vivo. — ele respondeu, engolindo um gemido quando meus dedos traçaram um caminho acima da atadura.— Então deixa doer de um jeito bom.E doeu. Devagar. Sem nenhuma palavra que nos envergonhasse, com todas as que nos libertavam. Quando ele segurou meus pulsos, foi leve, quando eu me soltei, foi certo. Fizemos amor devagar.Quando ele pediu meus olhos, dei. Quando eu pedi mais, ele entendeu. O corpo se curvou à música que não tocava. Eu disse o nome dele inteiro, e ele devolveu o meu como quem assina um documento irrevogável.Depois, deitamos virados um para o outro, o cabelo colado à testa, o riso fácil.— Pronto. — ele disse, pas
LaylaOs dias depois do galpão cheiraram a antisséptico e chuva. A cidade se moveu sozinha, como se precisasse provar que ninguém é imprescindível. Na cobertura, eu aprendi a abrir e fechar curativos como quem decifra um idioma novo. A pele de Kaleo, cortada no abdômen, pedia paciência ele, como sempre, pedia controle.— Não precisa olhar assim. — ele resmungou, apoiado na beira da cama — Já vi feridas piores.— Não no meu homem. — respondi, cortando a fita do curativo — Fica quieto.— Eu não sei ficar quieto.— Aprende.Ele deu meio sorriso e obedeceu. Eu limpei a ferida com cuidado, sentindo os pelos do braço dele eriçando quando a gaze encostava. Na janela, a tarde era com nuvens de algodão. Por dentro, alguma coisa minha alargava espaço.— Dói? — perguntei baixo.— Você tem ideia do que é sentir o seu toque doer? — Ele fechou os olhos, um suspiro que perdeu a arrogância no meio do caminho — É bom. E é tortura.— É cicatrização. — corrigi — Significa que já passou.— Nada passa em
KaleoO telefone vibrou de madrugada. Uma voz trêmula do outro lado, um dos meus homens, me disse o que eu já temia: Bart tinha desaparecido com Layla. Ela me pediu para ficar um final de semana só com a família dela já que nós iríamos viajar por uma semana… grande tolo eu sou.O sangue gelou, depois ferveu. O som da chuva contra os vidros da cobertura parecia zombar da minha calma. Levantei da poltrona como quem levanta de um túmulo, e tudo em mim voltou a ser instinto.— Onde? — rosnei.— “Um galpão na zona portuária. Tem homens armados. Parece que ele quer fazer um espetáculo.”Sorri de canto, aquele sorriso que meus inimigos chamam de aviso de morte.— Então ele vai ter o ato final. — Encerrei a ligação.Peguei a arma da gaveta, mas não foi a arma que me deu coragem. Foi o nome dela. Layla.No carro, atravessando as ruas desertas, pensei no caminho inteiro que percorri até aqui. Tudo começou com Adrian. A raiva, a vingança, o ódio que me alimentava. Sempre foi sobre ele. Até que







